A mulher que se tornou papel

Por: Neves Couras

Cotidianamente, vemos na mídia casos de feminicídio, aquele homicídio praticado contra mulheres por elas serem mulheres. Não por brigas de trânsito, acerto de contas ou tráfico de drogas, mas apenas por serem mulheres.

Falar do que vem acontecendo com as mulheres, principalmente neste país, ainda que seja um assunto repetitivo, faz-se necessário. Precisamos falar sobre isso diuturnamente. As estatísticas aumentam a cada dia, seja nas capitais, seja em qualquer cidade de pequeno porte, em qualquer estado.

Não existe um divisor entre classes sociais ou cor. A mulher “precisa” morrer, e pronto. Pergunto-me: por que tanto ódio, se um dia foi amor? Fiquei esta semana pensando nessa questão, quando me veio a ideia de um possível narcisismo, ou de algum outro transtorno de personalidade. Será que esses homens, que se acham donos dessas mulheres, as agridem ao identificarem o menor sinal de que elas não os estão satisfazendo em alguma coisa, seja como mulheres ou simplesmente por existirem ao lado deles?

Minha questão é: sabemos que os sentimentos podem se desgastar, mas chegar ao ponto de, por conta desse desgaste, matar? Onde ficou o amor? Esses homens só podem estar se tornando, ou já ser, psicopatas.
Será que esses homens, quando deixados por suas mulheres, por acharem que elas perderam o sentimento que antes existia, não suportam a realidade e perdem a razão?

Mas aí eu percebi que estava fazendo as perguntas erradas, buscando o significado das palavras em um livro de álgebra. Não é sobre sentimentos, amor, ódio, paixão, dor, desprezo. É sobre posse. Mulheres morrem às dezenas diariamente por serem mulheres, porque os homens as matam, e o fazem por não as verem como pessoas, mas como propriedades.

Não é sobre o fim do casamento; é sobre outro homem brincar com o que é seu. Não é sobre ela sair para a universidade ou para o trabalho; é sobre ninguém poder ter acesso ao que é seu. Não é sobre ela querer ser independente; é sobre o brinquedo querer ir embora. E falo em “brinquedo” porque os homens nos tratam como crianças tratam seus brinquedos: uma hora apaixonados e felizes, em outras entediados e, por fim, tirânicos e destrutivos.

Também me pego pensando que as mulheres precisam tomar consciência de que não são propriedade de ninguém e, mesmo com todo sofrimento, precisam sair desse ambiente doentio antes que acabem indo parar na triste estatística de feminicídio deste país.

Mas não é assim tão simples.
Somos nós que sempre abrimos mão de nossas carreiras pelo cuidado dos filhos, dos pais, de quem quer que seja, e assim abrimos mão da nossa independência. Por vermos que, sem o dinheiro do agressor, nossos filhos passariam fome; por não sermos capacitadas, porque nunca nos foi permitido estudar; por estarmos há muito tempo fora do mercado de trabalho; ou por termos um líder religioso nos dizendo que o casamento é indissolúvel e que o papel da mulher é manter o lar unido, ainda que à custa da nossa felicidade, quando não da nossa vida.

Hoje é o dia dedicado a Santo Antônio, conhecido como o santo casamenteiro. Que ele possa ser nosso defensor nesse limiar entre amor, desamor e morte. Mas Santo Antônio já foi até tenente-coronel do Exército Brasileiro, então que ele nos proteja e dê forças em nossas lutas. Procuremos nos curar. Não somos de papel. Somos fortes e sobreviveremos.

 

“Quando uma mulher recupera a própria voz, nenhuma história termina. Uma nova história começa.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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