
Por: Rui Leitão
A pré-campanha do campo bolsonarista tem sido marcada por uma sucessão de episódios que desviam o foco da construção de uma agenda política e impõem sucessivos desgastes à estratégia eleitoral da direita. Em vez de concentrar esforços na ampliação de alianças e na conquista de novos segmentos do eleitorado, lideranças e aliados do Partido Liberal (PL) têm alimentado crises que aprofundam divisões internas e dificultam a consolidação de uma candidatura competitiva para 2026.
O episódio mais recente envolve declarações do jornalista Paulo Figueiredo, um dos principais influenciadores do universo bolsonarista. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele exibiu um cartaz com a frase: “Mulher vota muito mal. Mude minha opinião”. Em seguida, afirmou que mulheres casadas fariam melhores escolhas eleitorais porque tenderiam a acompanhar o voto do marido. A mensagem vai além da provocação. Ela reproduz uma visão que questiona a autonomia política das mulheres e reforça uma concepção hierárquica das relações entre homens e mulheres, incompatível com os princípios da igualdade democrática.

O impacto político dessas declarações não pode ser dissociado do desempenho eleitoral da direita entre o eleitorado feminino. Pesquisas recentes apontam que Flávio Bolsonaro enfrenta índices elevados de rejeição entre as mulheres, superiores aos registrados em outros segmentos do eleitorado.
Nesse contexto, manifestações que reforçam estereótipos de gênero tendem a ampliar dificuldades já existentes, sobretudo porque consolidam percepções negativas em um grupo decisivo para qualquer disputa presidencial.

Também chama atenção a ausência de um posicionamento claro por parte do candidato diante das declarações. Na política, o silêncio raramente é neutro. Ainda que não represente concordância explícita, ele pode ser interpretado como tolerância ou falta de disposição para estabelecer limites em relação a discursos que atingem diretamente parte expressiva do eleitorado. Em campanhas eleitorais, a percepção pública costuma produzir efeitos tão relevantes quanto os próprios fatos.
A crise ocorre poucos dias após a repercussão das declarações da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que relatou ter sido humilhada e destratada pelo enteado. Independentemente da dimensão privada do episódio, sua divulgação pública reforçou narrativas de conflito familiar e contribuiu para ampliar o desgaste da imagem do grupo político junto ao público feminino.

O problema, portanto, não se resume a uma declaração isolada. Trata-se da recorrência de episódios que comunicam uma mesma percepção de distanciamento em relação às demandas e à participação das mulheres na vida pública. Em um ambiente eleitoral cada vez mais sensível a temas ligados ao respeito, à representação e à igualdade de direitos, esse tipo de discurso produz efeitos que dificilmente se restringem às redes sociais.
Se a direita pretende ampliar sua base eleitoral e disputar a maioria do eleitorado brasileiro, precisará compreender que as mulheres não constituem um segmento periférico da política. Elas representam mais da metade dos eleitores e exercem papel decisivo na definição dos resultados eleitorais. Ignorar essa realidade ou minimizar discursos que colocam em dúvida sua autonomia política significa transformar uma controvérsia ideológica em um problema estratégico para qualquer projeto de poder.





