
Por: Antônio Henrique Couras
No último dia 16 começaram oficialmente as campanhas políticas por todo o Brasil. Na Paraíba, como sempre acontece, começaram também os jingles, os santinhos, as caminhadas, os abraços em feira, as fotografias comendo alguma coisa e aquela súbita disposição dos candidatos para conversar com gente que provavelmente não encontrariam em nenhuma outra época do ano.
Olhando as candidaturas deste ano, uma coisa me chamou atenção: ainda há poucas mulheres. E não é por falta de eleitoras. As mulheres são maioria entre os eleitores paraibanos. Mesmo assim, continuam sendo minoria entre aqueles que se apresentam para ocupar os cargos públicos.
Foi daí que me lembrei de Anayde Beiriz. Talvez muita gente conheça o nome. Talvez lembre vagamente de uma mulher ligada a João Dantas, o homem que matou João Pessoa em 1930. Foi assim, aliás, que durante muito tempo ela apareceu na história: como a namorada, amante ou companheira de um homem famoso por ter assassinado outro homem ainda mais famoso. É uma forma bastante injusta de apresentar alguém.

Anayde nasceu na Paraíba em 1905 e se formou professora muito jovem. Aos 17 anos já tinha concluído a Escola Normal, com destaque, e depois foi trabalhar em Cabedelo. Mas ser professora era apenas uma parte da vida dela.
Anayde escrevia. Participava de saraus, publicava poemas, contos e textos em jornais e revistas e frequentava os círculos intelectuais da Paraíba dos anos 1920. Fazia parte do grupo literário conhecido como Os Novos e era a única mulher entre eles.
Também usava cabelo curto, tinha uma vida social bastante livre para os padrões da época, frequentava ambientes predominantemente masculinos e falava sobre assuntos que uma moça “de família” provavelmente deveria evitar. Hoje isso parece pouco. Na Paraíba de cem anos atrás, não era.
Imagino que Anayde tenha dado bastante trabalho aos fiscais da moral alheia, categoria profissional que, felizmente, nunca enfrentou falta de mão de obra por aqui.

Ela também defendia maior liberdade para as mulheres e vivia de uma maneira que contrariava o comportamento esperado de uma jovem solteira naquele período.
Foi nessa vida que apareceu João Dantas. Advogado e jornalista, Dantas era um dos adversários políticos mais duros do então presidente da Paraíba, João Pessoa. A política paraibana estava num estado de conflito que hoje às vezes é difícil imaginar. A disputa envolvia famílias, jornais, polícia, grupos armados e acabou desembocando na Revolta de Princesa.
Anayde se relacionava com Dantas, mas não existem boas razões para tratá-la como participante daquela guerra política. Ainda assim, acabou envolvida nela.
Em julho de 1930, a polícia invadiu o escritório de João Dantas e apreendeu seus documentos. Entre eles estavam cartas pessoais trocadas entre ele e Anayde. O conteúdo da correspondência acabou sendo exposto e utilizado politicamente contra Dantas. Só que havia uma mulher do outro lado daquelas cartas.

E em 1930 uma correspondência amorosa de uma mulher solteira não era apenas assunto para fofoca. Podia destruir uma reputação inteira. Pouco depois, em 26 de julho, João Dantas encontrou João Pessoa numa confeitaria no Recife e o matou a tiros.
O assassinato mudou a história da Paraíba e do Brasil. João Pessoa virou mártir político. Seu nome foi dado à capital, antes chamada Parahyba. Sua morte foi explorada nacionalmente pelos adversários do governo federal e se tornou um dos episódios que precederam a Revolução de 1930.
Anayde ficou no meio disso tudo. E ficou da pior maneira possível. Ela não matou João Pessoa. Não planejou o assassinato. Não comandava grupo político algum. Mesmo assim, parte da condenação moral que caiu sobre João Dantas acabou chegando também até ela.
Isso acontece com frequência na história. Quando há uma mulher perto de uma tragédia envolvendo homens importantes, não demora muito para alguém decidir que ela precisa ter alguma culpa.

João Dantas foi preso e morreu poucos meses depois, na Casa de Detenção do Recife, em circunstâncias até hoje discutidas. Anayde morreu pouco depois, em outubro de 1930, aos 25 anos, provavelmente por suicídio.
E durante décadas foi assim que muita gente a conheceu. A amante de João Dantas. Só que antes de existir essa personagem, existiu uma mulher chamada Anayde Beiriz.
Professora. Escritora. Poeta. Leitora. Uma jovem que frequentava rodas intelectuais numa época em que isso ainda era um território quase inteiramente masculino. Uma mulher que parecia bastante pouco interessada em organizar a própria vida de acordo com a opinião da vizinhança.
É essa Anayde que me interessa mais.
Porque estamos em 2026 e começamos novamente uma campanha eleitoral em que as mulheres são maioria entre quem vota, mas ainda não são maioria entre quem aparece na cédula eletrônica pedindo nosso voto.

É claro que muita coisa mudou desde o tempo de Anayde. Seria absurdo dizer o contrário. Mulheres votam, são eleitas, governam cidades e estados, ocupam ministérios, tribunais e a Presidência da República. Mas certas coisas mudam mais devagar.
Ainda existe uma diferença enorme entre participar da política e ocupar seus espaços de poder. E ainda existe uma vigilância muito particular sobre mulheres que resolvem entrar nesses espaços.
Anayde nunca pôde votar. Morreu dois anos antes de as brasileiras conquistarem esse direito. Talvez por isso seja interessante lembrar dela justamente agora, no começo de mais uma eleição. Não para transformá-la numa santa, numa heroína perfeita ou numa bandeira que ela própria nunca carregou. Mas simplesmente para devolver a ela aquilo que durante muito tempo lhe tiraram. O direito de ser lembrada pelo próprio nome.

“Que a canção devolva a Anayde não o escândalo que a perseguiu, mas a liberdade com que ela escreveu o próprio nome.”
Curadoria – Gorette Wanderley




