Uma Vivência no Sítio Arqueológico Lajedo do Pai Mateus

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

Aquele não era tão somente um lajedo com cerca de 500 milhões de anos no Geoparque do Cariri, a guardar evidências da vida pré-histórica local, contendo inscrições rupestres, sinais da existência de povos originários, a exemplo dos nativos Cariris. Tais aspectos, por si só, já seriam um grande achado para organizar uma visita ao local, que tem tudo para proporcionar uma experiência transcendental.

Nele, há vistas panorâmicas idílicas, oportunidade de realizar trilhas que desafiam a determinação e de efetuar uma profunda imersão tanto na cultura quanto na natureza intrínseca dos rincões do Cariri Paraibano. A flora local com Mandacarus e Xique-xique, torna-se um ambiente preparado para se manter com poucas chuvas e manter a sua sobrevivência.

O Município de Cabaceiras, onde esses lajedos estão, se localiza na mesorregião da Borborema, e especificamente, na microrregião do Cariri Oriental Paraibano. Um lajedo desse tipo é uma grande extensão de terreno plano, repleta de rochas nuas em grandes lajes de pedra.

Em particular, nós fomos visitar o Lajedo do Pai Mateus, que além de todo o arcabouço histórico que perpassa os seus caminhos, está inserido na região de caatinga paraibana e incorpora lendas ancestrais. Conta-se que um eremita morou ali, em um espaço que abriga imensas pedras e algumas que chegam a pesar até 45 toneladas. Nesse ambiente, entre pedras e esparsos filetes d’água, ele recebia muita gente em busca de suas orações e de cura. Ele usava ervas locais e rezas pontuais.

Há indícios de que um tal Mateus egresso da escravidão, alforriado em um dado momento, cujos registros foram encontrados em uma das igrejas locais, e, estudado por alguns historiadores da região, visando resgatar fatos e documentos. Mas, não há evidências que possam relacionar esse homem dos mencionados assentamentos encontrados, com o Pai Mateus que habitou as pedras desse lajedo, por volta de meados do século XVIII, na qualidade de um mago, um curandeiro, um eremita.

Esse Geoparque onde o Lajedo do Pai Mateus está inserido, abriga muitos sítios arqueológicos assim como outros lajedos, famosos por possuírem pedras que impressionam pelo tamanho e pelo peso, por sua composição e formação rochosa. Elas guardam certa semelhança com os antigos Megálitos, que eram grandes blocos de pedras que pesavam toneladas, construídas durante a pré-história em várias partes do mundo.

A diferença substancial entre essas grandes pedras acima mencionadas e aquelas dos sítios arqueológicos aqui descritos, é que as pedras desses lajedos são obras exclusivas da natureza, decorrentes de grandes massas de magma que se tornaram sólidas no subsolo da região e que foram esculpidas em decorrência de intensa pressão no interior da terra, com fraturas rochosas e com uma posterior erosão.

No Sítio Arqueológico do Pai Mateus, as pedras são grandes elevações e blocos rochosos compostas por granito, pedras classificadas como monzogranito porfirítico de granulação grossa. Sua composição comporta cristais de quartzo, feldspato (microclínio e ortoclásio) e biotita (mica preta), originários do resfriamento lento de magma no interior da crosta terrestre ao longo das eras, que pela erosão e por milhares de anos, afloraram até a superfície.

Entre a descrição de sua composição e surgimento, ainda há outro aspecto a ser ressaltado: cada pessoa que pisa sobre elas, irá ter um tipo incomum de experiência pessoal e mística. É deslumbrante cada item da paisagem, cada pedaço de chão percorrido, cada respiração efetuada na subida até o ponto mais alto do lajedo, de onde pode ser vista a extensão de mais de 1,5 km² de rochas esculpidas pela erosão, a exemplo da denominada “Pedra do Capacete” (ela lembra esse objeto) e um vasto espaço de terras e quilômetros de metros quadrados que circundam esse ápice.

A vista é espetacular, tanto no amanhecer assim como no pôr do sol. É uma apoteose de beleza, de paisagem inusitada, de céu colorido. Ao entrarmos no prelúdio do crepúsculo, o céu ganha um tom dourado, avermelhado e ocre que resplandecem pelos raios de sol que se põe, contrastando com a cor das rochas de tom nude ou cru, e com o ambiente da flora do semiárido do Cariri.

A sensação que eu tive ao pisar no local foi surreal, eu vi vida e história secular nessas pedras, elas falavam comigo em uma linguagem sem palavras, a me dizer do tempo que elas viveram, dos humanos que colocaram seus pés sobre elas, dos milhões de anos de sua existência, dos ventos que lhes fizeram companhia, do sol escaldante e de chuvas que quase não chegaram ali, por ser um local de baixíssimo índice pluviométrico, um dos lugares mais secos da região. Essas condições dão ao lajedo um céu aberto e limpo, que favorece a observação do céu estrelado, especialmente à noite. O azul em tom vivo nos céus durante o dia é também digno de nota e de uma beleza ímpar.

Ali eu pisei em solo sagrado, em rochas que são também seres vivos. Ali, a terra brindava segredos sem fim, sensações de puro enlevo, sentimentos de união com o todo, vivência de comunhão com tudo à volta.

Ali, estava um presente vivo da natureza, um reduto para o coração, com imagens que a recordação não deixaria se apagar, evocações que só pertencem ao ser humano diante do Divino, da beleza estonteante de toda a criação, da natureza humana que se irmana para contemplar tão belas paisagens, tão absolutas vivências e interações.

 

“Quando as pedras cantam, o tempo deixa de ser passado e passa a morar em quem sabe escutá-las.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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