
Por: Mirtzi Lima Ribeiro
Eu entendo que viver com consciência é estabelecer para si mesmo um elevado nível de espiritualidade naquilo que for possível ser desenvolvido momento a momento. E essa expressão que nos remete ao sagrado não deve ser decorativa, antes, deverá assumir uma conotação prática através de ações, atitudes e consistência, em patamares cada vez mais amplos e parâmetros mais excelsos. Adotar esse tipo de comportamento é se permitir experimentar Deus em movimento, individual e coletivamente, na execução das atividades mais corriqueiras às mais elaboradas. Essa é uma atitude colaborativa para com a vida pessoal e que engloba também toda existência.
Eu compreendo que enquanto estivermos aqui nessa vida terrena, continuamente precisaremos trazer à Terra o que existe nos Céus em termos de harmonia e relações de reciprocidade. A Oração do Pai Nosso nos indica: “venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu”. Eu penso que nós somos um instrumento Divino de realização nesse plano de existência, cujo objetivo é cumprir o propósito de melhorar a qualidade de vida aqui no planeta, através de nossas ações conscientemente direcionadas.

Portanto, não podemos relegar os assuntos da humanidade ou enxergá-los como não importantes, quando adotamos uma vida pautada em preceitos espiritualizados. Isso significa exercer nossos atos no viés da consciência. Devemos, então, assumir as nossas responsabilidades sabendo que precisamos viver e sermos exemplo de ação pontual, retidão, ética e sabedoria, sem banalizar e sem desmerecer tudo o que está subjacente à vida sobre a Terra. Isso envolve a responsabilidade afetiva, parental, ambiental, a humana, a de trabalho e a de realização pessoal. Faz parte também, evitar a condescendência com o que desqualifica, com exclusões racistas e sexistas, com a crueldade, com exageros aviltantes, com injustiças pessoais e estruturais, crimes e ações hediondas.
A vida não é letargia, é movimento. Deus, no meu ponto de vista, é uma cadência entre movimento e repouso, em um fluir contínuo. A sociedade, por sua vez, precisa copiar esse modelo e caminhar em compreensão numa espiral ascendente. Ou seja, pautar pelo aprimorando de seus padrões e ascensionar degrau a degrau pela via da conscientização coletiva. Entretanto, contata-se que esse é um processo muito lento nessa sociedade heterogênea e imatura, da qual fazemos parte.

É preciso também atentar para o fato de que no fluxo da vida não há nada grátis, porque tudo tem consequências a serem analisadas, além de um preço a ser pago, que poderá ser uma troca, um esforço ou um valor estabelecido à priori. E se uns não pagam, essa conta será quitada por outros. É alto o preço ao se adotar essa visão com consciência, de modo a agir em conformidade com essa decisão, o que requer coragem, força, dedicação, aprofundamento e treinamento continuado, adesão incondicional aos objetivos estabelecidos para a vida, motivação diária, autodisciplina, autoeducação, entre outros.
O efeito prático na vida da pessoa que resolve ir além do conceito meramente materialista sobre as coisas, de alguém que está se espiritualizando ou que amplia seu cone de percepção e cognição, é ter como resultado atitudes e ações permeadas por premissas condizentes aos preceitos relaciono adiante. Segundo o meu modo de compreender esse tema, listo doze entre os inúmeros aspectos que estão subjacentes à assunção de uma visão espiritualizada e com consciência sobre a vida:

01. Saber o que fazer: Saber o quê, como e quando fazer em cada situação que se apresenta e isso é fruto do discernimento (qualidade vista mais adiante). Atividade e repouso devem se alternar de modo equilibrado, ponderado, adequado a cada situação. A pessoa deve fluir com cada necessidade e demanda em sua vida, sem ficar estagnada, parada ou em letargia e sem se acomodar à espera de que soluções caiam gratuitamente do céu. Não se deve terceirizar responsabilidades e sim passar a assumi-las. Há uma hora adequada para quietude e para atividade, para tomar a frente e para recuar. Se o problema é grande, deve-se fracioná-lo para resolvê-lo por etapas;
02. Iniciativa e acabativa: a pessoa toma a ação e faz o que é preciso sem que outros precisem lhe pedir ou dizer para fazê-lo. A pessoa direciona e conclui suas ações do início até o fim pretendido, sem se esquivar ou sem esperar que outros tomem o seu lugar para fazê-lo;
03. Harmonização: combinar e equacionar pensamentos, ações, situações; promover comum acordo entre as pessoas envolvidas em cada acontecimento. É manter coerência entre o pensar e o agir, entre o que se acredita e se pratica. É preciso que seja bom para todos os envolvidos, procurando equilibrar e acomodar todas as questões ou interesses difusos, chegando-se a um acerto, que servirá de base para todas as ações empreendidas conjuntamente;

04. Comunicação clara, inteligível e direta: enquanto não tivermos entre os humanos a leitura de pensamento ou a comunicação instantânea efetuada de mente para mente, é fundamental expressar verbalmente ou por escrito os pensamentos, sentimentos e ações a serem empreendidos e efetivados, assim como os projetos a serem desenvolvidos. A manutenção de um diálogo construtivo e a transparência entre as partes, são fundamentais. A Comunicação é o elemento crucial para que se mantenha respeito entre as partes envolvidas;
05. Feedback: é o ato de realimentar ou dar resposta, dar retorno a outra pessoa quanto a determinado assunto, revelando ao outro o que pensa de determinada ação ou situação. Sem esse elemento a comunicação falha, podendo ser interpretada como falta de interesse ou menosprezo do tema em questão. O feedback é o antídoto para o ruído, a distorção e barreiras na comunicação;
06. Empatia: a pessoa desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do outro sem subterfúgios, ou de pelo menos respeitar o que o outro está passando, com sensibilidade entre aqueles que estão se relacionando (família, trabalho e coletividade), para agir de modo adequado em cada situação. Um ponto importante é não colocar a culpa nos outros ou criar narrativas para se eximir de responsabilidades e erros cometidos, dimensionando a parte que cabe à pessoa em cada ação e situação;

07. Sensibilidade: nutrir e desenvolver uma percepção para com os fatos e as situações da vida, das impressões, sentimentos, emoções e necessidades das pessoas com quem interagimos, agindo de acordo com essa compreensão;
08. Responsabilidade: a pessoa se sente naturalmente compelida a responder por suas ações, com predisposição para contribuir voluntariamente e por iniciativa própria, onde quer que esteja e em qualquer situação, sendo proativo;
09. Compartilhar: fazer parte; interagir; partilhar sentimentos, pensamentos, emoções; distribuir sem mesquinharia ou individualismo; se predispor a trocas valorosas e significativas;

10. Companheirismo: desenvolver um modo amistoso de convivência, que visa tornar a vida mais amena, promovendo o crescimento conjunto, o apoio de um para com o outro e a validação de um para com o outro. Validar é legitimar, é dizer ao outro em palavras e em ações que o outro é importante, que é merecedor de seu apoio, amor, consideração e companhia. No companheirismo é imprescindível a solidariedade, consideração, generosidade, reciprocidade, apoio, amparo e cooperação;
11. Discernimento: desenvolver a capacidade de julgamento imparcial, de modo a ter uma visão cabal do todo que envolve cada situação. Discernir é conhecer detalhadamente para apreciar, estabelecer um juízo de valor adequado e decidir pelo que é construtivo, conveniente e mais apropriado. Integram o discernimento: o critério, a reflexão, a escolha com sabedoria prática;

12. Soerguer-se: Cair e levantar com coragem, de modo a se erguer em cada eventual queda sem esmorecer jamais.
Logo, esses doze requisitos que se somam a inúmeros outros, decorrentes dessa visão mais ampla da vida e de tudo o que a circunda, é crucial para alavancar mais qualidade e inteireza no dia a dia.
Com tais passos, toda sensação de vazio, de não pertencimento e de certo isolamento em relação ao mundo ao redor, vai se reduzindo paulatinamente. Quem adota esse procedimento de modo espontâneo como rotina natural, vai se tornando incluso ao todo, fator que traz o senso de pertencimento, de estar imbuído e participando das circunstâncias como ator principal ou coadjuvante, jamais como mero figurante. Não se sentirá solto na cena, mas sim, sendo parte indissociável dela e notado como elemento indispensável a ela. Não fica à mercê dos acontecimentos externos. Numa analogia, se movimentará com graça e leveza sobre e entre as ondas, como um exímio surfista, levando uma alta performance à vida.

“Entre escolhas, quedas e recomeços, a consciência transforma a existência em caminho.”




