
Por:Antonio Henrique Couras
Não sei se o leitor já se pegou lendo uma bula de remédio com a sensação de estar diante de um dos pergaminhos do Mar Morto. Eu, particularmente, me sinto adentrando uma tumba etrusca sempre que abro uma caixa de remédio, vejo aquele pergaminho quilométrico, leio “reações adversas”, “contraindicações”, “farmacocinética”, “populações especiais” e fico pensando nesse sujeito abstrato para quem a medicina parece ter sido escrita. Quem é ele? Onde mora? O que come? Tem útero? Tem pele negra? Tem cabelo crespo? Sente dor?
As bulas, no máximo, trazem um prosaico e redundante texto para eximir as farmacêuticas de processos legais: “em crianças menores de 12 anos deve-se seguir a instrução de um médico”. Isso em um medicamento de receita retida que precisou ser autenticada por dois cônegos, pelo bispo e ao menos um núncio papal.
Eu, como gordo, sempre me pergunto se a medicação funciona em mim como nos pacientes que serviram de base para a formulação do medicamento. Sempre acho que a droga seja meio fraca para toda a minha rotundidade.
Da mesma forma, para uma pessoa que pese seus 49 quilos e tenha como objetivo de vida ter peso o suficiente para poder doar sangue, deve ser como tomar o remédio destinado a um rinoceronte.

Os corpos humanos são tão abundantes em suas formas, cores e tamanhos que me parece, no mínimo, “arriscoso” traçarmos uma mediana que seja igualmente ineficaz para todos.
Durante muito tempo, a medicina se debruçou sobre um único sujeito: homem, branco, adulto, relativamente jovem ou de meia-idade, e, de preferência, sem grandes complicações que atrapalhassem a limpeza estatística dos estudos. Um Adão de jaleco, criado não do barro, mas da conveniência metodológica. Ah, e, de preferência, sem dúvida, americano, e, quando o estudo é muito diverso, metem-se uns três ou quatro europeus no meio.
E o problema é que a medicina, míope como tantas outras áreas do conhecimento, gosta muito de se apresentar como neutra. A ciência seria esse edifício asséptico, iluminado por lâmpadas frias, onde os fatos entram de um lado e as verdades saem do outro, embaladas a vácuo. Esterilizadas. Mas quem já lidou minimamente com instituições humanas sabe que nada feito por gente nasce completamente livre das ideias, preguiças, preconceitos e cegueiras de seu tempo.

A medicina salvou e salva milhões de vidas. Convém começar por aí, antes que alguém conclua que estamos prestes a trocar antibióticos por chá de casca de árvore, cirurgia cardíaca por alinhamento de cristais e dizer que detergente contaminado é pra se beber no gargalo. Não é disso que se trata. A questão é justamente o oposto: levar a medicina suficientemente a sério para perguntar por que, durante tanto tempo, ela estudou tão mal tantos corpos.
Comecemos pelos ratos. Sim, os ratos, esses pequenos funcionários involuntários da ciência, que trabalham sem carteira assinada nos porões da civilização. Durante décadas, muitos estudos com animais utilizaram preferencialmente machos. A justificativa era de uma praticidade quase cômica, se não fosse trágica: as fêmeas seriam complicadas demais por causa das variações hormonais. Em outras palavras, para estudar melhor a vida, escolheu-se ignorar uma parte central da vida.

Agora imagine, leitor: esses bichinhos, que têm um ciclo hormonal semelhante ao das fêmeas de nossa espécie, ideais para que se estudem os efeitos de medicamentos em 50% da população mundial, são postos de lado exatamente por serem semelhantes demais. Pior cego é aquele que não quer ver…
O resultado disso não fica preso ao laboratório. Ele chega à farmácia, à emergência, ao consultório. Mulheres podem metabolizar medicamentos de forma diferente, apresentar efeitos adversos em proporções diferentes, ter sintomas diferentes em doenças graves e ainda assim serem atendidas com protocolos que nasceram de uma média que não as representa. Não é que todo remédio “falhe” em mulheres, como se houvesse uma conspiração química dentro dos comprimidos. O problema é mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: às vezes a dose foi pensada a partir de outro corpo; o sintoma esperado foi descrito a partir de outro corpo; o risco foi calculado a partir de outro corpo.

Veja-se o coração, esse órgão que a literatura transformou em sede dos sentimentos e a medicina insiste, com razão, em tratar como uma bomba muscular bastante sofisticada. Quando pensamos em infarto, a imagem que nos vem à cabeça costuma ser a de um homem levando a mão ao peito, com dor intensa, dramática, quase teatral. É uma cena tão repetida no cinema e na televisão que parece ter virado sinal universal. Mas mulheres podem apresentar sintomas menos óbvios: falta de ar, náusea, fadiga, dor nas costas, desconforto difuso. Sintomas que, dependendo da escuta médica, podem ser empurrados para a gaveta da ansiedade, do estresse, da crise nervosa, da “coisa da idade” (seja essa a idade qual for).
A misoginia na medicina nem sempre aparece como uma frase grotesca dita em voz alta. Muitas vezes ela se manifesta como uma impaciência. Uma sobrancelha levantada. Um “isso deve ser emocional”. Uma demora a pedir exame. Uma pressa em prescrever calmante. Uma dificuldade quase ancestral de acreditar que a dor feminina é concreta, e não uma espécie de literatura exagerada do corpo. Profissionais da saúde (de ambos os sexos) ainda tratam mulheres como as mocinhas de romances operísticos que põem a mão na testa e desmaiam para que a tia solteirona comece a clamar para que alguém acuda trazendo um vidrinho de sais.

Claro que essa cólica que te faz desmaiar de dor é normal, não é endometriose. Esse cansaço é só porque sua ferritina ou vitamina D estão baixos, não é burnout, muito menos Síndrome da Fadiga Crônica. Esse desespero que te faz querer se jogar de cima de um prédio não é depressão; o que você precisa é fazer aulas de cerâmica.
Aí você pensa: que tragédia ser mulher. Sim. Mas calma que piora.
Já percebeu que, sempre que procuramos no Google (atire a primeira pedra quem nunca o fez) se aquela coceira que sentimos nas costas é uma alergia, uma picada de mosquito ou, como o guru da web normalmente indica, câncer de pele, tudo sempre se baseia em manchas na pele, vermelhidão etc.?
Pois bem, e se a pele for negra? Fica vermelha? E como vão aparecer as manchas?

Se analisarmos a dermatologia, a situação ganha uma camada visual ainda mais evidente. Durante muito tempo, os livros médicos ensinaram doenças de pele usando majoritariamente imagens de pele branca. Inflamações eram vermelhas. Irritações eram vermelhas. Reações alérgicas eram vermelhas. O corpo, aparentemente, era uma tela bege sobre a qual a doença pintava em tons de tomate.
Em peles negras, indígenas, pardas ou mais escuras, os sinais podem aparecer de outra forma: arroxeados, acinzentados, amarronzados, mais discretos, menos contrastados. Uma inflamação não precisa estar listada no atlas dermatológico europeu para existir. Só que, se o médico foi treinado a reconhecer doença apenas em pele clara, ele pode olhar para a pele escura e não ver. Ou ver tarde. Ou ver errado. Falha o olhar.
E talvez essa seja uma das grandes tragédias do racismo médico: ele não precisa declarar ódio para produzir dano. Basta treinar gerações inteiras com imagens incompletas, construir aparelhos calibrados em populações limitadas, ensinar sintomas a partir de um padrão estreito e chamar todo o resto de exceção. A exceção, nesse caso, tem bilhões de pessoas.

Eu sou um homem branco. Seria o paciente perfeito se não pesasse o equivalente a um bebê elefante. E, ainda assim, sendo “quase” perfeito, já perdi as contas de quantos médicos me prescreveram dieta ou cirurgia bariátrica. De um ortopedista, a quem fui consultar sobre uma tendinite no ombro causada pela natação, a, mais recentemente, um pneumologista que me mandou fazer a cirurgia bariátrica apesar de eu não apresentar nenhuma alteração nos meus exames, nem mesmo queixas da minha parte.
Há também a questão dos aparelhos. O oxímetro, por exemplo, virou objeto doméstico durante a pandemia. De repente, toda casa tinha um pequeno oráculo de dedo, dizendo se a oxigenação estava boa ou não. Mas estudos apontaram que a leitura desses aparelhos pode ser menos precisa em pessoas de pele mais escura, por causa da forma como a luz atravessa ou interage com a pigmentação da pele. O número aparece ali, mas a realidade pode ser outra.

No fim das contas, talvez o grande problema não seja a bula ser grande demais, o exame ser sofisticado demais ou o médico usar palavras longas demais para explicar coisas que poderiam ser ditas em português cotidiano. O problema é que, por trás de toda essa aparência de precisão, ainda há muitos corpos sendo tratados como exceções, como detalhe que se resolve depois. E “depois”, em medicina, costuma ser uma palavra perigosa. Porque o corpo que não foi estudado também adoece, também sente dor, também entra no consultório, também compra o remédio, também enfia o dedo no oxímetro e espera que aquele número diga alguma verdade.
Talvez, antes de sonharmos com uma medicina capaz de prever o futuro, devêssemos exigir uma medicina minimamente capaz de enxergar o presente. E, de preferência, enxergar todo mundo, não apenas o paciente imaginário que cabe direitinho no jaleco branco dos livros.

“Entre encontros e despedidas, a medicina também é feita de escuta, presença e humanidade.”




