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Ode á Liberdade!

 

Por: João Vicente Machado
    Charles Spencer Chaplin  marcou época no cinema pela inventiva, pela fecunda criatividade, pelo posicionamento firme em defesa das suas ideias e daquilo em que acreditava.

  De origem humilde, sobressaiu-se pelo seu talento de: escritor, produtor, roteirista, diretor, ator e compositor, tudo isso concentrado numa só pessoa, ele próprio.

  Nunca me canso de dizer que o cinema como arte,  divide-se em dois: antes de Chaplin e depois de Chaplin. O seu poder de comunicação era tamanho que ele se expressava por mímica e todos entendiam.  Com o traje característico, agradava dos oito aos oitenta anos representando porá uns um palhaço e para outros um filósofo que de fato o era.

    O texto que lhes trago foi  a fala final  de  O  Grande Ditador, um dos seus mais famosos filmes, contribuição da sua lavra no combate que a humanidade travava com o nazismo.
    Esse texto não poderia ser mais oportuno pelos tempos sombrios que vivemos:

O último discurso

                   Charles Chaplin


    Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.

  Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

   O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
  A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

    A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
  Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia … da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

  Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! 

 Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos.

 Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos!
  Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

  É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

    Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos.
                            
                             (Clique aqui)https://youtu.be/o6ppwiq2IYA
                         

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6 COMENTÁRIOS

  1. Atualíssimo o discurso de Chaplin. Durante toda a história da humanidade, o homem buscou e busca a liberdade e depois de conquistá-la ficou sem saber o que fazer com ela, buscando outras formas de escravidão. Definiticamente, o homem não sabe ser livre. Precisa sempre que algo ou alguém qur assuma o controle da sua vida. Aqueles que dominam também são escravos, do poder, da ganância e do autoritarismo, mostrando o pior lado do ser humano, e, foi essa salvação que Jesus de Nazaré veio oferecer ao homem. Infelizmente, suas palavras são usadas para escravizar. Ninguém entendeu nada. A escravidão é o maior pecado.

  2. Dia desses passando na rua vi um jovem jogado ao chão, sujo, surrando e completamente drogado. Aí pensei: Para alguns a liberdade é uma busca constante, eles sentem a necessidade de serem escravos de algum coisa ou de alguém, suas correntes nunca são quebradas, e quando são, arranjam um outro jeito de se escravizar. É como se a liberdade fosse algo inatingível.

  3. Parabéns por nos rememorar esse maravilhoso texto do Discurso do GRANDE DITADOR.
    Aliás, diga-se de passagem, uma “fala” muito atual.
    A maneira como Chaplin abordava os problemas sociais em suas obras é o que mais nos chama a atenção.
    Por sua esperteza e sensibilidade ele utilizava assertivamente da comédia, da ironia, do sarcasmo, do cotidiano, da empatia, assim como da felicidade e do amor para transmitir as verdades omitidas pelos “poderosos”. Embora, as injustiças e a violência aumentassem cada vez mais na sociedade, o mesmo persistia sempre em transmitir o lado bom da vida e, como era possível transformar algo negativo, através da verdade e do amor.

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