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Catulo, o poeta das paixões

Quando o pregão dos jornaleiros anunciou, naquela manhã de maio de 1946, a morte do poeta, compositor, cantor, violonista e teatrólogo Catulo da Paixão Cearense, a tristeza se espraiou por todo o Rio de Janeiro, dos subúrbios distantes, onde morava o artista, aos bairros nobres da cidade. As biroscas e botequins humildes e os salões aristocráticos se igualaram no sentimento pela perda do poeta maranhense.

“Emudece a Cigarra”, era a manchete de “A Noite”. O texto da matéria, de feição literária, como ainda, ao tempo, se usava nos jornais, assim, iniciava:

“Emudeceu o grande cantor do Sertão! Esta madrugada, quando as estrelas brincavam de esconder entre as nuvens, Catulo da Paixão Cearense viu-as pela última vez. Pelo casario modesto do subúrbio, a lua dava o passeio final de sua jornada diária, pintando de prata os telhados. Os pássaros estavam emudecidos, perdidos em seu sono. E foi quando entrou no sono eterno aquele que cantou, melhor que ninguém, a poesia do luar do sertão”.

Embora tenha sido um dos mais notáveis artistas brasileiros da sua época, Catulo da Paixão Cearense (não era nome artístico, era o seu sobrenome), é uma figura, hoje, praticamente esquecida. É o próprio poeta quem conta a sua história:

“Nasci na Capital do Maranhão. Aos dez anos fui para os sertões agrestes do Ceará e aos dezessete vim para o Rio de Janeiro. Trouxe comigo as saudades da paisagem, da fala e das gentes do sertão. Salvei-me, felizmente, dos cursos e dos títulos. Estudava por mim tudo o que me interessava”

Ao chegar ao Rio, no início da década de 1880, Catulo trabalhou como ourives, auxiliando seu pai. Desde a adolescência revelara grande talento para fazer versos e, em 1887, já tinha o seu primeiro livro publicado. Atraído pela música, aprendeu a tocar flauta e, depois, violão, tornando-se exímio executante do instrumento. Passou a participar da vida boêmia da cidade, tendo contato com os grandes músicos da época.

Autodidata, Catulo estudava com interesse os compêndios de gramática portuguesa e a língua francesa (da qual chegou a fazer traduções de poesias). Enveredou, algum tempo, pelo ensino, chegando a abrir uma escola. Na última década do século, seus versos já eram bastante conhecidos, seus livros tinham várias reedições (um deles foi reeditado 50 vezes) e seu nome como poeta já era destacado.

Em 1908, Catulo realizou o que ele considerava a sua maior proeza, ao se apresentar com o seu violão, convidado pelo maestro Alberto Nepomuceno, no Instituto Nacional de Música, episódio que foi registrado pelo escritor Humberto de Campos:

“Por esse tempo, o violão era considerado, no Rio, uma espécie de arma proibida. Andar com um violão alta noite, era trazer consigo um atestado de má-conduta, uma prova que pertencia à numerosa classe dos …desclassificados. E foi quando Catulo surgiu. Era uma festa de beneficência […] Vários números foram executados, no piano e no violino […] quando apareceu no tablado, os olhos afundados na testa, o nariz longo, de quem cheira longe, um rapazola de aspecto popular, agarrado a um violão. […] E estalou, pela primeira vez, num salão aristocrático do Rio de Janeiro, acompanhada pelas cordas de um violão, a modinha nacional”

O sucesso da apresentação de Catulo no Conservatório foi estrondoso e o vaidoso poetava contava que 

“Naquele palco, onde só pisavam artistas de renome, cantei muitas das minhas canções […]  os aplausos eram tão retumbantes que se ouviam da rua”

 

Na primeira década do século 20, os anos em que foram feitas as primeiras gravações mecânicas de músicas no Brasil, Catulo da Paixão Cearense aumentou a sua popularidade colocando versos em melodias já conhecidas. Numa época de inexistente direito autoral, ele fazia essas parcerias, no mais das vezes, sem consentimento, ou mesmo o conhecimento, do compositor das melodias. Assim, se tornaram seus “parceiros”, Ernesto Nazareth, o flautista Joaquim Callado, o maestro Anacleto de Medeiros e vários outros. 

As belíssimas melodias, que não tinham letras, se tornaram ainda mais populares com os versos que foram colocados por Catulo, e daí surgiram grandes clássicos do cancioneiro do Brasil, como “Flor Amorosa”, de Joaquim Callado, “Nenê”, de Ernesto Nazareth, com o novo título de “Sertaneja”, e várias músicas do maestro Anacleto de Medeiros, que tornou-se “parceiro” de Catulo em várias composições, entre elas “Terna Saudade”, que se transformou em “Por um beijo”, “Três Estrelinhas”, que virou “O que tu és” e “Iara” (usada como tema por Villa-Lobos no Choros nº10), que teve o título mudado por Catulo para “Rasga o Coração”. 

 

Mas, às vezes, Catulo se apropriava da música, sem dar qualquer crédito ao “parceiro”, como foi o caso da belíssima “Choro e Poesia”, do flautista Pedro de Alcântara. Catulo colocou a letra e mudou a cadência da música, e deu-lhe novo título “Ontem ao Luar”, que ficou sendo uma das suas canções mais conhecidas. Somente, em 1976, trinta anos após a morte de Catulo, descendentes de Pedro de Alcântara conseguiram, judicialmente, o reconhecimento da sua autoria na música. 

Conta-se que “Ontem ao Luar” teria surgido de uma paixão de Catulo por uma moça, filha de um senador da República. Embora o amor fosse correspondido, a moça disse ao poeta que a sua família só aprovaria o romance se Catulo abandonasse a poesia, a vida boêmia e o violão. Catulo retrucou que não faria isso e iria sofrer a dor de uma paixão. Ela, então, teria lhe perguntado, “o que é a dor de uma paixão?”, e o poeta teria respondido “Não sei, mas você vai saber por uma modinha que eu vou fazer”.

“Ontem, ao luar, nós dois em plena solidão

Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão.

Nada respondi, calmo assim fiquei

Mas, fitando o azul do azul do céu

A lua azul eu te mostrei

Mostrando-a ti, dos olhos meus correr senti

Uma nívea lágrima e, assim, te respondi

Fiquei a sorrir por ter o prazer

De ver a lágrima nos olhos a sofrer”

Há outros casos de autorias discutíveis nas parcerias de Catulo, relacionados com possíveis apropriações de melodias. Villa-Lobos, que era um dos maiores admiradores de Catulo, em carta a um amigo, depois da morte do poeta escreveu “Catulo era incapaz de escrever uma célula melódica que fosse”. 

Mas, o caso mais polêmico das “parcerias” de Catulo foi com um dos seus grandes amigos (pelo menos durante muito tempo), o violonista pernambucano João Teixeira Guimarães, o João Pernambuco (autor de “Sons de Carrilhões”). Embora fosse um gênio do violão, Pernambuco era de poucas letras e sem qualquer noção sobre os seus direitos sobre as obras. O violonista teria mostrado para Catulo temas do folclore nordestino que ele conhecia. O poeta burilou os temas, colocou letras e transformou-os em dois dos maiores êxitos da sua carreira, sem qualquer crédito para João Pernambuco: “Caboca de Caxangá” e a magnífica toada “Luar do Sertão”.

A canção “Luar do Sertão” foi gravada, em 1914, pelo cantor Eduardo das Neves e, desde então, tem inúmeras regravações, sendo considerada um hino dos sertões brasileiros. Durante muitos anos, no tempo em que as emissoras de rádio não funcionavam ininterruptamente, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, a rádio de maior potência do país, abria as suas transmissões diárias ao som de “Luar do Sertão”. 

“Oh, que saudade do luar da minha terra / Lá na serra branquejando, folhas secas  pelo chão / Esse luar cá da cidade tão escuro / Não tem aquela saudade do luar lá do sertão / Não há, ó gente, oh não / Luar como este do sertão”

Com relação a suas polêmicas parcerias, pode-se ponderar, em favor de Catulo, que, naqueles primeiros tempos da indústria fonográfica, de incipiente estabelecimento do direito autoral, são inúmeros os casos de parcerias nebulosas e indeterminadas nas composições da música popular do Brasil, sendo o mais conhecido o de “Pelo Telefone”, o primeiro samba a ser gravado, que era um tema de roda de samba e que foi apropriado por Donga. É certo, que na virada do século 19 para o 20, alguns poetas e autores para o teatro já faziam letras para canções, mas nenhum se envolveu com tamanha intensidade nesse ofício como Catulo da Paixão Cearense, que pode ser considerado como o primeiro grande letrista da nossa música popular. 

O romancista Lima Barreto, um dos admiradores de Catulo, em crônica assinada sob o pseudônimo Jonathan, relatava a ascensão do poeta maranhense:

“Conheço há muitos annos o poeta Catullo da Paixão Cearense. Por esse tempo, elle ainda não era o nome nacional que é agora […] Vieram os annos, os espiritos mudaram, começamos todos nós a nos voltar para as coisas da nossa propria terra e a estima pela musa catullense tornou-se geral em todas as camadas da sociedade nacional. Passou a heroe-poeta”. 

Os versos das modinhas de Catulo usavam tanto palavras rebuscadas, algumas hoje ininteligíveis, como o linguajar simples dos sertões. A sua poesia era admirada por muitos destacados intelectuais, como Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Ruy Barbosa, Câmara Cascudo e pelo rigoroso e temido crítico literário Agrippino Grieco, que era um dos maiores amigos do poeta maranhense. O escritor Humberto de Campos considerava que Catulo, “ao lado do cantor boêmio, surgia o poeta maravilhoso, o poeta imenso, rico de imagens originais, de surtos, que ele próprio não saberia explicar”. Mario de Andrade considerava Catulo “o maior criador de imagens da poesia brasileira”.

Embora para alguns Catulo fosse vaidoso, megalômano, ao nível do cabotino, essa não era a impressão do cronista Humberto de Campos:

“O seu nome ganhava celebridade, atravessara o oceano, era citado nos jornais portugueses e no ‘Mercure de France’, mas o poeta continuava o mesmo. A sua casinhola do Engenho de Dentro, afundada no mato, continuava como era […] Feita, outrora de um único compartimento, o poeta havia resolvido o problema da comodidade, dividindo-a por meio de lençóis. Com quatro pregos e alguns metros de pano de algodão, dividia ele a cozinha da sala de jantar, e a sala de visitas do quarto de dormir”.

 

Catulo poderia, verdadeiramente, afirmar: “Cantei desde as casas mais modestas aos palacetes dos aristocratas, intelectuais e monetários”. O poeta que convivia nos ambientes boêmios dos botequins humildes e das serestas de rua também frequentava os salões presidenciais do Palácio do Catete. Em uma série de artigos memorialísticos publicados em uma revista carioca, Catulo relatou seus encontros com várias importantes figuras da vida nacional, como José Patrocínio, Afonso Arinos, Pinheiro Machado, Ruy Barbosa e o paraibano Epitácio Pessoa.

Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha de Epitácio Pessoa e autora da alentada biografia do ex-Presidente da República, escreveu sobre a intimidade de Epitácio:

“faltavam-lhe mesmo muitos dos interesses que apaixonam o comum dos homens. Mas gostava profundamente da vida. E tinha antenas com que captava a esparsa alegria de viver. Uma delas era o senso musical, não cultivado, nem apurado, mas direto e nativo. Nunca apreciaria concertos de música clássica, mas gostava de óperas e, sobretudo, da maviosa modinha brasileira”. 

Catulo da Paixão Cearense, em uma das suas crônicas de memórias, escrita em 1943, trata da sua relação de amizade com Epitácio Pessoa.

“Doutor Epitácio Pessoa adorava o violão. Nas minhas audições, era o primeiro que se via, na primeira fila, chegando sempre antes do tempo, para não perder uma palavra dos versos das minhas modinhas.”

Catulo narrou, nessa crônica, um sarau promovido por Epitácio Pessoa, revelando uma faceta pouco conhecida do político paraibano.

“Homem adorável Dr. Epitácio! Aplaudia-me sempre, mostrando na fisionomia a satisfação de ouvir-me. Depois de ‘Terra calda’, levantou-se, abriu o piano e tocou uma melodia, escrita expressamente para ser tocada no final desse meu poema. O grande presidente também era um compositor, de grande inspiração! Ao violão não lhe ouvi, mas ouvi-o ao piano. A audição foi até de madrugada e acabou, sem que S. Exa. tivesse mostrado o menor sinal de cansaço”

O poeta Catulo narra, em seguida, o seu último encontro com Epitácio Pessoa.

“A última vez que o vi foi quando fui fazer-lhe um convite no seu palacete da Rua Voluntários da Pátria. Foi à noite. Estava enfermo, mas animado […] Em rápidas palavras, relembrou com saudade as minhas audições e a noite do Palácio Rio Negro proferindo, com ênfase, esta frase lapidar: ‘Aquela noite, Sr. Catulo, foi para mim uma noite de fadas!’”

 

                                    

Catulo da Paixão Cearense morreu aos 83 anos de idade, no barracão de madeira onde morava, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.


Para o poeta gaúcho Mario Quintana, “Catulo não morreu, luarizou-se”. 

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7 COMENTÁRIOS

  1. Meu amigo João Vicente que presente. Tanto conhecimento numa narrativa envolvente. Término com um sentimento de nutrição poética histórica e de vigor a identidade do povo brasileiro nordestino
    Sertanejo. Grande veículo de informação e de conhecimento.

  2. Uma história vívida não há décadas mais sim, de dois séculos atras contada com tanta maestria e sabedoria não poderia ser de nada mais nada menos desse colunis do Blog de João Vicente, nosso querido Flavio Ramalho que nos enriquecer semanalmente com suas lindas histórias.

  3. Uma leitora e internauta com a sensibilidade e os conhecimentos da deputada Estela Bezerra, além de nos gratificar pelo prestígio da leitura é um fed bek referencial pela visão de mundo que tem.
    Flávio Ramalho, o autor do artigo, é um estudioso da música que vai da música popular nordestina ao rock e jazz, perpassando pela música clássica. Ele elabora com muita maestria e sensibilidade os seus escritos, que tornam-se atraentes e enlevam a nossa alma nos inundando de lembranças.
    Obrigado Estela Bezerra e tenha a certeza de que iremos nos esforçar para trazermos sempre o melhor de nós todos que fazemos a família http://www.joaovicentemachado.com.br.

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