A politica internacional entre a diplomacia e a coerção

Por: João Vicente Machado Sobrinho

O mundo contemporâneo vive uma contradição cada vez mais evidente. Ao mesmo tempo em que as grandes potências proclamam os valores da democracia, da soberania nacional e do direito internacional, multiplicam-se ações concretas de pressão econômica, coerção diplomática, espionagem, sanções seletivas, manipulação informacional e intervenções indiretas sobre países considerados periféricos ou estratégicos. A política internacional do século XXI, longe de representar um ambiente de convivência equilibrada entre Estados soberanos, tem se revelado como um espaço de disputa assimétrica, onde prevalece não necessariamente o direito, mas sobretudo a capacidade de impor interesses.

Nesse cenário, os Estados Unidos da América do Norte-USAN, continuam exercendo papel central. Herdeiros da lógica expansionista consolidada desde os idos da Doutrina Monroe, os norte-americanos mantêm forte influência sobre o continente americano, utilizando mecanismos econômicos, militares, tecnológicos e diplomáticos para preservar sua hegemonia hemisférica. A retórica muda conforme a velha conveniência histórica — combate ao comunismo, guerra ao terrorismo, defesa da democracia ou proteção dos direitos humanos —, porém em essência a estratégia permanece: impedir o surgimento de polos autônomos de poder, principalmente na sua área de grande influência.

Ao mesmo tempo, países europeus frequentemente adotam posturas ambíguas diante das nações latino-americanas. Defendem institucionalmente o multilateralismo, mas não hesitam em agir segundo seus próprios interesses nacionais quando confrontados com questões diplomáticas sensíveis. O recente atrito envolvendo a negativa italiana em extraditar uma ex deputada condenada pela Justiça brasileira, ilustra muito bem como, nas relações internacionais, a soberania jurídica frequentemente se mistura à cálculos políticos, ideológicos e geoestratégicos.

Dessa forma, emerge uma questão fundamental: aquilo que presenciamos é simplesmente política internacional em seu funcionamento natural ou uma sofisticada forma de intimidação geopolítica travestida de diplomacia?

Quando falamos de democracia, estamos nos referindo a um instrumento de convivência internacional, por se constituir em uma das mais antigas instituições da humanidade. Mesmo em períodos de intensas rivalidades, os governantes perceberam que eleger a via da comunicação era indispensável, para evitar conflitos desnecessários e administrar interesses divergentes.

Após as duas grandes guerras mundiais, a comunidade internacional buscou fortalecer mecanismos multilaterais capazes de reduzir a probabilidade de novos confrontos. A criação da Organização das Nações Unidas-ONU em 1945, simbolizou esse esforço coletivo de institucionalização do diálogo.

Por sua vez, a diplomacia moderna ultrapassa as negociações tradicionais entre governos. Ela envolve organismos internacionais, empresas transnacionais, organizações não governamentais-ONGs, instituições financeiras e até mesmo atores tecnológicos que exercem influência crescente sobre a dinâmica global.

Acordos ambientais, tratados comerciais, programas de cooperação científica e iniciativas de combate à pobreza demonstram que a negociação continua sendo o caminho mais eficiente e adequado para enfrentar problemas que transcendem fronteiras nacionais. Questões como mudanças climáticas, segurança alimentar, migrações e pandemias exigem soluções coletivas impossíveis de serem alcançadas exclusivamente pela força.

No momento atual o governo belicoso dos Estados Unidos da América do Norte-USAN, sob a chefia de Donald Trump, tem feito da coerção um instrumento de intimidação e de poder com todo o Sul global e, principalmente, partes da América do Norte, toda América Latina, inclusive o Brasil.

Nesse sentido, entre a ameaça e a intervenção já foram vítimas: o Canadá, a Groenlândia, o Golfo do México, A Bolívia, o Equador o Chile, o Peru, a Venezuela, Cuba e agora o Brasil. Isso escancara que a política internacional permanece profundamente influenciada pela distribuição do poder. Conforme observava o cientista político alemão Hans Morgenthau, os Estados agem prioritariamente em defesa de seus interesses nacionais.

Nesse cenário, a coerção emerge como instrumento de pressão abusiva, destinado a alterar comportamentos antagônicos aos interesses de uma ou mais potências ou de uma aliança internacional. Historicamente, a coerção manifestava-se sobretudo por meio da força militar. Atualmente ela assume formas aparentemente pacíficas e amistosas, porém não menos deletérias e muito mais sofisticadas.

Como exemplo concreto citamos as sanções econômicas impostas de forma recorrente, que além de restringem exportações, bloqueiam transações financeiras e limitam o acesso a tecnologias estratégicas. Embargos comerciais podem comprometer setores inteiros de uma economia, além de restringir o acesso a: semicondutores, inteligência artificial e sistemas de comunicação, os quais se tornaram novas armas geopolíticas.

Em muitos casos, a coerção procura evitar o conflito militar direto, utilizando mecanismos de pressão capazes de impor custos elevados ao adversário sem recorrer às armas. Trata-se daquilo que alguns analistas denominam “guerra híbrida”, na qual instrumentos econômicos, tecnológicos, informacionais e diplomáticos se conjugam  para produzir resultados estratégicos.

A crescente competição entre os USAN e a China exemplifica muito bem a coexistência entre diplomacia e coerção. As duas maiores economias do planeta mantêm intenso intercâmbio comercial e financeiro. Ao mesmo tempo, disputam liderança tecnológica, influência geopolítica e acesso a mercados estratégicos.

Enquanto diplomatas negociam acordos e mecanismos de cooperação, governos impõem restrições comerciais, controles tecnológicos e barreiras de investimento. A disputa pelos semicondutores, pela inteligência artificial e pelas cadeias globais de suprimento tornou-se uma das principais arenas da política internacional contemporânea.
Esse fenômeno demonstra que a interdependência econômica não elimina necessariamente a competição geopolítica. Pelo contrário, muitas vezes a transforma em formas mais complexas e sofisticadas.

Apesar de alguns avanços institucionais nas últimas décadas, os conflitos armados continuam presentes. A Guerra Russo-Ucraniana evidenciou que a força militar permanece relevante no cálculo estratégico das potências. O conflito produziu impactos globais sobre energia, alimentos, comércio e segurança internacional.

No Oriente Médio, rivalidades históricas continuam alimentando crises recorrentes. No Indo-Pacífico, as tensões envolvendo Taiwan despertam preocupações quanto à possibilidade de confrontos entre grandes potências.
Esses episódios revelam uma realidade frequentemente ignorada: a diplomacia é mais eficaz quando é respaldada por mecanismos capazes de dissuadir agressões. Em muitos casos, a paz não decorre apenas da boa vontade dos atores internacionais, mas também do equilíbrio de poder existente entre eles.

A construção de uma ordem internacional estável é o grande desafio do século XXI e consiste em encontrar um equilíbrio sustentável entre cooperação e competição. O avanço tecnológico, a emergência de novas potências, a transição energética e as transformações climáticas estão alterando profundamente os fundamentos da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

Nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue enfrentar sozinho os problemas globais. Ao mesmo tempo, nenhum Estado está disposto a abrir mão integralmente de seus interesses estratégicos. Esse é o grande impasse.
A governança internacional irá depender cada vez mais da capacidade de combinar diálogo, negociação e mecanismos de contenção, capazes de evitar que rivalidades legítimas evoluam para confrontos destrutivos.

Concluímos afirmando com convicção, que a política internacional sempre oscilou entre a diplomacia e a coerção. A primeira oferece caminhos para a convivência pacífica, a construção de consensos e a solução negociada de conflitos. A segunda expressa a realidade do poder e a busca permanente dos Estados por segurança, influência e sobrevivência.

No mundo contemporâneo, marcado pela globalização, pela revolução tecnológica e pela interdependência econômica, essa dualidade tornou-se ainda mais evidente. As nações negociam, cooperam e assinam tratados, mas continuam utilizando instrumentos de pressão abusivos para defender interesses estratégicos.
O verdadeiro teste da liderança internacional não está na capacidade de impor a vontade pela força, mas na habilidade de transformar divergências em acordos duradouros. Quando a diplomacia prevalece, a humanidade avança. Quando a coerção substitui completamente o diálogo, a instabilidade se amplia e os riscos globais se multiplicam.

Em última análise, o futuro da ordem internacional dependerá da capacidade dos Estados de compreender que o poder pode impor obediência temporária, mas somente a diplomacia é capaz de construir legitimidade, confiança e paz duradoura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
HARARI, Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
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HUNTINGTON, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.
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MEARSHEIMER, John J. John Mearsheimer. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2014.
MORGENTHAU, Hans J. Hans Morgenthau. A Política Entre as Nações. Brasília: Editora Universidade de Brasília, diversas edições.
SANTOS, Milton. Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.
WALLERSTEIN, Immanuel. Immanuel Wallerstein. O Sistema Mundial Moderno. São Paulo: Contraponto, diversas edições.
Fotografias:
Concepção e direção editorial de João Vicente Machado Sobrinho; execução gráfica por inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI, 2026);
Elaboração própria com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI, 2026);
Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI, 2026), a partir de concepção original do autor sobre os conflitos no Oriente Médio e seus impactos geopolíticos, econômicos e humanitário;
A Perplexidade da Humanidade: em um mundo de conflitos, coerção e incertezas.
Fonte: elaboração própria com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI, 2026);

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