
Por: João Vicente Machado Sobrinho
A história do século XX permanece atravessada por disputas de memória, nas quais personagens e processos são constantemente reinterpretados à luz de interesses políticos e ideológicos. A figura do líder soviético Josef Stalin ocupa um lugar central nesse embate: para uns, um símbolo máximo da tirania; para outros o protagonista de um dos mais decisivos processos de transformação social e militar da história moderna.
Após a 2ª guerra mundial, o mundo ingressou na chamada guerra fria, quando o bloco liderado pelos Estados Unidos da América do Norte, investiu pesadamente em uma intensa propaganda anticomunista. Diante da necessidade de um símbolo que representasse o “totalitarismo soviético”, nada mais adequado do que a imagem de Josef Stalin.
Foi aí que a figura de Stalin foi transformada em um símbolo multifacetado: para uns o tirano responsável por milhares de mortes, para outros o grande líder que industrializou rapidamente a Rússia e derrotou o nazismo.
É importante ressaltar que, as críticas dirigidas a Stalin não vieram somente de fora da Rússia. Com a sua morte Nikita Khruschev se apressou em denunciar um rosário de crimes a ele atribuídos, de forma descontextualizada, o que prova que a crítica emergiu dentro do próprio campo socialista.

A denúncias pós mortis promovida por Nikita Khruschev, no contexto da chamada desestalinização, consolidou uma narrativa que enfatiza a repressão e o culto à personalidade. Contudo, essa leitura levanta uma questão essencial: trata-se de uma revelação plena de verdade histórica ou é uma verdade recortada, orientada por interesses específicos? Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a denúncia de Khruschev, buscando interpretar a sua motivação, a sua construção narrativa, buscando compreender os limites, as omissões e as intencionalidades presentes em todo esse processo. Então a pergunta mais pertinente que poderá surgir é: houve a demonização de Stalin? A resposta mais honesta e sincera é sim, mas não somente isso:
Houve crimes e políticas duras reais-base concreta das críticas;
Houve uso político dessas críticas-amplificação e simplificação;
Houve disputa ideológica global-moldou a memória histórica;

A despeito de tudo isso, é pertinente lembrar sempre que revoluções não são processos suaves e que o uso da violência não é exclusivo de um regime ou de uma ideologia. A diferença está em como essa violência é exercida, é organizada, é justificada e sobretudo como ela é lembrada.
O sentimento de liberdade na acepção da palavra, é uma aspiração humana milenar. Se recorrermos as narrativas do Livro do Êxodo, (que significa saída) escrito por volta de 1250 a.C, iremos nos deparar com as figuras bíblicas de Moisés e Josué, lideranças escolhidas pela divindade para conduzir os hebreus para a terra de Canaã, libertando-os da escravidão no Egito.

Diante das dificuldades e da pressão popular Moisés cedendo ao desânimo voltou-se para a divindade e perguntou:
“Senhor, por que maltratas esse povo? por que me enviaste? Desde que me apresentei ao Faraó para falar em teu nome o povo é maltratado, e tu não libertaste o teu povo?
Javé respondeu a Moisés: agora você verá o que vou fazer ao Faraó. É pela força que ele os deixará partir e até os expulsará do seu país.”Bíblia Sagrada- Edição Pastoral
Esgotado pela idade e pela longa caminhada, Moisés morreu. Então Javé falou a Josué auxiliar de Moisés:
“Meu servo Moisés morreu. Agora levante-se e atravesse o Rio Jordão com todo esse povo para a terra que eu vou lhes dar.”
Bíblia Sagrada- Edição Pastoral

Na própria narrativa bíblica, é possível perceber que, na realidade, a saga do Êxodo não foi feita apenas de saboreio e degustação de manjar do céu e água brotada da rocha, e sim de muito sacrifício e de muita luta. O Livro de Josué no Antigo Testamento narra em detalhes a violência que o personagem bíblico foi obrigado a praticar para que seu povo alcançasse a terra de Canaã, inclusive com as bençãos da divindade.

Se mais adiante voltarmos a nossa visão para a idade antiga e a idade média, iremos encontrar exemplos expressivos e bem pedagógicos de outros conflitos históricos. Um deles foi a derrubada do império romano pelos povos germânicos, originários do norte da Europa, de diversas regiões: visigodos, francos, vândalos e anglo-saxões, tratados pelos escravos de então como heróis e benfeitores e pelos opressores como povos Bárbaros.

A Revolução Francesa, frequentemente celebrada como marco da modernidade política, foi também palco do Período do Terror, sob liderança de Maximilien Robespierre.
Do mesmo modo, as guerras conduzidas por Napoleão Bonaparte envolveram níveis massivos de violência e devastação.
Entretanto, tais episódios são frequentemente integrados à narrativa histórica como momentos necessários ou até heroicos. Surge, então, a questão: por que a violência associada a Stalin é tratada de forma essencialmente distinta?

A violência de Napoleão Bonaparte
No início do século XX, motivada por falta de espaço na divisão do mercado internacional, a Alemanha declarou guerra ao império econômico inglês e aos seus aliados de então. entre esses aliados estava a Rússia dos Czares, um país agrário e muito pobre que enfrentava uma revolucionária efervescência social interna que resultaria na vitoriosa revolução bolchevique de 1917, tendo como lideranças políticas de vanguarda: Vladimir Ilyich Lênin, Leon Trotsky, Joseph Stalin.
Em 30 de gosto de 1918, ao sair de uma fábrica em Moscou, Lenin sofreu um atentado à bala que comprometeu sua saúde. Embora tenha sobrevivido, os ferimentos de 1918 foram graves. As sequelas da bala, combinadas com a exaustão, deterioraram sua saúde, resultando em uma série de derrames que levaram à sua morte em 1924.
Justo no período de convalescência de Lênin e mal refeita da efervescência revolucionária, eclodiu a Guerra Civil que aconteceu no território russo entre 1918 e 1921, embora muitos historiadores apontem que o conflito se iniciou no final de 1917. Esse novo conflito interno foi decorrente do surgimento de um movimento de resistência aos bolcheviques.

A resistência contrarrevolucionária, que ficou conhecida como “guarda branca”, lutou até a sua derrota final em 1921. Por meio desse conflito, os bolcheviques conseguiram expurgar seus adversários tanto dentro do Partido Comunista e, principalmente, fora dele. A guerra deixou um saldo de destruição e resultou na morte de cerca de 10 milhões de pessoas.
Stálin, fiel aos ensinamentos de Lenin foi obrigado a assumir o comando do partido em disputa com Trótsky, que defendia a continuidade da luta libertária em outros países.
Ao término da Guerra Civil, a Rússia encontrava-se devastada: economia colapsada, infraestrutura destruída e um tecido social profundamente abalado. Nesse contexto, sob a liderança de Vladimir Lenin, foi implementada a Nova Ao Política Econômica (NEP), uma tentativa de estabilização que combinava elementos de mercado com controle estatal.
Joseph Stalin, então em ascensão dentro do partido, não foi o formulador da NEP, mas atuou no interior da engrenagem política que a sustentava. Sua habilidade organizativa e sua posição como secretário-geral permitiram-lhe consolidar influência num momento em que a prioridade era reconstruir o Estado e evitar o colapso definitivo da revolução.

Com a morte de Lenin, abriu-se uma disputa interna no partido. Stalin, gradualmente, neutralizou adversários e consolidou o poder. A partir do final dos anos 1920, promoveu uma inflexão decisiva: abandono progressivo da NEP; implementação dos planos quinquenais; aceleração da industrialização pesada; coletivização da agricultura.
O objetivo era claro: transformar uma economia agrária atrasada em uma potência industrial capaz de sobreviver em um ambiente internacional hostil. Os resultados foram expressivos em termos de capacidade industrial. Contudo, esse processo foi acompanhado por: forte coerção estatal; deslocamentos populacionais; repressão política aos contrarrevolucionários, especialmente durante os expurgos.
Aqui se estabelece uma das grandes tensões do período: construção acelerada versus custo humano elevado.
Durante a década de 1930, a União Soviética enfrentava crescente ameaça externa, especialmente com a ascensão do nazismo. A política de Stalin nesse período buscou: ganhar tempo; fortalecer a capacidade militar; evitar isolamento completo;
Ainda que controversas, essas medidas estavam inseridas em uma lógica de sobrevivência de um Estado que se via cercado por potências hostis. A invasão alemã marcou o início da chamada Grande Guerra Patriótica, parte decisiva da Segunda Guerra Mundial.

Sob a liderança de Stalin, a União Soviética enfrentou um dos maiores desafios de sua história: perdas humanas massivas; destruição de cidades inteiras; necessidade de mobilização total da sociedade. A resistência soviética foi decisiva, com destaque para a Batalha de Stalingrado, que simboliza a inflexão do conflito. A vitória sobre a Alemanha Nazista projetou a União Soviética como potência global e consolidou Stalin como figura central nesse processo.
No pós-guerra, a União Soviética emergiu como uma das duas grandes potências mundiais, no contexto da Guerra Fria. Internamente, o período foi marcado por: reconstrução econômica; manutenção de forte centralização política; continuidade de mecanismos de controle estatal. Externamente, consolidou-se uma área de influência no Leste Europeu, redefinindo o equilíbrio de poder global.

Com a morte de Stalin, iniciou-se um processo de disputa interna que culminaria na ascensão de Nikita Khruschev. No XX Congresso do Partido, em 1956, Khruschev que fazia parte do governo, apresentou uma denúncia contundente contra Stalin, centrada em: repressão política; culto à personalidade; abusos de poder.
Esse momento marca uma ruptura narrativa: Stalin deixa de ser celebrado como líder incontestável e passa a ser reinterpretado como símbolo de excessos.

Stálin a demonização depois da morte
A denúncia de Khruschev não foi neutra: destacou aspectos reais, mas omitiu contextos relevantes que serviu a objetivos políticos internos e externos ao enfatizar a repressão e silenciar sobre: a industrialização acelerada; a resistência na guerra; e a consolidação do Estado soviético produziu-se uma narrativa parcial — uma meia verdade historicamente eficaz.
Por fim podemos concluir com a convicção de que a trajetória de Joseph Stalin se insere entre dois polos: o da construção de um Estado capaz de resistir e vencer desafios extremos, e o da imposição de um modelo político marcado por forte coerção.
A releitura promovida por Nikita Khruschev não elimina os fatos, mas reorganiza sua interpretação, deslocando o eixo da história para uma crítica centrada no indivíduo.
Compreender esse percurso exige recusar simplificações. Nem absolvição plena, nem condenação unilateral: o que se impõe é o reconhecimento de que a história é, ao mesmo tempo, realidade vivida e narrativa disputada.

Referências:
O Estado E A Revolução – Lênin, De Vladimir Ilyich Ulianov (lênin)., Vol. 1. Editorial Edipro, Capa Mole, Edição 1 Em Português, 2024 | Frete grátis;
Stalin, herói ou vilão? (por Marino Boeira) – Sul 21;
#BrenoAltman: Stalin: herói ou vilão? Youtube;
A batalha pela memória: reflexões sobre o socialismo e a revolução no século XX – Ruptura Editorial;
Guerra Civil Russa: causas, combatentes, consequências;
Fotografias:
File:Joseph Stalin and Nikita Khruschev 1930s.jpg – Wikimedia Commons;
La historia de Josué (sucessor de Moisés y líder del Pueblo de Israel) – Bíblia;
Queda do Império Romano: data, consequências – História do Mundo;
História – Características da Revolução Francesa. – Conexão Escola SME;
Lenin Stálin e a revolução russa – Pesquisa Google;
A Segunda Guerra Mundial – esclarecendo as coisas – Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista);
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