A visita do cavaleiro do além

Por: Neves Couras

No começo do século passado nossa família vivia em um grande sítio à beira de um açude que abastecia toda comunidade circunvizinha. À época, histórias de espíritos, de botijas, que tinham seu paradeiro revelado em sonho pelo morto que a enterrara, sempre instruindo que para arrancar os presentes, o escolhido precisava seguir uma série de rituais que deveriam ser seguidos, eram lugar comum.

Para a época tudo era aceito sem espanto a não ser a sorte de quem achou a botija. Na casa de meus avós havia um mistério que passava de geração em geração.

As casas, então, eram construídas muito altas para facilitar a ventilação, aproveitava-se esse espaço para se fazer um sótão onde eram guardados os mantimentos e alguns alimentos como os queijos, carne de sol… para manter a alimentação da semana, outras vezes até do ano, como era o caso do feijão e do milho.

Por estes tempos não se tinha o costume de guardar os mantimentos em pequenos potes como fazemos hoje. No outono, conforme as colheitas iam sendo feitas, o café torrado, a rapadura, o arroz na casca, tudo era guardado em malas de couro, latas, silos, e até em tanques de areia de rio. Se comprava muito pouco, o café, o sal, as vezes a rapadura. O restante era a produção da casa.

Todas as noites, após todos se deitarem, a lamparinas e lampiões apagados, ouvia-se vindo de longe um cavalo bem apressado, parando na porta da casa. Todos da casa ouviam. O cavaleiro descia do cavalo, ouvia-se o barulho das esporas no assoalho de madeira, abria a porta, subia as escadas que davam acesso ao sótão, ouvia-se o barulho das latas sendo derrubadas das prateleiras, tudo sendo jogado no chão. Depois da barulheira e da bagunça feita, voltava, descia as escadas fazendo o mesmo barulho abria a porta, ouvia-se o barulho da porta batendo para fechar, subia no cavalo e voltava para onde veio.

Com o medo que tinham, ninguém se mexia até o dia seguinte. Subiam para ver a bagunça, mas supreendentemente, tudo estava no lugar.

O Cavaleiro deixou de aparecer quando uma das minhas tias, considerada destemida, resolveu esperar a visita. Pediu à sua babá um lampião, sentou-se na janela e pôs-se a esperar. Nada do cavaleiro aparecer e nada dela adormecer.

A babá, já sabendo do gênio da menina, preparou sua mamadeira noturna, desta vez mais caprichada: leite, açúcar e uma boa dose de cachaça. Ao contrário do cavaleiro, o sono veio, a menina dormiu, e por quanto se soube o cavaleiro desistiu de vir atormentar os vivos, talvez por saber que ali morava uma menina mais destemida do que ele era audacioso.

 

“Quando a madrugada guarda seus segredos, resta à memória acender um lampião e continuar contando histórias.”

          Curadoria – Gorette Wanderley

 

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