
Por: Mirtzi Lima Ribeiro
Decerto que vivemos em tempos líquidos, quando uns são apáticos e até insensíveis, e outros, se empenham em atrapalhar, sabotar, denegrir reputações e desqualificar carreiras valorosas.
Somado a esse quadro dantesco, que reflete a mesquinharia humana e alta toxidade emocional, nos deparamos com perdas pelo óbito ou o acometimento de doenças que requerem dedicação, tempo e recursos. Podemos ainda, estar passando por danos materiais pessoais, na família ou com amigos mais achegados, além da hipótese de abalos em diversos setores da vida.
Quaisquer dessas situações podem deixar uma pessoa vulnerável, insegura, com a sensação de impotência diante dos fatos. E essa fragilidade momentânea pode trazer uma quebra na fortaleza interior, na imunidade, gerando abalos na capacidade de manter a energia vital saudável e íntegra.

Quem passa por qualquer impasse desse tipo, apesar do cenário desfavorável, precisa confiar novamente nos processos da vida, na cadência e no fluxo que cada questão precisa seguir, naquilo que merecemos obter e desfrutar, assim como também na realização de nossos anseios mais diletos. A isso muitos chamam de fé.
Aprendi a duras penas, a esperar pelo momento certo e isso é sabedoria adquirida, é experiência que nos calejou, é exercício que ensina a manter um certo equilíbrio entre erros e acertos ao longo da vida. Além disso, é preponderante discernir que pessoas manter em um círculo mais estreito, com as quais se possa efetuar trocas construtivas, somar forças e energias saudáveis e convergentes. Ter isso também é fundamental.

Na juventude geralmente desejamos tudo para ontem, para imediatamente, para já. Entretanto, a maioria das vezes é imperioso aguardar o desenrolar de fases, de requisitos a obter, de prazos e etapas a vencer.
Não podemos atropelar esse fluxo, sob pena de perder tudo por completo ou trazer maior desconforto, embaraço, prejuízo e ansiedade na resolução dessas demandas.
Aprendi muita coisa ao me exercitar diariamente por alguns minutos nas partidas de Mahjong (ou majiang), um jogo de mesa tradicional chinês, atualmente adaptado para celulares em diversos graus de dificuldade, jogo esse que mistura habilidade, estratégia, cálculo e um pouco de sorte.

É sábio empregar tal aprendizado na vida, no sentido de desenvolver uma observação acurada e direcionada, focar no uso do raciocínio lógico, se nutrir de confiança nos processos durante a sequência de eventos, além da necessária paciência para compreender cada etapa e tempo, enquanto observa, planeja e percebe quando agir ou quando esperar.
Confiar em si mesmo, nos nossos processos e no tempo mais adequado, não é arrogância, é a humildade circunscrita ao conceito budista: a exata medida de nossas capacidades, nem subestimadas e nem superestimadas. É uma noção justa e isenta de nosso valor pessoal, de nossos talentos e capacidades. É uma validação pessoal de si mesmo sem esnobismo e com critérios, ausentes de emoções tendenciosas em nosso favor ou desfavor.

Essa maestria precisa ser alcançada de modo a que os encaminhamentos de nossa vida pessoal, afetiva, social, profissional e coletiva, sejam venturosos, tranquilos, sensatos, agradáveis e agregadores.
Agir assim é empreender os doze trabalhos de Hércules, e entre erros e acertos, chegar ao último portal um ser humano que venceu a si mesmo. É desenvolver a capacidade de se mover com destreza frente ao inusitado, de ultrapassar obstáculos internos e externos, até o ponto em que estará bem firmado como um ser humano pleno, e portanto, digno de subir ao Olimpo como filho de Zeus.

“A serenidade nasce quando deixamos de disputar corrida com as estações.”
Curadoria – Gorette Wanderley




