Pontes e Muros

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

As pontes trazem em si o conceito de ligar, unir e conectar. Ao longo da história humana elas sempre foram necessárias, e nos mais recentes séculos, é possível observar seus inúmeros tipos, estilos, estruturas e surpreendentes modelos. São belas e funcionais, encurtam distâncias, estabelecem segurança em travessias em locais que, sem elas, seriam de difícil ou inacessível acesso.

No sentido figurado, as pontes servem para fomentar parcerias e comunhão de ideias, para manter elos e vínculos. E nesse âmbito, elas são essenciais, e na maioria dos casos, conseguem nutrir fortaleza, formar laços duráveis, cooperação e garantir elevação de ânimo àqueles que as estabelecem. É pontualmente saudável manter esses elos entre amigos, família, instituições, assim como na tecedura de projetos e programas que visam chegar aos lugares mais longínquos e atender às populações mais necessitadas.

Visualmente, em inúmeros lugares no mundo, as pontes erguidas nos inspiram, nos promovem o desenvolvimento da criatividade, reforçam o pensamento de intercâmbio, assim como podem ser as mais belas expressões arquitetônicas, tanto antigas quanto contemporâneas.

Simbolicamente, as pontes representam a passagem, um momento de transposição de um estado de espírito a outro, o momento de sair de um estágio da consciência a outro mais elevado, a conclusão de uma fase para ingresso na próxima etapa.

Já os muros atuam como barreiras a invasores ou pessoas estranhas, servindo como um escudo que mantém a privacidade, assim como para estabelecer uma obstrução aos avanços indesejados em direção ao que eles pretendem proteger.

Muros muito famosos são as muralhas da China, ainda hoje existentes, que se constituem em uma fortificação militar em pedra maciça, tijolo e argamassa (tendo como principal ingrediente a farinha de arroz glutinoso ou arroz pegajoso), e que percorre mais de 21 mil quilômetros de extensão. As primeiras etapas dessas muralhas foram assentadas no início do século VII a.C. Ela resiste ao tempo e é um marco histórico significativo. Protegeu o povo chinês em inúmeras ocasiões.

O muro de Berlim, por sua vez, atualmente com fragmentos que contam a sua história e que ficou marcado por ter separado entre os anos de 1961 até 1989 a Berlim Ocidental (capitalista na ótica dos aliados da guerra fria contra a “cortina de ferro”), da Berlim Oriental (socialista no viés soviético).

Há muros em todos os lugares do mundo, sob vários aspectos, estilos e estruturas. Aqui no Brasil eles são comuns. Existem em concreto, como também em cercas vivas, que ora ornam e em outros momentos dão vida a ambientes, dos mais rústicos aos mais rebuscados.

Encontramos os mais belos muros, assim como os mais sombrios, sujos e feios, em ambientes heterogêneos. Eles delimitam espaços, propõem uma divisão entre o que é meu e o que é seu. Já causaram inúmeros infortúnios entre vizinhanças hostis e muitos casos são contados sobre eles. Há muros em grandes propriedades, em cemitérios, em fazendas, em pequenas e grandes casas.

Antigamente as cidades eram rodeadas por muros, com vistas à proteção e ao estabelecimento de barreiras que dificultavam invasões indesejadas.

Paris (França), Lisboa e Évora (Portugal), Ávila (Espanha) e até a cidade de Jerusalém (Oriente), já foram cercadas por grandes muros (algumas ainda são). Era comum na época medieval que as cidades e povoados fossem rodeados por muros, exatamente visando à proteção em eventuais incursões para saques e sequestro de bens ou para usurpação do poder.

Aqui no Brasil entre as décadas de 60, 70 e 80, os muros eram baixos, vazados, expondo jardins, flores e arbustos que davam frutos, funcionando como ornamentação e ambientação de residências. As pessoas andavam pelas ruas, frequentavam praças, colocavam cadeiras nas calçadas para entabular conversas agradáveis, tomar ar fresco e apreciar o céu.

No Brasil contemporâneo, com o crescimento da insegurança urbana, os muros foram erguidos às alturas e os habitantes dessas casas ou prédios se interiorizaram, deixaram de estar à toa nas calçadas, encheram suas fachadas de cercas elétricas e de câmeras, enraizando o medo ao outro e valorizando a extrema privacidade como modelo de proteção.

Tornou-se necessário sabermos como ir e vir em maior segurança, associando isso a uma maior atenção, sabendo que nem todos os caminhos nos são viabilizados. Há recantos dominados por facções, milícias, criminalidade e perigo real.

O aumento populacional, as demandas por novas premissas e políticas públicas, estão tornando os clássicos conceitos de pontes (união e conexão), de muros (barreira e proteção) e de segurança (ir e vir sem obstrução ou embargo), um paradoxo a ser observado e a ser equacionado para o bem da população brasileira.

O mundo também está se munindo de muros ao contingenciar e dificultar a imigração e a enxergar imigrantes como predadores. Toda generalização e todo ódio, são perniciosos e destrutivos. Esses conceitos reversos que ganharam vulto, de conotação pejorativa, precisam não apenas ser ressignificados, mas, apaziguados em muitas vertentes.

Torçamos para que mais pontes sejam levantadas e construídas, que os muros voltem a ser ornamentos e não impedimentos à própria qualidade de vida e ao congraçamento entre os povos, vizinhança e civilização.

É fundamental compreender que o estágio ao qual a humanidade chegou, merece um repensar, um novo olhar e o estabelecimento de novo escrutínio, de modo a dar rumos mais adequados à própria civilização.

Não existe uma fórmula mágica para sairmos desse torpor, o que deve haver é a vontade de construir novos parâmetros, não pela exclusão ou segregação, mas, pela inclusão, através de uma mesa redonda de negociações, onde ninguém deverá estar à cabeceira da mesa ditando suas regras hegemônicas, mas, através da civilidade em encarar as problemáticas atuais, gerais e pontuais com sabedoria, discernimento e real espírito de cooperação.

 

“Entre erguer barreiras e aproximar margens, a humanidade revela o futuro que deseja habitar.”

Curadoria: Gorette Wanderley

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