
Por: Ramalho Leite
Para chegar à Cadeira nº 7 da Academia Paraibana de Letras, percorri as vidas e as obras de seu patrono, o jornalista Artur Aquiles; do fundador da cadeira e da própria Academia, Coriolano de Medeiros; e de seus sucessores, Maurílio Augusto de Almeida e Dorgival Terceiro Neto. É sobre o penúltimo deles que me volto agora, por ocasião do centenário de seu nascimento.
Homem de fino trato, nobre neto do Barão de Araruna, Maurílio dedicou-se com igual paixão à ciência e à história. Como observou o acadêmico João Lira Filho, “foi atraído pelo hábito das análises clínicas, talvez pela mesma inclinação que o levou a pesquisar os meandros ocultos da história”.
Maurílio nasceu em Bananeiras. Era filho de Pedro Augusto de Almeida e Maria Eulina. Sua mãe era neta do Comendador Felinto Florentino da Rocha, filho de Estevam José da Rocha, o Barão de Araruna, título outorgado pela Princesa Isabel. Se não herdou a nobreza formal, recebeu em abundância o cavalheirismo e a distinção no trato com os semelhantes. Foi um nobre por nascimento e por caráter.

Da trajetória de seu ilustre antepassado fez história, ao escrever O Barão de Araruna e Sua Prole. Escreveu-o com amor e rigor, pois, como ensinava João Lira Filho, “o verdadeiro amor à história exige o fôlego de um escafandrista que mergulha em seu íntimo investigativo com sabedoria”.
Aqui, no frio de sua terra natal, onde me encontro, na casa em que viveu até os doze anos de idade, imagino-o criança a percorrer este mesmo chão cuja originalidade procurei preservar. Quase posso ouvir suas risadas, os folguedos que divertiam os irmãos e os conselhos do velho deputado constituinte de 1935, seu pai, professor, restaurador do Instituto Bananeirense e também um dos melhores prefeitos que esta cidade conheceu.

Não tardou para que o jovem estudante marista seguisse rumo à Faculdade de Medicina e construísse uma fecunda trajetória intelectual. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico, do Instituto de Genealogia e Heráldica, da Fundação Cultural do Estado, da Academia Pernambucana de Medicina, da Academia Paraibana de Medicina, da Academia de Artes e Ciências do Nordeste e da Sociedade Brasileira de Escritores Médicos. Foi também um dos fundadores da nossa Faculdade de Medicina, além de integrar inúmeras instituições enriquecidas por sua presença.
Maurílio reuniu a maior e mais distinguida coleção bibliográfica de autores paraibanos de que se tem notícia. Seus livros, frutos de cuidadosas pesquisas históricas, permanecem preservados, hoje organizados pela historiadora Monique Citadino, membro do IHGP. Outros exemplares podem ser encontrados apenas em sebos que ainda conservam edições esgotadas. Entre suas obras destacam-se A Presença de Dom Pedro II na Paraíba, Diogo Velho em Síntese, O Barão de Araruna e Sua Prole, Lembrando Pedro Augusto de Almeida no Seu Centenário, Eram Seis as Pétalas da Rosa, além de coletâneas de discursos e palestras.

Seus livros são verdadeiramente deliciosos. Neles encontramos descrições minuciosas da Festa da Padroeira de Bananeiras, o curioso privilégio de determinadas famílias que possuíam tribunas privativas na Igreja Matriz do Livramento, as mudanças sazonais do Barão de Araruna — acompanhado da família e do gado — para o Curimataú, em busca de clima mais ameno durante os rigorosos invernos do Brejo, os hábitos de encomendar roupas a costureiras do Recife e até a refinada louça utilizada diariamente pelo Barão e pelo Comendador.
Esses detalhes compõem um rico painel da vida familiar dos maiores produtores de café do Brejo paraibano. Ao falecer, o Comendador Felinto, filho do Barão, deixou cerca de noventa e seis propriedades rurais distribuídas entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Nem por isso deixaram de ser, segundo consta no inventário que tramitou na Comarca de Bananeiras, os primeiros a conceder alforria aos escravos que ainda possuíam. O Barão, produtor de açúcar e café no Engenho Jardim, transmitiu esse patrimônio que chegou ao trineto Jurandir Rocha, em cujas terras hoje surge um condomínio rural.

Foi dessa estirpe que nasceu Maurílio Almeida, sem jamais abandonar a modéstia que o caracterizava. Ao falar sobre o patrono de sua cadeira na Academia Paraibana de Letras, o jornalista Artur Aquiles, declarou com a humildade dos grandes homens:
“Ele viveu ao sol; eu, ao contrário, permaneci na sombra.”
Entretanto, cem anos após seu nascimento, a história demonstra que Maurílio jamais esteve na sombra. Seu legado continua iluminando a cultura, a medicina e a historiografia paraibanas.





