Um burro preto de sete palmos de altura

Por: Antônio Henrique Couras

Damas e cavalheiros, sentem-se, respirem fundo e passem um café, porque a história de Dark Horse, o duvidoso filme sobre Jair Bolsonaro, está cada vez mais digna de folhetim das nove, daqueles que minha avó reclamava por “só terem ruindade”. Na saga do burro preto, ninguém presta, todo mundo sabe demais e a mocinha, se é que existe uma, ainda não apareceu no capítulo.

A princípio, venderam a coisa como cinema: roteiro, elenco internacional, cinebiografia, bastidores, tapete vermelho, aquele resplendor dourado de quem quer transformar política em epopeia. Mas, como em toda fofoca boa, bastou puxar uma linha da barra do vestido para aparecerem as calçolas da mocinha. E as calçolas, meus amores, parecem feitas de contrato público, emenda parlamentar, ONG, produtora, Wi-Fi na periferia e um silêncio administrativo que grita mais do que apresentador em quadro de DNA.

No centro do palco está Karina Ferreira da Gama, dona da produtora ligada ao filme do burro preto e também ligada ao Instituto Conhecer Brasil, uma ONG contratada para instalar Wi-Fi gratuito em comunidades de São Paulo. Até aí, alguém poderia dizer: “Que bonito, cultura e inclusão digital andando de mãos dadas”. Poderia. Mas aqui a mão dada parece mais uma dessas mãos que ninguém sabe exatamente em qual bolso, ou algema, estava.

O contrato do Wi-Fi Livre SP, de mais de cem milhões de reais, deveria levar internet à periferia. Bonito no papel, emocionante no PowerPoint, digno de aplauso em palanque. Só que a polícia e o Ministério Público resolveram olhar para essa festa beneficente e encontraram perguntas demais para respostas de menos. Pontos prometidos, pontos entregues, notas fiscais sob suspeita, subcontratações, cronogramas que se movem com a agilidade de um jabuti entrevado. E, claro, no fundo da sala, o burro preto relinchando baixinho.

Porque é isso que incomoda: por que tudo parece sempre voltar ao filme? O que essa produtora, que nunca produziu nenhum filme, tem a ver com a ONG de Wi-Fi que nunca nem instalou o WhatsApp no telefone da avó?
A defesa dirá, com cara séria e voz de cartório, que não há prova de que dinheiro público tenha financiado Dark Horse. E é verdade: investigação não é condenação, suspeita não é sentença, manchete não é acórdão. Mas a opinião pública também não nasceu ontem. Se alguma coisa tem pelo, bigodes, garras e mia, tem tudo para ser um gato.

Mário Frias, produtor executivo do filme e deputado federal, destinou emendas para o Instituto Conhecer Brasil. Ele nega qualquer triangulação e afirma que o dinheiro era para projetos de inclusão digital, empreendedorismo e esporte. Muito bem.

Só que, quando uma ONG ligada à dona da produtora recebe emenda, fecha contrato milionário com prefeitura, vira alvo de operação policial e aparece orbitando um filme político feito para santificar uma família política, não dá para exigir que o público apenas sorria e diga: “Nossa, que coincidência graciosa”.

Coincidência, neste país, às vezes é só o nome artístico da conveniência.
E o mais curioso é que Dark Horse parece ter se tornado uma espécie de ímã de dinheiro com vocação para confusão. Tem parlamentar, tem ONG, tem prefeitura, tem contrato público, tem empresário, tem conversa sobre financiamento privado, tem banco, tem exterior, tem produtora, tem associação cultural, tem tudo. Só falta entrar uma tia vendendo rifa de um liquidificador nos créditos finais.

O problema não é fazer filme político. O problema não é gostar de Bolsonaro, detestar Bolsonaro, escalar ator estrangeiro ou transformar facada em roteiro heroico. Cada grupo político que faça seu santinho audiovisual e dispute o Oscar da própria bolha. O problema começa quando um projeto privado, ideológico e eleitoralmente conveniente passa a orbitar estruturas abastecidas por dinheiro público. Aí, meu bem, o cinema deixa de ser arte e vira lavanderia.

Lavanderia, vejam bem, no sentido metafórico, porque quem dirá se houve lavagem de dinheiro, desvio ou triangulação criminosa serão as autoridades competentes. Mas que o cheirinho de sabão e amaciante está no ar, isso está.

A história toda tem aquele perfume de Brasil profundo: a periferia entra como cenário da boa ação, a cultura entra como embalagem nobre, a emenda parlamentar entra como bênção republicana e, no final, o público fica tentando descobrir quem pagou a conta do espetáculo. Enquanto isso, os envolvidos dizem que está tudo certo, tudo legal, tudo transparente.

E há ainda a questão dos dados. Porque, segundo reportagens, o contrato do Wi-Fi também teria aberto margem para o uso de informações de usuários em campanhas de mensagens. Ou seja: o cidadão da periferia, que deveria receber acesso à internet como política pública, pode ter virado matéria-prima de marketing. A pessoa entra para se conectar e sai, sem saber, conectada a uma engrenagem de propaganda. É inclusão digital ou pescaria eleitoral?

Essa é a pergunta que deveria tirar o sono de qualquer gestor público minimamente comprometido com a decência. Mas decência, no Brasil, anda sendo tratada como item opcional, tão qual ar-condicionado em Chevette.

O mais grave é que esse caso parece ser apenas a ponta do iceberg. E não um iceberg culto, desses de documentário da BBC. É um iceberg de isopor sujo boiando no piscinão da política nacional. A cada nova reportagem, surge uma nova camada: entidade sem experiência compatível, contrato faraônico, emenda obscena, execução duvidosa, filme milionário, aliados políticos e uma coreografia financeira que ninguém consegue explicar sem gaguejar.

Talvez esteja tudo dentro da lei. Talvez os documentos provem que cada centavo foi usado corretamente. Talvez todas essas coincidências sejam apenas coincidências, uma constelação inocente de acasos administrativos. Talvez.

Mas, cá entre nós, quando uma história exige tantos “talvez”, o público tem todo o direito de desconfiar do roteiro.
Dark Horse queria contar a saga de um azarão. Acabou protagonizando outra narrativa: a de um país onde dinheiro público circula por caminhos tão criativos que até roteirista de ficção política pediria para o enredo ser menos exagerado. No filme, talvez queiram vender heroísmo. Na vida real, por enquanto, o que aparece é um burro preto puxando uma carroça de ladrões.

 

“Quando o caminho é tortuoso, não basta seguir a carroça. É preciso observar quem segura as rédeas.”

 

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo