A festa do coração

Por: Gorette Wanderley

Peço licença ao autor do artigo que estaria publicado neste espaço hoje. Excepcionalmente, a reflexão habitual dá lugar a uma celebração muito especial.

Faço isso para compartilhar com os leitores do JVM uma alegria que pertence à nossa família, aos nossos amigos e a todos aqueles que, de alguma forma, acompanharam ou acompanham a trajetória de João Vicente Machado Sobrinho.

Hoje dia 21 de junho, João completa 80 anos de vida.

E existem datas que ultrapassam os limites do calendário. Datas que se transformam em encontros entre a memória, a gratidão e o amor. Hoje é uma delas.

Não viveremos uma festa de grandes salões nem brindes em taças.

A comemoração é ainda maior.

É a festa do coração.

Falar sobre João é prazeroso e, ao mesmo tempo, desafiador. Como resumir em poucas linhas uma vida construída com tanto trabalho, coerência, dignidade e compromisso com aquilo em que acredita?

Como editora deste espaço, poderia falar do articulista que diariamente compartilha reflexões sobre economia, política, geopolítica e questões sociais. Poderia falar do estudioso incansável que, aos 80 anos, continua lendo, pesquisando, escrevendo e acreditando na força das ideias.

Poderia falar também de sua trajetória profissional.

Durante 44 anos, João construiu com sua história no serviço público tendo a CAGEPA como sua casa profissional. Ao longo dessa caminhada, sua competência fez com que fosse convocado a colaborar com outros órgãos e instituições públicas, levando sua experiência e seu compromisso para diferentes desafios.

Mas, mesmo quando esteve a serviço de outras missões, nunca deixou de pertencer à família cagepiana.

Retornou à sua origem e nela concluiu sua vida pública, cercado pelo respeito dos colegas, pela confiança das chefias e pelo reconhecimento daqueles que acompanharam sua caminhada.

A família cagepiana sabe que João nunca enxergou o serviço público apenas como profissão. Para ele, sempre foi uma responsabilidade e uma forma de contribuir para a construção do bem comum.

Sua trajetória profissional é motivo de orgulho.

Mas hoje desejo falar principalmente do homem.

Do ser humano íntegro que atravessou oito décadas sem permitir que as tentações da vida o afastassem de seus princípios.

Costumo dizer a João que uma das maiores conquistas de sua vida não está nos cargos que ocupou, nos projetos que realizou ou no reconhecimento que conquistou.

Sua maior conquista foi ter preservado a própria consciência.

Vivemos em tempos em que muitos se perdem pelo caminho, seduzidos pelo poder, pela vaidade ou pelos atalhos que parecem facilitar a vida.

João escolheu outro caminho.

Escolheu permanecer fiel a si mesmo.

Por isso, digo sempre a ele que deve sentir orgulho da história que construiu. Uma história de mãos limpas, de trabalho honesto, de respeito às pessoas e de compromisso com aquilo que acreditava ser correto.

E quando chegar, um dia, o momento inevitável da despedida que alcança todos nós, tenho certeza de que seguirá levando consigo algo que não se compra nem se herda: a tranquilidade de quem procurou viver com dignidade e honrar aquilo em que acreditava.

Mas felizmente este não é um texto sobre despedidas.

É um texto sobre vida.

E João continua extraordinariamente vivo.

Vivo em suas ideias.

Vivo em seus projetos.

Vivo em sua capacidade de indignar-se diante das injustiças.

Vivo em sua esperança de que a humanidade ainda possa construir um mundo melhor.

João também é um daqueles raros seres humanos cuja curiosidade parece não conhecer fronteiras.

Embora seja engenheiro por formação, nunca se limitou aos números, às fórmulas ou aos cálculos. Ao longo da vida, construiu conhecimentos que transitam pela história, pela economia, pela política, pela geopolítica, pela filosofia e pelas questões sociais.

Quem convive com ele sabe que uma simples conversa pode começar em engenharia, passar pela Revolução Mexicana, percorrer os grandes temas da política internacional e terminar em literatura nordestina.

Talvez por isso goste de repetir uma frase que o define com perfeição:

“Sou engenheiro de formação e matuto por opção.”

E há, nessa definição bem-humorada, muito da sua essência.

Porque João nunca perdeu o orgulho de suas raízes, nem permitiu que o conhecimento o afastasse da simplicidade.

Suas convicções políticas, construídas ao longo de décadas de estudo e reflexão, sempre estiveram associadas à defesa da justiça social, da soberania dos povos e da dignidade humana.

Concordem ou não com suas ideias, até seus adversários reconhecem uma característica que jamais abandonou: a coerência.

Talvez por isso admire tanto uma frase atribuída ao líder revolucionário mexicano Emiliano Zapata:

“Prefiro morrer em pé a viver ajoelhado.”

Mais do que uma citação, essa frase parece traduzir sua maneira de atravessar a vida: com independência de pensamento, firmeza de caráter e fidelidade às próprias convicções.

Mesmo aos 80 anos, continua acreditando que a igualdade entre os povos não é uma utopia, mas um direito.

Continua acreditando que a dignidade humana deve estar acima dos interesses econômicos, ideológicos ou políticos.

Continua acreditando que o conhecimento pode transformar consciências e o mundo inteiro.

E é exatamente por isso que este espaço existe.

O JVM não é apenas um blog.

É uma extensão de sua própria caminhada.

É o lugar onde ele continua exercendo aquilo que sempre considerou uma missão: provocar reflexões, estimular o pensamento crítico e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.

Talvez alguns considerem essa esperança excessiva.

Eu a considero admirável.

Porque são pessoas assim que impedem o mundo de perder completamente a capacidade de sonhar.

Mas esta também é uma história de amor.

João sempre foi conhecido pelo carisma, pela elegância e pela facilidade de conquistar amizades. E quis o destino que nossos caminhos se cruzassem.

Primeiro nasceu a admiração.

Depois veio uma bela amizade.

Tentamos, em alguns momentos, ser apenas sensatos diante das circunstâncias que a vida nos apresentava.

Mas existem sentimentos que não aceitam permanecer confinados à razão.

E foi assim que fomos descobrindo, pouco a pouco, que aquilo que nos unia era maior do que qualquer receio, maior do que qualquer julgamento e maior do que qualquer expectativa alheia.

Quando colocamos na balança a admiração, o respeito, a cumplicidade, a paixão, o cuidado, o aconchego e a alegria de estarmos juntos, percebemos que o amor já havia decidido por nós.

E seguimos.

Ao longo dos anos enfrentamos desafios, dificuldades e momentos delicados, como acontece com todas as famílias.

Mas hoje compreendo que cada obstáculo apenas fortaleceu aquilo que nos uniu.

As dificuldades não diminuíram o amor.

Fizeram-no crescer.

Aprendemos que o amor verdadeiro não vive apenas dos dias fáceis. Ele se fortalece justamente quando a vida exige coragem, paciência, compreensão e companheirismo.

Construímos uma família que reúne filhos, netos, histórias, afetos e também o nosso querido Fufu, o gatinho que se tornou o grande xodó da casa e responsável por boa parte das nossas risadas diárias.

Existe entre nós uma certeza silenciosa: a de que algumas pessoas entram em nossa vida para sempre. Não porque o tempo as preserve, mas porque deixam marcas tão profundas que passam a fazer parte daquilo que somos.

Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, ainda me emocione ao olhar para João.

Porque vejo nele não apenas o homem que construiu uma trajetória respeitável.

Vejo o companheiro que escolhi amar.

O amigo que permanece ao meu lado.

O homem que continua me inspirando.

E a pessoa que, todos os dias, me recorda que vale a pena acreditar nos bons sentimentos.

Hoje, ao celebrar os 80 anos de João Vicente Machado Sobrinho, celebramos muito mais do que uma data.

Celebramos uma vida honrada.

Uma trajetória construída com trabalho, ética e coerência.

Celebramos um homem que nunca desistiu de acreditar nas pessoas.

Celebramos um pai, um avô, um amigo, um companheiro.

Celebramos alguém que continua nos ensinando, todos os dias, que é possível envelhecer sem abandonar os sonhos, sem abrir mão dos princípios e sem perder a capacidade de amar.

Parabéns, João.

Que a vida continue lhe presenteando com saúde, serenidade, inspiração e muitos motivos para sorrir.

E que nós continuemos celebrando juntos aquilo que sempre foi a nossa maior riqueza:

o amor.

Com amor, admiração e gratidão,

Gorette Wanderley

 

 

 

 

 

Fotografias do acervo pessoal de João Vicente Machado Sobrinho e Maria Gorette de Carvalho Wanderley

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