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Início Cristina Couto A vida em Lavras da Mangabeira CE - 2021

A vida em Lavras da Mangabeira CE – 2021

A pequena cidade onde nasci e moro lembra um soldado romano que fraqueja na marcha, e sem força para acompanhar o batalhão, cai à beira do caminho e lá fica exausto e sozinho. Com o olhar distante e saudoso a contemplar e engolir a poeira erguida pelo exército que segue adiante.

Desviou-se de Lavras o progresso. O final dos anos de 1970, Lavras desacelerou e passamos a perder tudo que fora conquistado por séculos. Por falta de prestígio ou compromisso político perdemos repartições públicas federais e estaduais instaladas no município por longos anos, com a desativação da estrada de ferro nos restou somente uma única linha de ônibus que passa por aqui, ligando Juazeiro do Norte a Fortaleza.

O mundo esqueceu-se de Lavras, o que foi rica, prestigiosa e lépida, comparo aos homens que esqueceram a bela e famosa atriz, tão cobiçada e tão desejada, e logo que lhe abandona a juventude cai no ostracismo. Agora vivi uma vida de vovó entrevada, sem netos, sem esperanças, se recolhendo nas sombras com humildade e quietude, características do envelhecimento sem sonhos e sem perspectivas de futuro ficou a margem do desenvolvimento.

Antes do advento da Internet, era o jornal impresso o grande divulgador das notícias, nem isso, se tinha em Lavras. Nunca conheci uma banca de revistas. A maioria dos moradores não nutria o hábito da leitura e os jornais que aqui chegavam somava-se a meia dúzia de assinantes, esses sim, sabiam da informação precisa, os demais, reproduziam a sua maneira as notícias distorcidas e muitas vezes inverídicas divulgadas pela televisão.

Seus filhos mais ilustres e inteligentes foram atraídos para novas terras, novas oportunidades, novos espaços mais amplos para o conhecimento e foram absorvidos nessas terras pela competência e pelo brilho que espalharam pelo caminho. Nunca mais retornaram. Vivem das doces lembranças da terra natal, amam e até veneram, mas, à distância, amam e se orgulham das Lavras de outrora que lá deixaram e que já não existe mais. Os que permaneceram se acomodou a anemia do lugar, a mesmice, a falta de vontade, a fazer todos os dias às mesmas coisas, sonhar os mesmos sonhos, comentar os mesmos assuntos e reclamar do presente e se orgulham da prosperidade passada, acumulando lamurias e falta de coragem. São verdadeiros matadores do tempo.

Vale salientar e até narrar o orgulho de Lavras: a inclinação literária.

O Município de Lavras da Mangabeira se destaca pela capacidade intelectual dos seus filhos em todas as áreas, em especial, nas artes e nas letras. A genética é tão forte que os que nasceram em solo lavrense, mesmo morando em outras cidades e tendo seus filhos em outros lugares acabam transmitindo o talento como herança. São muitos lavrenses que tem seus filhos, netos e até bisnetos conhecidos e reconhecidos nacionalmente e até internacionalmente pelo seu trabalho. Podemos citar o cineasta Karin Aïnouz, nascido em Fortaleza é neto do poeta e orador lavrense, Gentil Augusto, foi premiado no Festival de Cannes, sendo aplaudido por 15 minutos, depois da exibição do filme “Marinheiro das Montanhas;” é filho de lavrense, o violonista Antônio Nóbrega, nascido em Recife, seu pai João Barros de Almeida foi médico sanitarista, Nóbrega  é  responsável pela divulgação da cultura popular nordestina, além de compositor, instrumentista, cantor, dançarino e brincante.

Os lavrenses de outrora eram frequentadores assíduos da Biblioteca Pública de Lavras, sendo ponto de encontro dos jovens nos finais de tarde. Hábito antigo que pode ser comprovado em citações feitas em diversos livros de autores cearenses. Como no livro A Padaria Espiritual de Leonardo Mota, aponta o médico lavrense, Dr. Ildefonso Correia Lima como fundador na sua terra natal de uma secção de um famoso Gabinete Cearense de LeituraMas, para Joaryvar Macedo, teria ele fundado em 1884 o Club Literário Lavrense. Segundo o historiador, o Barão de Studart, nas suas Datas e Fatos para a História do Ceará, informa que aos 11 de janeiro de 1885 foi inaugurada, em Lavras, uma biblioteca com o título de Clube Literário Familiar Lavrense, criada a 29 de maio de 1884.

O antigo prédio onde funcionava a Biblioteca Pública nas décadas de 1950, 60 e boa parte da de 70, ficava numa esquina com janelas em toda sua lateral recebendo o vento arejante da tarde e a brisa fresca da noite. Silenciosa e majestosa era detentora de um considerável acervo. O prédio foi devolvido ao proprietário e a partir daí, o desastre foi total. O desprezo e indiferença com que os gestores municipais passaram a tratar a biblioteca é algo lamentável. Como me disse um dia à bibliotecária da Biblioteca Estadual Menezes Pimentel: a Biblioteca Pública de Lavras da Mangabeira é uma das mais antigas do Estado do Ceará, infelizmente, durante anos somente troca de nome e endereço.  Até esta data não possui sede própria.

Na primeira Semana Universitária de Lavras da Mangabeira, promoção da ASSULAM (Associação dos Universitários de Lavras da Mangabeira), realizada em julho de 1979, quando por ocasião das festividades da I Semana Universitária, foi inaugurada a Biblioteca Padre Alzir Sampaio, acervo doado pelo projeto Biblioteca Circulante que tinha como curador Luiz Cruz e contou com a presença do reitor da Universidade Federal do Ceará – UFC, Antônio Albuquerque, da professora e representante da família do homenageado Ruth Sampaio, os universitários promotores do evento e demais autoridades. Essa também deixou de existir poucos anos depois, e todo o acervo ficou em um canto de sala até que a enchente o levou. Já que a cidade não se interessava por conhecimento, a enchente se interessou.

Nosso expoente das letras lavrense, o conterrâneo Dimas Macedo, pesquisou, catalogou e publicou em três edições, a quem deu o Título de Lavrenses Ilustres, 250 lavrenses que se destacaram nas mais diversas áreas e profissões. Nomes que são destaques na Literatura cearense como: Linhares Filho, Batista Lima, Joaryvar Macedo; administradores notáveis  como João Gonçalves de Sousa, João Vicente Machado
Sobrinho, João Gonçalves de Lemos; artistas do quilate de Nonato Luiz, Vicente de Paroca, Gilberto Milfont e Aury Porto; grandes mestres como Antônio Filgueiras Lima, Itamar Filgueiras e Alzir de Oliveira; sacerdotes virtuosos e éticos como Padre Joaquim Machado da Silva, Dom Edmilson de Macedo e Padre Amorim. E outros muitos lavrenses de renome internacional como é o caso do professor e cientista Melquíades Pinto Paiva, sem dúvida, o maior pesquisador de peixes, da historiografia do Cangaço e biógrafo de Dona Fideralina Augusto Lima, outra lavrense que em seu tempo dominou com mãos de ferro essa terra e muito fez para que fosse conhecida no Nordeste brasileiro como mulher forte, destemida e poderosa.

São muitos os cantadores, poetas e cordelistas que cantam Lavras em verso e prosa por onde passam. Podemos destacar: Rubens Lemos, Vicente de Paula Lemos, Mundoca Neto e Geraldo Amâncio. Como não lembrar os nossos artistas plásticos reconhecidos nos salões de artes da França, Holanda e Itália, esbanjando beleza e talento como Sinhá D’Amora e Bruno Pedrosa.   

O Município de Lavras da Mangabeira deu a Academia Cearense de Letras oito escritores, o mesmo número que a Cearense deu a Brasileira, e, é o município com o maior número de assentos na Academia Cearense perdendo apenas para a capital. São eles: Josapha Linhares, Joel Linhares, João Clímaco Bezerra, Antônio Filgueiras Lima, Joaryvar Macedo, Linhares Filho, Batista de Lima e Dimas Macedo. Com tantas Letras, Dimas Macedo idealizou e fundo a Academia Lavrense de Letras para reconhecer o talento dos lavrenses para as Artes, Letras, Magistério, Ciências Médicas e Jurídicas, Oratória, política, e em todas as áreas do conhecimento.  A entidade foi fundada em 01 de junho de 2009 com 40 assentos.

Não sei bem o mistério ou a magia que existe em Lavras, ela expulsa seus filhos mais ilustres não abrindo espaço para eles ocuparem. Sem dúvidas, quem saiu daqui para estudar em outros lugares sonhava com um possível retorno, mas são desencorajados para tanto. Lavras fabrica talento e exporta, no entanto, não os aproveita, deixando que espalhem competência mundo afora. Ao contemplar a cidade sinto um vazio muito grande em suas paisagens, um desprezo em suas ruas e um desconhecimento total do seu passado glorioso. É como se tivessem passado uma borracha na sua memória.

Aos que moram fora é cobrado à participação e presença, aos que aqui moram é cobrado crescimento e progresso, e nesse jogo Lavras continua a margem do desenvolvimento. Para seus filhos ausentes Lavras tem o mesmo significado que Israel tem para os judeus, a terra está no livro, na literatura e na memória, eles a carregam para onde quer que vá. Para Dimas Macedo Lavras é Pasárgada, para Linhares Filho é a Atenas cearense, mas, em minha opinião Lavras é Camelot, a cidade lendária do Rei Artur que ficou eternizada nos livros e na memória de quem aqui vi

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