Entro na vida para sair da história

Por: Antonio Henrique Couras

Esse parece ser o verdadeiro lema da família Bolsonaro, uma antítese quase perfeita do grandiosíssimo autoritário de Getúlio Vargas. Coincidência ou não, poucos dias depois da visita do filho presidenciável aos Estados Unidos, com direito a fotografia protocolar e pose de quem sorri ao lado de uma estátua de cera, Washington classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.

À primeira vista, a medida pode parecer apenas uma resposta dura contra facções criminosas que há décadas são a pedra no sapato dos governantes brasileiros. Mas, em política internacional, a valsa é outra. Quando uma potência chama o crime organizado de terrorismo, ela não está apenas descrevendo um problema: está abrindo uma porta jurídica, diplomática e militar que talvez o Brasil não consiga fechar.

Para o leigo, claro que não é o caso do leitor, política internacional parece algo distante e sem relação com a nossa vidinha cotidiana, mas ela influencia até no preço do tomate da salada.  Política é daquelas visitas chatas que chega sem anunciar e se recusa a ir embora. Ela aparece primeiro como notícia internacional, depois como nota de rodapé em jornal estrangeiro, depois como exigência de banco, pergunta de consulado, cláusula de contrato, formulário de compliance, e quando a gente se dá conta já está sentada na sala, de pernas cruzadas, perguntando meio que anunciando que agora mora com você. É assim que certas palavras atravessam fronteiras. Primeiro vêm pequenas, quase técnicas. Depois descobrimos que elas carregavam um tanque dentro.

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos é uma dessas visitas que parecem simpáticas mas que sujam o tapete. À primeira vista, há quem diga: “ótimo, bandido tem que ser tratado como terrorista mesmo”. A frase é sedutora porque cabe bem no almoço de domingo, no grupo da família e na raiva legítima de quem vive num país em que o crime organizado já deixou de ser exceção para virar paisagem.

O Brasil conhece o peso do PCC e do CV não por teoria acadêmica, mas por experiência concreta: territórios controlados, comércio extorquido, cadeias governadas por dentro, fronteiras atravessadas, dinheiro lavado, medo administrado como serviço público paralelo. Ninguém precisa romantizar facção criminosa para desconfiar da solução estrangeira.

O problema começa justamente aí: quando uma potência estrangeira decide mudar o nome jurídico de um problema brasileiro. Porque nome, em direito internacional, nunca é só nome. “Crime organizado” abre uma gaveta. “Terrorismo” abre outra. E essa segunda gaveta, nos Estados Unidos, vem com sanção, congelamento de ativos, proibição de transações, restrições migratórias, responsabilidade criminal por apoio material e, sobretudo, uma longa tradição de elasticidade política.

Depois do 11 de Setembro, o mundo aprendeu que a expressão “guerra ao terror” é uma mala sem fundo. Dentro dela já couberam invasões, prisões secretas, drones, sanções, ocupações, listas negras, erros trágicos e relatórios cuidadosamente redigidos para explicar, com vocabulário limpo, aquilo que no chão costuma ser muito mais sujo.

E então aparece a coincidência. Flávio Bolsonaro vai aos Estados Unidos, encontra figuras do governo Trump, defende que o PCC e o CV sejam tratados como terroristas e, pouco depois, Washington formaliza a designação. Coincidência, em política, é uma palavra engraçada. Às vezes é apenas coincidência mesmo. Às vezes é roteiro ruim. Às vezes é roteiro bom demais.

O fato é que a impressão que estamos vivendo com aquele vizinho chato que nas brigas de criança logo chama a mãe para a acabar a brincadeira.  Porque é isso que os bolsofilhos querem com os EUA e Trump: acabar com a brincadeira que eles estão perdendo.

É claro que combater PCC e CV é urgente. O Brasil não pode fingir que facções armadas, ricas, internacionalizadas e infiltradas na economia formal são apenas “caso de polícia” no sentido mais estreito da palavra. Já passaram disso há muito tempo. Mas combater uma organização criminosa não é o mesmo que entregar a definição do problema a outro país, sobretudo quando esse país tem histórico de transformar categorias jurídicas em alavancas de intervenção. O diabo, nesse caso, não mora só nos detalhes. Ele está botando fogo na casa só porque ninguém quer mais ele ali.

Pensemos na vida prática, que costuma ser onde a geopolítica mostra os dentes. Um brasileiro que mora em São Paulo, no Rio, no Ceará, na Bahia ou em qualquer estado onde essas facções atuem não deveria ser automaticamente tratado como suspeito por isso. Morar num território atravessado pelo crime não é pertencer ao crime. Ser vítima de uma estrutura não é ser cúmplice dela. Mas consulados, bancos e empresas não são conhecidos por operarem na base da justiça.

A partir dessa classificação, uma pessoa pode não ter nenhum vínculo com facção alguma e ainda assim cair numa rede maior de perguntas: onde mora, com quem trabalha, que empresa contratou, que região frequenta, que movimentações financeiras aparecem, que parentes ou conhecidos surgem na checagem. Não é que todo morador de área dominada pelo tráfico vá perder visto. Isso seria exagero e, por enquanto, não corresponde à regra. O ponto é mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: a vida de milhões de brasileiros pode passar a ser lida por lentes de suspeição ampliada. O carimbo não cai sobre o criminoso apenas. Ele respinga no entorno.

Com empresas, o efeito pode ser ainda mais frio. Imagine uma transportadora, uma distribuidora de combustível, uma fintech, uma construtora, uma mineradora, uma empresa de logística ou até uma rede de franquias que opera em áreas onde o crime organizado infiltra dinheiro, cobra taxas, controla rotas ou usa laranjas.

O contrato que antes exigia certidão negativa, balanço e boa vontade agora pode exigir investigação profunda de beneficiário final, cadeia de fornecedores, origem de recursos, mapa de risco reputacional e uma pergunta que parece simples, mas é um labirinto: existe alguma ligação, direta ou indireta, com uma organização terrorista?

O empresário honesto talvez responda “não” com tranquilidade. O banco estrangeiro talvez diga: prove. O parceiro americano talvez diga: prove melhor. O investidor talvez diga: volto depois. E assim o país ganha mais uma camada de custo Brasil, agora com sotaque Ianque que ainda ecoa por todo Oriente Médio.

Já não bastavam a insegurança jurídica, a burocracia, a carga tributária, a violência, a instabilidade política e a eterna sensação de que cada documento brasileiro precisa vir acompanhado de um despacho espiritual. Agora pode surgir também o medo de contaminação por terrorismo, mesmo quando o problema real é crime organizado, lavagem de dinheiro e ausência crônica do Estado.

Mas tudo isso parece problema de quem tem empresa, viaja para a Disney e traz muamba de Miami, para nós mortais que lida cotidianamente com a sobra de mês no fim do salário, parece bem longe.

Mas essa classificação traz um detalhe muito importante: uma autorização dada a si mesmo pelos EUA em violar a soberania num combate ao terror. Soberania, aliás, é uma palavra anda meio fora de moda, talvez porque pareça grande demais para caber na pressa do noticiário. Mas, inda assim, ela continua sendo uma das poucas paredes que separam cooperação internacional de tutela estrangeira.

O Brasil pode, deve e precisa cooperar com outros países para combater tráfico, armas, lavagem de dinheiro e redes transnacionais. O crime não respeita fronteira, então a investigação também não pode se limitar por elas. Mas cooperar é uma coisa. Aceitar que outro país redesenhe o tabuleiro jurídico para depois dizer que tem autorização moral para agir aqui dentro é outra, bem mais indigesta.

Os Estados Unidos conhecem muito bem esse caminho. Primeiro, nomeiam uma ameaça. Depois, afirmam que a ameaça atravessa fronteiras. Depois, dizem que o Estado local é incapaz, conivente ou fraco. Depois, oferecem cooperação robusta. Depois, caso a cooperação não baste, surge a linguagem da necessidade: ação cirúrgica, operação preventiva, defesa regional, proteção de cidadãos americanos, combate ao narcoterrorismo. Tudo muito técnico, tudo muito limpo, tudo muito distante das pessoas que depois ouvem helicópteros, tiros e desculpas.

Não estou dizendo que haverá uma invasão americana no Brasil amanhã, com bandeira tremulando e trilha sonora de filme ruim. O Brasil não é um país pequeno, nem irrelevante, nem desprovido de instituições, nem uma peça qualquer no tabuleiro regional. Há tratados, custos diplomáticos, comércio, reação interna, Forças Armadas, opinião pública e um tamanho continental que não cabe facilmente numa aventura militar. Mas política externa não precisa começar com invasão para ser perigosa. Muitas vezes começa com pressão financeira, com ameaça regulatória, com cooperação condicionada, com inteligência classificada, com constrangimento diplomático, com uma palavra colocada no papel certo.

E antes que apareça alguma alma sebosa dizendo que essas organizações são terroristas sim e que os EUA devem jogar uma bomba aqui em cima de nós para que sobrem só as baratas, explico: terrorismo é político e/ou religioso. O crime no Brasil visa apenas o lucro. Nenhuma facção aqui tremula ideias religiosas ou políticas. Logo, podem ser o que forem, mas não são terroristas.

E é por isso que a coincidência entre a passagem de Flávio Bolsonaro pelos Estados Unidos e a classificação do PCC e do CV precisa ser observada sem ingenuidade. Não porque o combate às facções seja menos importante. Pelo contrário: é importante demais para virar souvenir de campanha. A segurança pública brasileira não pode ser terceirizada a Washington nem transformada em panfleto eleitoral com carimbo do Departamento de Estado.

Quando um político brasileiro celebra que uma potência estrangeira reclassifique problemas nacionais de modo a ampliar sua própria margem de ação, a pergunta não deveria ser apenas “isso ajuda a combater o crime?”. A pergunta também deveria ser: ajuda quem, em que momento, com quais consequências e a que preço?

Há uma tentação antiga na política brasileira: chamar alguém de fora para resolver a bagunça de dentro. Mudam os personagens, mas a fantasia é parecida. Um dia é o mercado internacional. Outro dia é o juiz salvador. Depois é o militar. Depois é o embaixador. Depois é o presidente americano com caneta grossa e vocabulário de guerra. Como se o país fosse uma casa tão mal administrada que precisasse entregar a chave ao vizinho armado. O problema é que vizinho armado raramente entra só para arrumar a pia. Ele repara na sala, no cofre, na janela dos fundos e, quando vai embora, às vezes deixa a fechadura trocada.

O Brasil precisa enfrentar PCC e CV com inteligência, dinheiro rastreado, investigação financeira, integração entre polícias, controle de fronteiras, combate à lavagem de dinheiro, reforma prisional, tecnologia, cooperação internacional e coragem política. Precisa sufocar as facções onde elas respiram: no dinheiro, na cadeia, na logística, na captura de territórios, na intimidação cotidiana e na infiltração em negócios aparentemente respeitáveis. Mas precisa fazer isso como Estado soberano, não como cenário de mais um filme de guerra americano.

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