Não mudei nem São João: A cidade é que trasnformou a festa

 

Por:João Vicente Machado Sobrinho

A nossa pretensão neste escrito, é apreciar as transformações socioculturais do São João no Nordeste brasileiro, destacando a transição de uma celebração rural bucólica e comunitária, para um evento urbano hoje espetacularizado, pasteurizado e que vem sendo gradualmente institucionalizado.

Argumentam-se que não há o desaparecimento da tradição, mas uma reconfiguração do espaço social que a sustenta. A nossa apreciação articula referências das raízes da cultura popular nordestina, especialmente a obra musical de: Humberto Teixeira, Zé Dantas, Zé Marcolino, João Silva, Rosil Cavalcanti, e Luiz Gonzaga, como balizadores pioneiros da tradição, além de mediadores simbólicos da memória cultural do Nordeste.

O São João constitui uma das mais expressivas manifestações culturais do Nordeste brasileiro, estruturando-se historicamente a partir da interseção entre o calendário agrícola, as práticas religiosas populares, juntamente com as formas comunitárias de sociabilidade. Trata-se de uma festa que transcende o campo do entretenimento, operando como dispositivo folclórico de memória coletiva, de identidade tipicamente regional e organização simbólica do tempo social.

Ao longo do século XX, especialmente com a intensificação dos processos de urbanização e migração campo–cidade, o São João sofreu um deslocamento progressivo do seu habitat originário para os centros urbanos, também tangido pelo êxodo rural. Tal deslocamento não implica apenas em uma mudança estética ou organizacional, ele ocasionou uma profunda reconfiguração de suas bases sociais.

É nesse contexto que se consolida a chave interpretativa deste ensaio: “Não mudei nem São João: a cidade é que transformou a festa.” A formulação sintetiza uma leitura crítica, na qual a permanência da tradição contrasta com a transformação estrutural do espaço social urbano.

Como já dissemos, o São João tradicional é um festejo intrinsecamente associado ao ciclo agrário, especialmente à colheita do milho, elemento central da economia alimentar e simbólica nordestina. Nesse contexto, a festa organiza-se como prática comunitária, na qual os limites entre espaço privado e público são difusos

A rua, o terreiro e o quintal constituem extensões naturais da convivência social. A música, particularmente a música popular nordestina inclui o forró em suas formas mais tradicionais, estrutura a sociabilidade e reforça os vínculos comunitários. Autores como Câmara Cascudo destacam o caráter sincrético e popular das festas juninas, resultantes da adaptação de elementos europeus ao contexto cultural brasileiro (CASCUDO, 1972).

Em que pesem todas as transformações estruturais ocorridas, os elementos fundamentais da festa que são o suporte histórico, permanecem, à duras penas, como marcadores de identidade cultural. A sanfona, o triângulo o zabumba o forró bem marcado de nome pé de serra, a fogueira e os alimentos derivados do milho operam como dispositivos de continuidade simbólica.

A obra musical da comissão de frente da festa, composta por: Humberto Teixeira, Zé Dantas, Zé Marcolino, Marinês e o Trio Nordestino, fez escola. Esses pioneiros geraram uma progênie numerosa e fecunda, que tem  desempenhado um papel central na sustentação de uma narrativa nacional do Nordeste, articulando tradição local e circulação midiática. Conforme aponta Tinhorão), (1998) a música popular brasileira, nela incluída a música nordestina, funciona como espaço de mediação entre cultura popular e indústria cultural.

A contemporaneidade do São João é marcada por uma tensão estrutural entre tradição e espetacularização. De um lado, persistem formas comunitárias de celebração; do outro, consolidam-se grandes eventos urbanos mediados pela mídia, por patrocínios e por políticas públicas. Alguns instrumentos elétricos e de sopro foram introduzidos, como o baixo elétrico, substituto da tuba de sopro, que tão bem marcou as Noites Brasileiras. A flauta transversal tocada por Altamiro Carrilho que acompanhava a sanfona de Lindú do inigualável Trio Nordestino. Essa dualidade não pode ser reduzida à oposição entre autenticidade e artificialização, mas deve ser compreendida como um campo de disputa simbólica no qual diferentes regimes de produção cultural coexistem.

O que nos assusta a nós todos, são manifestaçoes como as quadrilhas juninas, que retratavam a simplicidade e autenticidade de nossa festa, têm evoluído de forma autofágica. É senso comum que, a reconfiguração do formato da festa tem evoluído de modo geral, para uma glamourização contrastante com a realidade financeira da região. As quadrilhas juninas já citadas, no nosso entendimento, exibem fantasias, alegorias e adereços de elevadíssimo custo, incompatíveis com a originalidade da festa e a capacidade financeira dos participantes.

A evolução das quadrilhas contemporâneas, lembra muito mais um desfile luxuoso de escolas de sambas, onde existem especialistas contratados para cuidar das fantasias, igualmente ao trabalho realizado pelos chamados carnavalescos. Os nordestinos originários como nós, estamos a repetir Paulinho da Viola, numa paródia em forma de lamento que diria assim:

“Ta legal, eu aceito o argumento.
Mas não me altere a ´festa` tanto assim!”

A trilha sonora da celebração, que no “baião enredo” cadenciado, sempre fez apologia às coisas, as comidas e à vida dos sertões, ou estão em desuso ou foram repaginados em um único ritmo. Enredos musicais históricos que faziam alusão: à estrada comprida e longa da légua tirana; ao cantar do assum preto; ao bater de asas da asa branca indo e voltando; às noites brasileiras e as fogueiras; à sala de reboco; aos padrinhos e madrinhas da fogueira; ao São João do carneirinho, entre outras melodias bucólicas e harmoniosas que nos remete aos sertões, ou feneceram ou estão repaginadas em ritmo acelerado e frenético.
Uma melodia única, foi elaborada por expoentes ou apologistas da música caipira do centro oeste, que a cada ano é colada a inúmeras letras de duplo sentido, ou mesmo de sentido explicito. É um verdadeiro pornoforró que o mestre Sivuca Chamava de forró de plástico, por serem decertáveis a cada ano.
Destarte, as transformações do São João no Nordeste brasileiro evidenciam não a dissolução da tradição, mas sua reconfiguração em novos contextos sociais, dando-lhe uma feição totalmente voltado para o consumo e não para a lembrança. A festa se desloca do mundo rural para a urbe, ditando um rito comunitário para o evento já institucionalizado, corroendo ano após ano os seus elementos estruturantes.

Apesar de tudo a permanência da fogueira, do milho, da música e das formas de sociabilidade festivas, revelam a força das raízes culturais que ainda sustentam o São João como expressão identitária do Nordeste.
Preservar essas raízes não significa recusar a modernidade, mas reconhecer que a vitalidade da cultura popular depende de sua capacidade de adaptação sem ruptura total com seu passado. O São João permanece, assim, como forma viva de memória coletiva.

A tese que orienta este ensaio se confirma: não houve abandono da tradição, mas uma radical transformação do espaço social que a abriga — a cidade é que reconfigurou a festa;

 

 

 

 

Referências:
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. São Paulo: Cortez, 1999.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1972.
DREYFUS, Dominique. Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Editora 34, 1996.
ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. São Paulo: Brasiliense, 2006.
TINHORÃO, José Ramos. Música Popular: um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 1998.
Fotografias:
O São João tradicional nordestino: fogueira, quadrilha, forró pé-de-serra e culinária típica como expressões da identidade cultural comunitária.
Fonte: Elaboração própria com auxílio de Inteligência Artificial (OpenAI/ChatGPT), 2026;
Evolução da Quadrilha Junina: da tradição comunitária ao espetáculo cênico contemporâneo.
Descrição: Representação ilustrativa, em três tempos, da evolução histórica das quadrilhas juninas, evidenciando as transformações na coreografia, na indumentária e na cenografia, desde a quadrilha tradicional dos arraiais até as atuais apresentações competitivas em grandes festivais.
Fonte: Elaboração própria, com auxílio de Inteligência Artificial (OpenAI/ChatGPT), a partir da concepção, direção temática e roteiro visual de João Vicente Machado Sobrinho, 2026;

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