
Por: João Vicente Machado Sobrinho
O Rio São Francisco é um curso de água de grande porte, com toda sua trajetória inserida no território nacional. Conhecido de forma carinhosa pelos ribeirinhos como Velho Chico, o São Francisco constitui um dos mais importantes patrimônios naturais do Brasil. Nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais e percorre cerca de 2.700 quilômetros até sua foz, localizada entre os estados de Alagoas e Sergipe. No seu caminho para o mar, o Rio atravessa diferentes biomas conectando regiões e, sustentando uma das mais extensas bacias hidrográficas da América do Sul. Ao longo de sua trajetória, alimenta cidades, irriga lavouras, oferece o pescado, movimenta atividades econômicas, gera energia elétrica e preserva tradições culturais que fazem parte da identidade brasileira.
Entretanto, o rio que na sua benevolência secular simbolizou abundância e integração nacional tem recebido em troca um continuado e crescente processo de degradação ambiental. A redução das vazões afluentes, a destruição das matas ciliares, a poluição, o assoreamento, o avanço do desmatamento sobre as áreas de recarga hídrica e os efeitos das mudanças climáticas. Esses maus tratos colocam sob ameaça a sua capacidade de continuar exercendo suas funções ecológicas e sociais.

Mais do que um problema ambiental, a crise do Rio São Francisco representa um desafio estratégico para o desenvolvimento nacional, notadamente para o semiárido nordestino. Diante disso, preservar as suas águas significa garantir, tanto a segurança hídrica de grande parte da região, quanto a segurança alimentar para milhões de brasileiros nordestinos, especialmente aquelas populações residentes em microrregiões de chuvas mais escassas.
No entanto, as muitas décadas de exploração desordenada e de degradação ambiental vêm reduzindo a sua vazão e comprometendo a sua capacidade natural de regeneração A preservação do Velho Chico exige do poder público e de toda população, ações articuladas de curto, médio e longo prazo, envolvendo governos, universidades, setor produtivo e sociedade civil. Cuidar do São Francisco significa proteger uma das mais importantes fontes de vida e desenvolvimento do país.

A primeira grande agressão sofrida pelo Rio é decorrente do processo de mineração no chamado quadrilátero ferrífico. Essa, por si só, é uma atividade de grande impacto ambiental, notadamente quando é feita sem um plano de manejo adequado, e sem obedecer às normas nem aos protocolos ambientais que são recorrentemente transgredidos. Como exemplos citamos casos catastróficos como:
. Barragem do Fundão: situada no município de Mariana-Mg, é propriedade da multinacional Samarco/Vale(privatizada)/BHP. O desastre ocorreu em 5 de novembro de 2015 e despejou no Rio 45 milhões de rejeitos de minérios de ferro. A lama, além de vidas humanas, destruiu o distrito de Bento Rodrigues e contaminou a bacia do Rio Doce até o litoral do Espirito Santo.

. Barragem (Córrego do Feijão): situada no município de Brumadinho, a Barragem pertencente à Vale (privatizada)/Samarco), rompeu no dia 25 de janeiro de 2019. Despejou 12 milhões de toneladas de rejeitos no Rio Parauapebas, um afluente do Rio São Francisco que deságua diretamente na Barragem de Três Maria, a primeira das grandes barragens do velho Chico. A ruptura da barragem vitimou momentaneamente 272 vidas humanas e contaminou a bacia inclusive com metais pesados.
A segunda grande agressão relevante e continuada é o desmatamento do cerrado mineiro, onde a lenha é utilizada para a fabricação de carvão vegetal destinado tanto a subsistência dos ribeirinhos, quanto aos altos fornos das siderúrgicas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, matando as nascentes, a biota e os cursos d’água tributários do grande rio.
A terceira grande agressão se dá, através da prática da monocultura agrícola, é predominante em diversas áreas da região onde a maior concentração está no cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Baia, numa extensa área conhecida pela sigla de MATOPIBA, onde há um processo de ocupação sem o necessário e devido planejamento. As culturas predominantes são: a soja, o milho, o algodão e o arroz. Adicionem-se a isso a criação extensiva de gado bovino estimado em 28 milhões de cabeças.

Além de toda generosa entrega feita pelo dadivoso Rio São Francisco, por ser ele a fonte d’água mais próxima, foi a opção encontrada para garantir a segurança hídrica aos estados do nordeste setentrional: Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, tema já abordado em artigo pretérito nosso aqui no Site JVM.
A curto prazo devem ser adotados medidas cirúrgicas para a redução dos impactos ambientais mais graves. O combate ao lançamento de esgotos sem tratamento e de resíduos industriais, deve ser intensificado assim como a fiscalização ostensiva contra o desmatamento das matas ciliares e contra a mineração ilegal.
Outra ação prioritária consiste na recuperação das nascentes degradadas e na proteção das áreas de preservação permanente ao longo das margens do rio e de seus afluentes. A remoção de resíduos sólidos, além de campanhas educativas e monitoramento permanente da qualidade da água.
Além disso, o uso racional da água na irrigação e na atividade industrial pode reduzir significativamente o desperdício, preservando as vazões necessárias para a manutenção dos ecossistemas aquáticos.
A médio Prazo deveremos levar em conta que em um horizonte de alguns anos, torna-se indispensável ampliar os investimentos em saneamento básico nas cidades da bacia hidrográfica, reduzindo a carga de poluentes lançados diariamente no rio. A recuperação de áreas degradadas por meio do reflorestamento das matas ciliares deve ser ampliada, favorecendo a infiltração de água no solo, reduzindo a erosão e combatendo o assoreamento.
Também é recomendável fortalecer os Comitês de Bacias Hidrográficas, promovendo uma gestão integrada dos recursos hídricos e estimulando a participação das comunidades locais, agricultores, pescadores e as instituições científicas.
Programas permanentes de educação ambiental são indispensáveis e podem criar uma nova cultura de respeito aos recursos naturais, envolvendo especialmente as novas gerações.
No longo prazo temos que entender que a preservação definitiva do Rio São Francisco depende de políticas públicas permanentes e de planejamento estratégico para todo o território da bacia. Portanto será fundamental ampliar a proteção dos biomas que alimentam o rio, especialmente o Cerrado e a Caatinga, cuja vegetação desempenha papel essencial na recarga dos aquíferos e na regulação do ciclo hidrológico.

As mudanças climáticas representam outro desafio crescente. Investimentos em pesquisa científica, monitoramento hidrológico e adaptação dos sistemas produtivos deverão integrar uma estratégia nacional de segurança hídrica.
Ao mesmo tempo, torna-se necessário conciliar o nosso desenvolvimento econômico com a sustentabilidade, garantindo que a agricultura, indústria, a mineração, a geração de energia e o abastecimento urbano utilizem os recursos hídricos dentro de limites compatíveis com sua capacidade de renovação.

Por fim devemos lembrar que o Rio São Francisco simboliza muito mais que um curso d’água: ele representa história, cultura, biodiversidade e esperança para milhões de brasileiros. Sua degradação compromete não apenas o equilíbrio ambiental, mas também a segurança alimentar, energética e social de vastas regiões do país.
Os cuidados de curto prazo podem interromper processos acelerados de degradação; as ações de médio prazo podem restaurar parte de sua capacidade ecológica; e as políticas de longo prazo poderão assegurar que as futuras gerações encontrem um rio vivo, produtivo e capaz de continuar integrando o Brasil.
Preservar o Velho Chico não é apenas uma responsabilidade ambiental, mas um compromisso ético com o futuro da nação.

“Os rios não carregam apenas água. Carregam povos, culturas e a esperança silenciosa de quem depende deles para continuar.”
Referências bibliográficas:
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Fotografias:
Rio São Francisco: da nasc ente à foz (imagem gerada por inteligência artificial). ChatGPT, 2026;
Rompimento da Barragem do Fundão, Mariana (MG) (ilustração gerada por inteligência artificial). ChatGPT, 2026;
MATOPIBA: a vastidão e a expansão da monocultura (imagem gerada por inteligência artificial). ChatGPT, 2026;
Programa de Integração da Bacia do Rio São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional – Eixos Norte e Leste (imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial). ChatGPT, 2026;




