
Por: Rui Leitão
Os americanófilos brasileiros, hoje representados sobretudo pela família Bolsonaro, parecem continuar inspirados na célebre frase atribuída ao então embaixador Juracy Magalhães, em 1965: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Esse espírito de subordinação de parte das elites nacionais evidencia o alinhamento político-ideológico liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por seus aliados da extrema direita.
Enquanto a diplomacia brasileira, historicamente, busca conduzir as relações internacionais com base na reciprocidade e na defesa dos interesses nacionais, o bolsonarismo adota uma postura de alinhamento quase incondicional a Washington, sustentando que a proximidade com os Estados Unidos seria, por si só, garantia de desenvolvimento econômico, estabilidade política e prestígio internacional.

Entretanto, a realidade demonstra que nem sempre os interesses econômicos e estratégicos norte-americanos coincidem com os interesses brasileiros. A imposição de tarifas de importação, as disputas envolvendo a regulação das big techs, os conflitos em torno de instrumentos financeiros e as exigências relacionadas às metas ambientais e de desmatamento revelam que, frequentemente, as agendas dos dois países entram em choque. Nesse contexto, a máxima de Juracy Magalhães mostra-se cada vez mais distante das circunstâncias contemporâneas.
A postura do principal líder da oposição revela, por sua vez, uma preocupante ausência de estratégia para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento, transferindo, na prática, a outro país a expectativa de definir os rumos do Brasil. Ainda que o regime militar tenha mantido estreita relação com os Estados Unidos, preservou, em diversos momentos, certa margem de autonomia na condução da política externa, autonomia que contrasta com o alinhamento observado nos discursos e nas ações do bolsonarismo.

A impressão que se transmite é a de que o Brasil deveria ocupar um papel secundário, como mero instrumento da estratégia diplomática norte-americana. Durante seu mandato, Jair Bolsonaro ofereceu diversas demonstrações públicas de admiração ao então presidente Donald Trump, chegando ao constrangedor episódio em que lhe dirigiu um “I love you” durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, gesto que simbolizou o grau de identificação política cultivado entre ambos.
Mais preocupante, porém, é o surgimento de uma verdadeira torcida organizada em torno de Donald Trump. Parte desse eleitorado deposita a expectativa de que o presidente norte-americano exerça algum tipo de pressão sobre as instituições brasileiras, influenciando o cenário político interno, revertendo condenações judiciais e criando condições para o retorno do bolsonarismo ao poder.

A relação da família Bolsonaro com Trump sempre foi marcada por forte convergência ideológica e por uma busca permanente de apoio político internacional. Nos últimos anos, essa aproximação passou a ser utilizada como instrumento de mobilização política interna e de contestação às decisões das instituições brasileiras.
Um exemplo recente ocorreu nesta semana, durante audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos para discutir a possibilidade de imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro participaram da sessão, sendo que este último utilizou os cinco minutos a que tinha direito para fazer um pronunciamento de caráter predominantemente político.
Quando se esperava uma exposição centrada em argumentos técnicos sobre os impactos econômicos das tarifas, o discurso acabou priorizando críticas ao governo brasileiro e questões de política interna. A postura provocou críticas de representantes do setor privado e gerou constrangimento entre os organizadores da audiência, que precisaram advertir os participantes pelo uso de aparelhos celulares para filmagens, prática vedada pelas regras do evento.

Chamou atenção, ainda, a declaração de Flávio Bolsonaro de que, caso o chamado “tarifaço” fosse inevitável, seria preferível que sua implementação ocorresse apenas após as eleições, sob o argumento de que a medida poderia beneficiar politicamente o governo Lula. A afirmação foi interpretada por diversos observadores como o reconhecimento explícito de que a elevação das tarifas teria efeitos negativos sobre a economia brasileira, mas que seu adiamento seria desejável por razões estritamente eleitorais.
Esse episódio ilustra uma estratégia recorrente do bolsonarismo: utilizar espaços institucionais internacionais como palanque para a disputa política doméstica. Ao fazê-lo, reaviva uma concepção de política externa que subordina os interesses nacionais às conveniências de um alinhamento ideológico com Washington, atualizando, em pleno século XXI, o velho lema de Juracy Magalhães.

“As nações se fortalecem quando defendem seus próprios interesses sem abrir mão do diálogo com o mundo.”
Curadoria – Gorette Wanderley




