A borboleta e os poetas

Por: José Nunes

Ora, direi, olhar borboletas!
O cronista tira um tempo para olhar borboletas. Na manhã com sol morno depois das chuvas durante a noite, o cronista saiu a andar pelo pátio da repartição onde trabalha e encontrou uma borboleta. Uma solitária borboleta que descansava em folhas da pequena árvore.

A borboleta batia as asas como que a cumprimentar o cronista silencioso. Executava voleios em volta da planta sem se incomodar com o cronista. Ninguém estava perto. Somente ela com suas acrobacias e o cronista atrás de assunto.

Nem todos os dias se recebe semelhante agrados andando pela natureza.
Era uma manhã que se despedia da chuva. Das plantas e das árvores caiam pingos adormecidos, e o cronista olhava os pingos d’água e a borboleta solitária pensando em escrever uma crônica.

Observando a borboletinha, lembrou que distante uma amiga contou que a caminho do mar observava borboletas nas flores e nas plantas, rodopiando na vegetação.

As borboletas apreciadora do mar bailavam num frenesi interminável, gostoso de se olhar.
– Só você vendo…
– Imagino que tenha sido bonito.
Contemplo na minha imaginação as borboletas que a amiga descreve, enquanto que perto de mim a borboleta multicolorida esvoaça entre folhas, as asas soltas ao vento. Trocaria observar muitas estrelas cadentes para estar com a moça a contemplar borboletas e o mar.

Em certos momentos esquecemos ou trocamos todos os fenômenos cósmicos para observar borboletas.
Abro mão do crepúsculo ateando fogo sobre as nuvens se necessário para olhar o bailado das borboletas.

 

Comentei com a amiga que, onde me encontrava, apesar das plantas e árvores naquele momento tinha somente uma borboleta, mas, logo, logo, outras apareceriam porque o período de chuvas possibilitava a reprodução com maior frequência.

Lembrei do filme “Sonhos” Akira Kurosawa, um bonito filme em que as borboletas se destacam, em cenas de beleza rara, misturada à vegetação de muitas cores.

Como não lembrar das Quatro Estações de Vivaldi, que nos envolve em sonhos. Quando retorno ao lugar onde nasci, as borboletas que infestavam a beira das estradas e os caminhos, trotando ao nosso lado, me chamavam a atenção porque semelhantes ao tempo de criança em Serraria.

 

Na minha casa o jardim é pequeno, onde existe umas roseiras e plantas cuidadas com esmero pela mulher, por isso recebemos a visita de borboletas e beija-flor, as quais nós a consideramos como nossas, objeto de estimação, mesmo por pouco tempo.

Noites existem em que borboletas ajudam reviver aprendizados do tempo passado, quando lembramos delas.
Mas voltando à borboleta solitária que encontrei naquela manhã de sol morno, eu estava com vontade de ficar sozinho com ela. É bom estar sozinho para sentir o vento balançando as árvores. Dia estava diferente com a presença da borboleta.

Da poetisa Florbela Espanca lembro o poema “Crepúsculo”:
“Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoados,
Pousam nos meus, suaves e cansados
Como em dois lírios roxos e dolentes…”

Estes versos fazem observar os gracejos e lembrar das borboletas que causam contentamento vendo como se portam. Algumas vezes sou cronista sem noção do tempo, principalmente quando me acho conversando com borboletas.

Novamente o cronista recorre aos poetas para falar de borboletas.
Manoel de Barros, as vezes convivendo na natureza, o poeta que conversava com os passarinhos e borboletas, tinha uma visão diferente dos homens e das coisas. “Eu imaginava que o mundo visto por uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas”, escreveu.

Com as borboletas me tornei um apanhador de desperdícios no silêncio do cosmos. Penso em Manoel de Barros, Florbela Espanca e Rubens Braga que se encantou com uma borboleta amarela andando pelas ruas do Rio de Janeiro.
Quando as borboletas falam com as flores, estão falando de poesia, ensinou poeta mato-grossense.

 

“Quando a poesia encontra quem ainda sabe contemplar, até uma borboleta passa a carregar o peso delicado do infinito.”
Curadoria – Gorette Wanderley

 

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