Lágrimas de gratidão

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

Lágrimas caíram sobre minha face por vontade própria. Senti nesse instante o meu coração extravasando por uma saudade cortante. Mas, são lágrimas de gratidão por tudo o que o objeto desse afeto me proporcionou e me fez crescer como ser humano. Lembrei do seu jeito faceiro, suas atitudes cheias de vontade e de suas teimosias, mas também, de seu dengo, da sua constante companhia, de sua alegria sem medida quando me via.

Ele sempre teve um enorme apego por mim, quer nos momentos de bagunça, nas horas de preocupação, no jeito cuidadoso, na presença e até na sua cobrança por carinho e atenção.
Eternamente lembrarei daqueles seus lindos olhinhos como duas jabuticabas viçosas me olhando, a especular a minha alma, a me dizer de seu amor, de seu apego, da vontade de ficar perto, do seu jeitinho de se encostar em mim. Quando adoecia ou amolecia por ter tomado alguma vacina, era no meu colo que ele ficava. Nos lugares frios era junto a mim que ele se esgueirava para ficar aquecido, protegido e empacotado.

Alguns dias após seu nascimento em 19 de março do ano de 2010, nós o vimos tão minúsculo, tão frágil, tão cativante, tão rosado, olhinhos fechados, mamando em sua mãe, no meio de seus irmãos. Ele era um machinho entre quatro crias. Uma dessas crias seria de meu filho, como presente de uma amiga. Ainda nesse dia, esse miudinho se voltou para o meu filho, se mexendo em sua direção. Naquele ato, ele escolhera seu tutor. Eram duas crianças: um menino pré-adolescente e um cachorrinho recém-nascido.

Seriam amigos e cúmplices, carne e unha, baguncinhas e travessuras, noites e dias de convivência, além de uma construtiva interação. Após o primeiro contato, ele ainda precisava ficar mais alguns dias junto à mãe, tomar vermífugo no tempo certo e efetuar o desmame. Fomos vê-lo uma segunda vez, notando seu tamanho um pouco maior que a minúscula criaturinha que vimos na primeira vez e seus movimentos estavam mais firmes.

A terceira vez, antes de completar 40 dias de nascido, era o momento de trazê-lo para morar conosco. Fomos avisados de última hora. Eu estava convalescendo de uma cirurgia, ainda ponteada e antes de completar 15 dias de operada. Com a ajuda de uma funcionária eu precisei me ajeitar para poder dirigir e ir buscá-lo junto com meu filho.

Nesse tempo seus pelos já apareciam e ele cabia na palma de uma de minhas mãos, de tão pequeno que era. Um bichinho lindo ou uma saltitante bolinha de pelo viva. Já o amávamos. Já o achávamos belo, elegante e faceiro. Dali em diante as aventuras seriam constantes. Literalmente, a nossa vida nunca mais seria a mesma. Ele era agora o novo membro de nossa pequena família.

Eu me perguntava se eu saberia cuidar de uma criaturinha tão pequena e delicada, já que na minha infância e adolescência meus pais tinham cachorros enormes, sempre em par, que a gente ajudava a cuidar: um pastor alemão e uma cadela de caça preta, três gerações de casais de filas, entre outros tipos de grande porte.

E esse diminuto ser que meu filho nomeou de “Flup”? Seria nosso pequeno Flup, um Poodle Toy, um minúsculo companheiro de todas as horas que ainda cresceria um pouco. Lembro quando nos mudamos de um apartamento de um bairro para outro e ele estava com seis meses de nascido. Durante a mudança ele ficou nos meus braços para não se perder ou ser o motivo da queda de alguém, por causa de suas rápidas e certeiras peripécias naquelas suas quatro patinhas.

Já no apartamento novo, ele mordia a ponta do rolo de papel higiênico dos banheiros e saía correndo ligeirinho pelo apartamento, cruzando toda a sala. Não precisa dizer que os cômodos ficaram cheios das tiras desse papel espalhadas. Era trágico e cômico.

Nessa fase, não faltaram sandálias arrebentadas por mordidas, pés de cadeiras destroçados, pingentes meus quebrados ainda no meu pescoço (e eu achando que ele estava apenas lambendo as peças das minhas correntinhas – mas as torava e eu precisava levar para reparo). Com pouco tempo ele teve que aprender a se comportar mais, a ouvir “isso é feio” e “isso não”. E como ele tinha ciência quando fazia o que era errado! A carinha de “me perdoe” era clara. Assim, foi se educando.

O seu olhar de culpa sempre o denunciava quando fazia trelas. Ele, incondicionalmente era o meu travesso favorito. Certa vez, um amigo advogado foi no nosso apartamento para que eu assinasse documentos. Diante das coisinhas que ele viu de Flup, sentenciou: “Até para nascer cachorro é preciso ter sorte”. Eu ri muito disso.

Por que a frase? Ele viu um espaço reservado feito de barras de alumínio, medindo 1,70 por 1,30m, com uma portinha de ferrolho (que passava o dia aberta e à noite fechada de modo a delimitar a sua circulação), com um belo pipi-dog azul escuro, um hidrante rubro que compunha o conjunto, tendo um cone vermelho sobre a base azul, uma cama de madeira com acolchoado sobreposto, recipientes de inox com base comum para água e ração, além de seus brinquedinhos espalhados naqueles quase 2,5 m².

A linda e bem cuidada pelagem de Flup na cor branca, o seu perfil esguio, a sua altivez, eram apreciados por onde ele passava. Em qualquer lugar que ele fosse, muitas pessoas queriam tocá-lo, vê-lo, admirá-lo. Sempre foi um pequeno e lindo “Lord”. Especialmente quando me acompanhava em alguma comemoração, vestido em seu smoking canino ou em camisas que ornavam com seu pelo alvo como algodão. Tinha roupinhas que vestia quando o tempo estava mais friozinho, especialmente à noite.

Ultimamente, passeava comigo em todos os lugares que eu ia, assistia filmes e parecia estar tomando conta de mim. Nada lhe escapava da atenção, do menor ao maior detalhe.

Quando meu filho estava em seus 15 anos e passou um mês em intercâmbio linguístico no Reino Unido, ele sofreu junto de mim e eu pude compensar essa ausência redobrando a atenção e os cuidados com ele. No retorno de meu filho, o mundo reabriu-se em festa para Flup.

Quando, aos 19 anos, meu filho foi para a Alemanha passar um semestre compondo seu curso de graduação, nosso pequeno Flupinho teve dermatite atópica severa. Com o apoio de veterinário especializado em pele de animais, tratei dele com esmero e muita dedicação. No retorno de seu dono, ele renasceu e a pele foi voltando ao normal até ficar totalmente boa.

Já nos 24 anos de meu filho, seu doutorado na Alemanha o fez morar naquele país e a ausência dele foi um momento difícil tanto para mim e significativamente para o nosso pequeno Flup. Eu passei a ser a sua tutora. Como a idade de Flup já estava avançada e com um problema cardíaco em andamento, não poderia viajar de avião.

Ficamos os dois juntinhos, maturando as nossas saudades do amado que partira para seus estudos em outro Continente. Flup e eu nos apegamos ainda mais, colados feito simbiose. É fato atestado pela ciência e estudos neurais, que cães, assim como outros animais domésticos muito próximos, atuam e acionam certa zona cerebral nos humanos que quase sempre está latente. Quando esse ponto é conectado, descobrimos um sentimento puro, incondicional, com um dos mais altos graus de empatia, de envolvimento e de comprometimento gratuitos e sem medida. Funciona como um portal que abre as portas para o Éden paradisíaco: um lugar imaculado, onde o amor é a única lei e o devotamento é a oração.

A doença cardíaca de Flup avançou muito entre seus 15 anos de idade e os 16, resultando em visitas constantes aos veterinários, com exames e três internações. Fiz questão de celebrar seu aniversário junto com os colaboradores que lhe davam banho, tosavam e cuidavam para que seus medicamentos não faltassem. Ele não comeu nada porque as iguarias serviram para agradecer aos humanos que cuidavam dele.

Nesse tempo eu já sentia que ele estava cada vez mais cansado e que seus dias estavam contados. Procurei dar-lhe qualidade de vida até enquanto estivesse entre nós, aliviando sintomas e evitando-lhe estresses.

E então ele se foi, aos 16 anos e 11 dias, onze dias após o seu aniversário (+ 19/03/2010 a † 31/03/2026). Lindo, pelo sedoso e impecável, pele sempre bem cuidada, dentes ainda firmes sem ter perdido nenhum deles, olhinhos lindos, cheios de ternura.

Foi muito difícil me despedir dele, ver seu corpo gelado e sem vida perecendo apenas dormir. Tirei para guardar alguns pelos e acompanhei o processo para que ele fosse cremado. Não menos difícil foi separar seus pertences para doar a uma ONG e a alguns tutores: caminhas, suporte para assento no carro, roupas, medicamentos com validade até 2027, pacotes ainda lacrados de tapetes de chão para xixi, apetrechos, vários brinquedos, mantas e outros tantos objetos.

Ainda hoje, vejo sua imagem, seu jeitinho lindo de andar e se mexer, sua ligeireza e sutileza, pureza e beleza. Ao final de agosto deste ano de 2026, se completarão cinco meses de sua partida para o mundo etéreo dos cães, um paraíso de anjos que nos iluminam e acionam o melhor que há dentro de nós.

E onde quer que ele esteja, continuará eternamente no meu coração. Jamais o sentimento que nutro por ele será destinado a algum outro animal, porque ele é único e esses amores são diferentes entre si. Não há substituição.

Sinto falta de ter seu corpinho buliçoso e inquieto com quatro quilos e meio nos meus braços, com seu olhar profundo. Sinto falta de seu cheirinho de cachorro bem cuidado, de seu olhar dengoso a me fitar, de quando ficava sempre aos meus pés e me acompanhava a todo passo que eu dava como um verdadeiro chicletinho. Flup, um amor eterno, inesquecível e insubstituível.

Para guardar uma lembrança dele para além do nosso coração e memória, fizemos uma pequena réplica impressa em 3D, além de uma peça em prata que guarda seu pelo e pequena parte de suas cinzas. Fiz também uma singela galeria de fotos. Realmente ele é muito charmoso. Será eternamente lindo onde quer que esteja.

 

“Flup deixou o alcance dos braços, mas permanece na luz de todos os dias que sua presença tornou celestiais”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

 

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo