No desmaio da tarde morre o dia enlutando a paisagem do sertão

Por: Bodão Ferreira

Cor de ouro de um dia ensolarado
Joga luz excedente em toda parte
Os reflexos nas pedras viram arte
Sobre os bichos embaixo estocados
Os noturnos, do sol fogem calados
Descancansando nas locas do grotão
Esperando a hora da escuridão
Quando a mata se acalma e fica fria
No desmaio da tarde morre o dia
Enlutando a paisagem do sertão

Quando se avermelha a tardezinha
E sol guarda seus raios de açoite
Anuncia a feroz boca da noite
Que engole a luz pela terrinha
As cigarras ensaiam ladainha
Til, ziu, ziu, como se fosse oração
Avisando aos viventes de plantão
Que a noite sem lua é arredia
No desmaio da tarde morre o dia
Enlutando a paisagem do sertão

Vendo sol sumindo no horizonte
As galinhas se ajeitam no poleiro
Os bichos que povoam o tabuleiro
Se agasalham com seus, não tem quem conte
Silencia o roçado, a várzea, a fonte
E entram os predadores ação
Se recolhe a abelha sem ferrão
Apurando seu mel na maresia
No desmaio da tarde morre o dia
Enlutando a paisagem do sertão

A família de vida camponesa
Acorda com o sol ainda nascendo
Pela tarde, cansados, estão vendo
A mudança de cor na natureza
O regresso ao lar traz a leveza
Depois de um dia árduo na plantação
O jantar cedo e quente, em comunhão
Vira na vida dura a primazia
No desmaio da tarde morre o dia
Enlutando a paisagem do sertão

Ao redor da comida junta a prole
Com restinhos de sol pelo telhado
Cada qual, pelo dia de roçado
No café forte e quente dá um gole
Lá no rádio, seu Luiz puxa o fole
Às seis horas, com sua oração
A família, partindo a fruta-pão
Vai dormir cedo depois da cantoria
No desmaio da tarde morre o dia
Enlutando a paisagem do sertão

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