
Por: Neves Couras
O Nordeste brasileiro, principalmente as áreas do Sertão, aproximadamente até a década de 1940, contou com a comercialização de quase todos os seus produtos, que não eram muitos, carregados no lombo de burros por grupos de homens destemidos que levavam sua bagagem em “juntas” de animais. Uns carregavam os alimentos para os primeiros dias de caminhada e outros seriam substituídos quando os primeiros se cansassem.
Levavam em suas bagagens, principalmente, carne seca feita em paçoca de pilão, carne de sol pilada com rapadura e farinha, além de outros alimentos que podiam cozinhar na estrada, com a força dada por Jesus Cristo. Despediam-se da família com data de saída, mas nunca com a de voltar.

Ouvindo meu amado tio Chico Monteiro contar as aventuras de suas viagens, parecia que ele estava contando uma história de outro mundo. Não havia lugares para dormir. Viajavam calculando onde encontrariam um sitiante que tivesse um terraço onde pudessem descarregar seus animais, alimentá-los e descansar. Não entravam nas casas, mas, em alguns lugares, recebiam um café ou água para beber. A água para beber e cozinhar era colocada em cabaças, que eram reabastecidas nas paragens ou quando passavam por algum riacho.
Não ganhavam muito dinheiro, mas era a vida e o tempo que exigiam essa profissão. Tio Chico contava que, depois que meu avô deixou de viajar com ele, a caminhada continuava. Havia dias, já no final da viagem, em que os animais estavam tão cansados e magros que eles acabavam vendendo os próprios animais para voltar para casa.

Não havia estradas, não havia aconchego. Apenas os garranchos das árvores que não suportavam a falta d’água e algumas oiticicas que, onde existiam, também lhes davam guarida. As redes eram armadas de uma planta a outra, com o céu como testemunha e a lua e as estrelas para sonharem.
Convivemos com Tio Chico, que, de certa forma, se tornou nosso avô, e posso garantir ter sido esse tempo um dos melhores da minha vida, da vida dos meus primos e também dos nossos filhos.
Alguns podem até imaginar que era um homem rude. Não. Era valente, cheio de anedotas para contar e, a cada dia que passava, aquele homem se tornava mais humano. Depois que deixou as viagens, vivia na casa de nossa avó, sua irmã, a quem sempre chamou de “Baú”.

Esta semana, lembrei-me muito dele. Ele nos fazia sentir felizes, mesmo aumentando as anedotas para causar ainda mais divertimento. Suas filhas e seu filho são, para nós, uma espécie de irmãos que viviam em casas separadas. À noite, fazíamos duas coisas: ou jogávamos baralho, em que as prendas eram grãos de milho e feijão, ou ficávamos reunidos em nossas conversas.
Tinha uma brincadeira comigo que jamais esquecerei. Dizia que eu era braba. Perguntava ao meu falecido marido, e ele ainda acrescentava:
— É uma cobra.
Perguntava ainda:
— Tem maracá?
Meu marido respondia que sim. Ali, ele dava uma gargalhada que só ele tinha e terminava com um abraço.
É através desta pequena homenagem ao meu Tio Chico que deixo minha admiração a todos os destemidos tropeiros.

“Tio Chico guardou a coragem do tropeiro nos passos e a ternura de uma família inteira na memória.”
Curadoria – Gorette Wanderley




