Menina, você viu?

Por: Antonio Henrique Couras

Menina, você viu a confusão do filho de Bolsonaro? Não? Então senta, porque essa fofoca tá fresquinha.
Pois bem: Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, estava na confortabilíssima pose de oposição, apontando o dedo e dizendo: “olha o escândalo do Banco Master aí, culpa do governo, culpa da esquerda, culpa do universo”. Só que, de repente, sobe o pano do teatro político e aparece quem no meio do palco? Ele mesmo, Flávio, conversando com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, banco que virou um Titanic político, afundando e levando meio mundo junto.

Aí vem o babado principal: segundo reportagem do The Intercept Brasil, Flávio negociou com Vorcaro uma bolada para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, chamado “Dark Horse”. Eu sei, a crise também é de bom gosto, e, cá entre nós, o ex-presidente mal merece ser chamado de burro preto. O filme seria um longa biográfico internacional sobre o ex-presidente, o que, só por si, já deixaria qualquer candidato com o nome mais sujo que tapete de mercadinho.

Mas, como na direita sempre é assim, o buraco é bem, mas bem, mas bem mais embaixo. As cifras, segundo a reportagem, chegavam a US$ 24 milhões, algo em torno de R$ 134 milhões. Uns dez milhões de dólares a mais que muito filme que vai pro Oscar.

O caldo entornou porque vazaram mensagens e áudio em que Flávio, segundo o Intercept e veículos que repercutiram a apuração, e conforme confirmado pelo primogênito do burro preto em vídeo em suas redes sociais, aparece cobrando valores relacionados ao projeto. Ou seja: não era só “conheço de vista”, “cumprimentei no elevador”, “tiramos uma foto no casamento da filha da cunhada da sogra da minha tia-avó”. A história, segundo as reportagens, tinha cobrança e dinheiro no roteiro, e um chamando o outro de irmão, e não do jeito evangélico.

Agora segura o pires: antes disso, Flávio vinha tentando empurrar o escândalo do Banco Master para o colo do governo Lula. A Folha registrou que ele chegou a negar conexões relevantes e depois mudou a versão, admitindo que negociou com Vorcaro investimentos para custear o filme. É aquele clássico da política brasileira: primeiro “nunca nem vi”, depois “vi, mas não conheço”, depois “conheço, mas era privado”, depois “privado, privado, privadíssimo, com cadeado e senha”.

Quando a coisa estourou, Flávio veio com a defesa pronta: disse que era um patrocínio privado para um filme privado, que não tinha dinheiro público, que não havia contrapartida política e que ele não cometeu irregularidade. Era apenas um pobre filho pedindo dinheiro pro filme do pobre pai. Tadinhos.

Em resumo, tentou transformar o escândalo numa reunião de produtores culturais: “imagina, querida, era só cinema”. Reuters registrou que ele confirmou o arranjo, mas negou quid pro quo, aquela expressão chique para “uma mão lava a outra”.

Só que o problema, minha filha, é que o suposto patrocinador não era exatamente um “alternativo” vendendo cocada para apoiar a arte nacional. Era Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, envolvido num escândalo financeiro gigantesco. Aí a pergunta pulou na mesa usando salto quinze: por que um político em plena ambição presidencial estava buscando milhões com um banqueiro/mafioso? Não quer dizer automaticamente que houve crime, mas politicamente é um elefante numa loja de porcelana usando perfume enjoativo. E cá entre nós, essa história de político em ano de campanha pedindo uma bolada pra banqueiro mafioso com o único intuito de promover a cultura nacional é uma história de botar o rebanho bovino do Goiás inteiro pra dormir.

E teve mais uma camada de confusão: a produtora do filme negou ter recebido dinheiro de Vorcaro. A CNN Brasil publicou que a produtora disse que “nenhum centavo” teria vindo dele. É, minha filha, filho feio não tem pai. Flávio admite que buscou patrocínio, reportagens falam em valores e transferências ligadas ao projeto, mas a produtora nega ter recebido recursos do banqueiro.

Como fazíamos na época do Telecurso 2000: tá na hora da revisão. Flávio Bolsonaro, primeiro filho e candidato à Presidência, pediu algumas centenas de milhões a Daniel Vorcaro, banqueiro/mafioso, para pagar uma pequena parte do filme do burro preto. Só que a produtora do filme nunca viu a cor do dinheiro. Tá sentindo o cheiro de detergente nesse dinheiro?

E, como se a novela já não tivesse elenco suficiente, o caso caiu bem no meio da corrida eleitoral. Flávio vinha sendo tratado como uma possível aposta bolsonarista para enfrentar Lula em 2026, já dando empate nas pesquisas eleitorais para o segundo turno, e a revelação bateu como panela caindo da prateleira. Reuters disse que o mercado reagiu mal à reportagem, com queda do real e da bolsa no dia da repercussão. Ou seja, a fofoca saiu do zap, atravessou Brasília e foi parar no mercado financeiro. Valeu, Intercept!

E, pra encerrar a história, você não soube por mim, tá? A história do “era só um filme” subiu no telhado, porque uma coisa é buscar patrocínio para uma obra cultural; outra, bem diferente, é aparecer pedindo uma fortuna a um banqueiro atolado até o pescoço enquanto se tenta vender ao público a imagem de pureza, perseguição e patriotismo de fim de feira.

Flávio pode até jurar que não houve crime, que era tudo privado, que ninguém prometeu nada a ninguém. Mas, na política, como na fofoca, tem coisa que não precisa nem de legenda: quando o áudio entra pela porta, a narrativa pula a janela. Já dizia vovó: contra fatos não há argumentos. E aqui temos alguns milhões em fatos. E o duvidoso filme “Dark Horse”, que queria contar a epopeia heroica de Bolsonaro, ganhou, antes mesmo da estreia, um trailer bem bolsonarista: dinheiro demais, explicação de menos e todo mundo correndo para dizer que não era bem assim.

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