
Por: João Vicente Machado Sobrinho
A cada período eleitoral, somos chamados a exercer uma importantíssima prerrogativa democrática, que é a de escolhermos aqueles que terão a responsabilidade de nos representar e de administrar os interesses coletivos de toda população.
Nesse momento é prudencial conhecer em detalhes os candidatos, examinarmos a sua trajetória de luta e, sobretudo, avaliarmos a densidade das suas propostas, bem antes do ato de votar. Esse é uma auto convocação (Sem Augusto Cury) à racionalidade. Uma escolha consciente pressupõe: informação, reflexão e capacidade de discernimento, para separar aquilo que é efetivamente um projeto político, do que não passa de repetitiva e manjada retórica eleitoral.
No entanto o que observamos é, que essa tarefa vai se tornando convenientemente mais difícil, revelando mais uma astúcia que nos salta aos olhos: nas campanhas políticas, faltam ou inexistem propostas e compromissos e sobram promessas vazias em profusão.

Em boa parte das disputas eleitorais, o cidadão é submetido a uma verdadeira avalanche de discursos, impropérios, bravatas, declarações grotescas, ataques, slogans e compromissos diversos, todos eles exclusivamente para para consumo. Prometem: transformar e robotizar a saúde; revolucionar e robotizar a educação; acabar com a violência; gerar empregos; reduzir impostos; combater a corrupção e melhorar a vida da população.
Toda essa distopia, pode parecer muito simples e por isso mesmo só é apresentada quando em fase de campanha eleitoral. Compete então ao eleitor que somos, questionar o Fariseu com uma pergunta inevitável: como vosmecê vai fazer tudo isso? Como conseguirá fazê-lo? Quais recursos vosmecê vai usar para ver o produto acabado? Em que prazo irá concluir tudo isso? Essas promessas todas estão catalogadas nas atribuições do cargo que vosmecê pleiteia? Qual será a sua prioridade? O que será necessário, de nossa parte sacrificarmos, para que essa sua promessa seja cumprida? É justamente nesse momento que a diferença entre proposta e promessa se torna nítida e perceptível.
Uma promessa pode ser simplesmente uma manifestação de desejo. Uma proposta, ao contrário, exige um aditivo de racionalidade, de planejamento e uma demonstração mínima de viabilidade. Não basta dizer ao eleitor aquilo que ele gostaria de ouvir. É indispensável a apresentação daquilo o candidato pretende realizar e, principalmente, explicar como isso poderá ser realizado.

Quando esse conteúdo não aparece, a campanha eleitoral passa a ser observada por outros elementos: a tradição da oligarquia familiar do candidato; seu histórico de vida pública; a medida do seu caráter; a eloquência e capacidade de comunicação muitas vezes enganosa; a exploração das emoções, a polarização entre grupos econômicos e financeiros, a rejeição ao adversário e a fabricação maquiavélica de narrativas. Nesse estágio a eleição deixa de ser uma disputa entre projetos e passa a ser uma disputa entre imagens.
É num clima emocional como esse, provavelmente montado a propósito, que nós, eleitores, precisamos multiplicar a nossa atenção.
Talvez, diante de propostas tão distópicas como essas, a orientação tradicional de simplesmente “escolher o melhor candidato” precise ser complementada por outra: antes de escolher o candidato, é preciso aprender a excluir a escória.
A Pobreza franciscana de conteúdo de muitos pleiteantes e representantes atuais, irá retardar o desenvolvimento presente, além de comprometer a sustentabilidade das gerações futuras.
Uma eleição deveria ser, essencialmente, uma oportunidade para discutir o futuro. Os candidatos deveriam apresentar diagnósticos diferentes, para os problemas existentes, estabelecer prioridades apontando caminhos alternativos para o futuro.
Não significa que todos os eleitores precisem pensar da mesma maneira. Ao contrário: a riqueza democrática está justamente na existência de diferentes visões.

Assim, enquanto um candidato defende uma maior participação do Estado. Outro pode defender maior liberdade econômica. Um pode priorizar investimentos públicos. Outro pode defender mudanças na estrutura administrativa. Um pode apresentar determinada concepção de segurança, educação ou saúde, enquanto outro pode propor caminhos diversificados.
É dessa divergência salutar, que nasce a escolha democrática.
O problema aparece quando a divergência é substituída pela ausência de projetos, ou seja, quando todos prometem melhorar tudo, mas poucos explicam como fazê-lo. Quando todos afirmam defender a população, mas não deixam claro quais interesses serão priorizados. Quando todos falam em mudança, mas não explicam o que efetivamente farão para mudar.
Nesse cenário, a eleição torna-se um espetáculo feérico de fogos e luzes, pode até permanecer movimentada, embandeirada, barulhenta e emocionalmente intensa, muito rica em alegorias , mas perde em densidade política. Há muito discurso, muita festa, para pouco conteúdo programático.
Prometer é muito fácil; realizar é outra coisa.

Existe uma grande diferença entre fazer uma promessa em um palanque de campanha eleitoral e administrar a realidade depois da posse. Durante a campanha, pelo falatório dos candidatos, parece não existir: escassez de recursos; restrições orçamentárias; limites institucionais; conflitos de interesses e obstáculos administrativos. Tudo parece fácil e possível. Depois da eleição, a realidade se apresenta, revelando claramente que o orçamento é limitado; as competências são definidas pela Constituição e pelas Leis; as prioridades se acumulam; existem problemas estruturais a tratar: contingenciamentos de verbas, despesas de custeio, e uma infinidade de circunstâncias que tornam a administração pública muito mais complexa do que o eleitor pode imaginar.
Por conseguinte o eleitor precisa desconfiar das soluções fáceis, para problemas difíceis.
Quanto mais simples forem apresentadas as soluções para um problema estrutural, maior deverá ser a curiosidade do eleitor que deve indagar os detalhes. Não se trata de exigir que todo candidato seja um especialista em todas as áreas. Trata-se de exigir o essencial que é a sinceridade do postulante. Ora, se o problema é complexo, a solução provavelmente também será.
Lembremos sempre: Proposta verdadeira exige compromisso formal.
Uma proposta concreta tem a segurança que a promessa genérica não garante: ela permite a cobrança.
Quando um candidato afirma que pretende melhorar a educação, o eleitor pouco pode cobrar posteriormente, porque “melhorar a educação” pode significar praticamente qualquer coisa.

Mas se o candidato estabelece uma meta, apresenta uma política específica, define prioridades e indica os meios pelos quais pretende alcançar determinado resultado, ele cria um compromisso verificável, em que é possível a acreditar e: acompanhar, comparar, cobrar, para ter a certeza de que o compromisso se efetivou. Talvez resida justamente aí, uma das razões pelas quais determinados postulantes, preferem permanecer no campo das generalidades. Quanto mais vaga for a promessa, menor é a responsabilidade futura.
Assim a escolha por exclusão é um exercício de racionalidade.
É nesse ponto que precisamos modificar a maneira de pensar o voto e se auto indagar:
“Em quem eu devo votar? ”
Ou talvez seja mais inteligente e mais fácil começar se auto indagando:
“Em quem eu não devo votar? ”
A princípio o eleitor já pode fazer um descarte preliminar daqueles postulantes terrivelmente bravateiros. Sobrarão nomes aparentemente aptos que serão colocados numa peneira, onde certamente poucos postulantes ficarão retidos para serem analisados. O restante é descartável como escória eleitoral.
Nessa operação seletiva, separam-se aqueles que não apresentaram propostas ou se o fizeram foram propostas inexequíveis. (E como tem!) Separam-se os que apresentam propostas incompatíveis com o cargo que postulam; (Quase todos vão construir isso ou aquilo!)

Exemplos de promessas as mais mirabolantes e inexequíveis é o que não faltam, inclusive aqui na Paraíba, que tem candidato para todo gosto..
Eufemisticamente vejamos alguns pretensos depoimentos ditos de eleitores, colocados no horário eleitoral. Dizem eles:
“Eu voto porque meu filho tem um emprego e pode perder. ” Assédio ameaçador!
“Eu voto porque ele pagou minha água e minha energia. ” Chantagem filha do desemprego!
“Eu voto porque ele me deu 1 milheiro de tijolos e 5 sacos de cimento. ” Crime de corrupção eleitoral!
“Eu voto porque ele mandou colocar água na minha casa.! ” Cooptação ilícita de sufrágio!
“Eu voto porque ele traz bandas boas para animar as festas. ” Panes e circenses = pão e circo= manipulação!
“Eu voto porque ele mandou um avião buscar meu filho, muito doente, no alto sertão e levá-lo para a capital. ” Tutela da liberdade de voto, com um bem público!
Uma sequência corruptora como essa, rasgará a máscara da concentração de rendas e mostrará a face: do desemprego, da desassistência, da fome e da miséria, todos filhos bastardos do modelo econômico, do método liberal capitalista de governo. Essa carência latente é consequência da omissão da má politica, praticada inclusive pela esquerda liberal que insiste em domesticar o capital.
Depois do necessário parêntese exemplificativo, retomemos ao processo de escolha dos candidatos, usando agora uma filtragem de algodão, daquelas usadas em licor, para escolhermos melhor.

Na hora da escolha final, basta olhar para os poucos postulantes que restaram e, de maneira cirúrgica, checar três coisas: discurso, proposta e prática.
Outra situação enganosa é a polarização. Quando a política se reduz a “votar para não deixar o outro ganhar”, o candidato deixa de ter a obrigação de explicar aquilo que pretende fazer. Basta convencer o eleitor de que o adversário é pior do que ele e a eleição se transforma em uma espécie de campeonato de medo. Um lado tenta provar que o outro representa uma ameaça e vice versa.
Assim o eleitor termina sabendo muito sobre quem os candidatos combatem e muito pouco sobre aquilo que eles efetivamente pretendem construir. No dizer lúcido de Marx isso não é a filosofia da miséria e sim a miséria da filosofia que empobrece e torna cada vez mais distante a verdadeira democracia de um mundo de iguais.
Por tudo isso o eleitor também é grande responsável pela qualidade da política.
É tentador se eximir da responsabilidade e creditar toda a responsabilidade à pobreza do debate entre os postulantes, quando parte da responsabilidade é nossa como eleitor.

A política liberal oferece aquilo que percebe que funciona eleitoralmente e rende votos. Se o discurso agressivo gera mais engajamento do que uma boa proposta, haverá mais agressividade. Se a promessa impossível produz mais votos do que uma explicação realista, haverá mais promessas vãs. Se o postulante importa mais do que o projeto, as campanhas investirão cada vez mais na construção de personagens.
Por isso, o voto seleciona e educa sobre a economia política.
Cada eleição transmite uma mensagem. Se elegermos candidatos que apresentem boas propostas, estaremos contribuindo para aumentar a credibilidade na boa política, sem a qual nós não iremos a lugar nenhum. O valor político do conteúdo embasado em promessas ajuda a perpetuar o atraso; ao escolher exclusivamente pela emoção, fortalecemos a política emocional; ao exigir coerência, planejamento e responsabilidade, aumentamos para o postulante o custo político da improvisação.
O eleitor não pode ser alguém que apenas recebe o que má política lhe entrega de forma passiva. Nesse particular ele é o agente da transformação sujeito ativo da política inclusiva.

“Quem troca perguntas por aplausos entrega o futuro às promessas.”
Curadoria – Gorette Wanderley




