A privacidade

Por: Antônio Couras

Não sei se o leitor já se pegou pensando em como foi que viemos parar aqui. Eu faço muito isso. Pergunto-me como problemas e conceitos que outrora não existiam ou não eram minimamente relevantes se tornaram tão centrais em nossa vida.

Outro dia, um amigo me enviou uma reportagem a respeito do “Wi-Fi Sensing” — detecção por Wi-Fi, em bom português —, uma tecnologia que usa o próprio sinal de Wi-Fi como se fosse uma forma de radar. O princípio é bem simples: o sinal de Wi-Fi se espalha pela casa (o que nós brigamos constantemente com os nossos provedores de internet para conseguir), e ele faz isso batendo em paredes, móveis e também nos corpos das pessoas que estejam ali. Quando alguém, ou alguma coisa, se move, o sinal muda levemente. E esse software consegue detectar isso.

Com os softwares que já temos hoje, é possível detectar se há alguém em casa, saber se a pessoa está parada ou se movendo, identificar movimentos simples como andar, levantar um braço etc. Em alguns casos, em que o sinal do Wi-Fi seja mais robusto e o software também, até respiração e pequenos movimentos.

O que, por si só, já está sendo assustador para muita gente. Mas não precisamos entrar em pânico ainda. Isso ainda é uma tecnologia experimental, e ela não consegue identificar quem é a pessoa que está se movendo, por exemplo. Funciona como outras tecnologias mais antigas, como infravermelho ou sonar.

E essa é só mais uma tecnologia que vem apavorando as pessoas, sejam elas céticas ou entusiastas. Alguns dizem que termos robôs ou assistentes virtuais em casa, ouvindo tudo o que dizemos, é uma loucura e uma aposta irresponsável com a nossa privacidade e até mesmo com a nossa segurança. Outros não conseguem nem mais ligar uma luz sem comando de voz ou sem um aspirador de pó automático que mapeia e limpa a casa.

O que percebo nessas horas é como conceitos como privacidade se tornaram tão importantes para as pessoas. Ao mesmo tempo, noto uma certa contradição, ou mesmo ignorância.

Nossas avós nunca precisaram de um software integrado ao Wi-Fi para saber se a vizinha estava em casa. Bastava ouvir o rádio, ver a lâmpada da varanda acesa ou notar que as janelas estavam abertas.

Hoje, inclusive, mais do que nunca, as janelas se tornam cada vez mais indiscretas. Muitas vezes desassociadas do nosso clima, grandes painéis envidraçados se tornam lugar comum nas construções. De dia, as grandes fachadas espelhadas imperam, mas, pelo efeito da refletividade, à noite o espelho se inverte, e temos um camarote para as casas alheias. Prédios inteiros se desnudam diante do nosso olhar.

E ninguém parece se importar em ser visto de camisola ou de samba-canção andando para lá e para cá no seu apartamento lata de sardinha, nesses paliteiros urbanos que se tornaram nossas cidades. Mas Deus me livre de dar a planta da minha casa para a empresa do aspirador de pó.

Incongruências à parte, fico me lembrando de quando, adolescente e pesquisando sobre história da arquitetura (sim, eu era um adolescente bem peculiar), me deparei com o fato de que os corredores foram inventados. Sim, eles não foram sempre uma realidade, como salas e cozinhas.

Os corredores, essas inovações arquitetônicas, só apareceram na arquitetura ocidental lá pelos séculos XVII e XVIII, nas casas aristocráticas inglesas, como uma solução prática para um problema bem comum: a circulação dentro de casa. Até então, como o leitor poderá observar em muitos prédios antigos no Brasil e tantos outros na Europa, os cômodos se enfileiravam — inclusive dando muito status a quem podia ir adentrando tais espaços.

Salas desembocavam em salas, que desembocavam em quartos. Se uma porta era fechada, meia casa ficava inacessível. Então, na prática, ninguém tinha muito controle sobre quem passava por ali. Com a invenção desse espaço dedicado à mera passagem, cria-se um eixo de circulação independente, permitindo que cada ambiente tenha acesso direto sem ser atravessado.

Essa mudança, aparentemente técnica, teve um efeito profundo no modo de viver: pela primeira vez, tornou-se possível fechar uma porta e garantir algum grau de isolamento. O que antes era um espaço constantemente exposto passa a ser potencialmente reservado. E é nesse momento que a privacidade deixa de ser ocasional e passa a ser estrutural dentro de casa.

Então, no século XIX, com a consolidação do modo de vida burguês nas cidades europeias, a casa passa a ser organizada não apenas para abrigar, mas para separar — e a privacidade ganha um espaço concreto dentro da vida cotidiana. Coisas que até então eram consideradas coletivas, como banhar-se ou dormir, tornaram-se solitárias.

A privacidade, então, se tornou mais um daqueles valores que consideramos inerentes à condição humana, mas que, na verdade, não só são recentes como foram uma criação do modo de vida burguês do século XIX.

Então, antes de entrar em pânico achando que empresas de tecnologia, hackers e o bicho-papão podem ver dentro da sua casa e invadir a sua privacidade, assegure-se de que suas cortinas são grossas e de que a sua vizinha não tenha muito tempo livre para se ocupar da sua rotina.

 

“Entre sinais invisíveis e mundos conectados, seguimos tentando entender o que nos atravessa e o que nos revela.”
🎧 Parabolicamará — Gilberto Gil

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