Chuva que lava a alma e amolece a terra

Por: Neves Couras

Esta semana, para nós sertanejos paraibanos, está sendo de festa. Ver a chuva escorrer pelas biqueiras é sinal de alegria. No dia seguinte, é pegar a enxada, colocá-la nas costas e seguir para o roçado com alegria e gratidão. Esse não é um sentimento para qualquer um; é só para quem conhece a tristeza de sua falta.

Sou neta de agricultor e, quando pequena, vivenciei tantas alegrias vindas com a chegada da chuva que, esta semana, deixei a janela do quarto aberta para ver a quantidade de água que caía.

Já comentei por aqui que minha memória é um pouco diferente pois, desde os três anos guardo imagens e acontecimentos, o que causa espanto à minha família. Mas não é criação de menina. Já foi constatado que são verdadeiros. Assim, fico mais tranquila para falar da alegria de quem mora na roça e vive o nosso “inverno”.

Aqui, peço licença ao leitor para falar de minha vivência, ou da imersão nesse paraíso chamado Mororó — ou Alagadiço, para quem preferir. Um sítio perto de Pombal onde vivemos por algum tempo. E, quando não estávamos morando lá continuamente — digo isso porque vivíamos nos mudando do sítio para a cidade —, passávamos férias ou finais de semana.

As imagens dos trabalhadores indo para o roçado com suas enxadas nas costas, os bisacos cheios de milho e feijão para serem plantados, os arados puxados pelos bois ou mesmo pelo homem, que carrega em seu coração a fé em São José de que se tiraria uma safra.

Por volta dos anos 60, os sitiantes não contavam com nenhuma ou quase nenhuma tecnologia para o plantio. No entanto, o objetivo era ter feijão para, quando seco, ser guardado em silos de zinco. Outra particularidade que nunca esqueci era a festa da debulha, feita na Casa Grande, com o feijão em grandes bacias. A vizinhança e os amigos vinham para uma noite de debulha acompanhada por uma dupla de cantadores de viola. Cada pessoa dava o “mote” e, ali, como se estivessem recebendo por intuição, as disputas mostravam a grandiosidade do conhecimento dos violeiros.

Após o fim da debulha, era servido a todos os presentes um excelente café, acompanhado por bolos assados em fogões a brasa, em formas untadas com manteiga de garrafa produzida ali mesmo, assim como o queijo de manteiga e de coalho. Que festa encantadora. Ali iniciavam-se os namoros, os flertes e até casamentos.

Mas a chuva também trazia fartura para encher os açudes, onde as curimatãs e os piaus eram apanhados com grandes redes e colocados em bacias para depois serem divididos entre todos que participavam da pescaria e com os vizinhos.

Em anos de bom inverno, tudo era fartura. O milho, guardado ainda na casca, era utilizado o ano todo. Depois debulhado em pilões com duas “mãos”, tornava-se milho para o mungunzá; o mais pilado tornava-se xerém, feito no leite das vacas da mesma propriedade, assim como para o angu. Tudo regado com muito leite e muita nata.

E a pamonha! Ah! Essa, na casa de minha avó — guloseima que aprendi com minhas tias —, não era de milho ralado. Era moído, peneirado em arupembas, temperado com muita nata, açúcar, cravo e canela, para se comer com queijo assado. Meu Deus! Quanta lembrança boa. Essas coisas podemos relembrar. E deixar a boca salivar.
O sertanejo é um povo amigo, gentil e generoso. Que orgulho sinto em conhecer esse universo que tantos não tiveram o prazer de conhecer.

Quase esquecia da colheita do algodão mocó. Meu avô era comprador de algodão. Lembro-me ainda de pular em cima dos fardos de algodão enquanto não chegavam os caminhões para carregar e levar para a indústria em Patos.

Ah! Minhas primeiras moedas ganhei apanhando oiticica. Nunca esqueci aquele cheiro. Nosso avô nos estimulava a trabalhar apanhando a oiticica que caía das frondosas árvores. Para mim, era uma grande alegria entregar a ele a latinha repleta de sementes, e ele me pagava com um sorriso discreto.

Meu avô era um homem sem estudo, mas, na matemática, ninguém o enganava. Deitado em sua rede, na varanda, ou em sua cadeira espreguiçadeira, estava atento a tudo.

No entanto, tinha um lundu que só quem era capaz de tirar era um compadre, padrinho de meu pai. Quando já se passavam três dias sem dar uma palavra a ninguém, minha avó dizia a meu pai: “Vá buscar seu padrinho para ver se seu pai fala”. Dito e feito. Entre os dois nunca faltaram respeito e conversa.

Encerro este texto com o coração apertado e os olhos cheios de lágrimas. Que tempo bom. Não conhecia tristeza, falsidade nem preocupação — coisas que hoje nosso coração infelizmente conhece. Feliz daquele que guarda apenas o que ficou de bom, em um tempo em que só ouvíamos histórias de mulas sem cabeça e de almas penadas.
Que possamos relembrar nossos melhores momentos da vida, pois estes, aliados à nossa fé, nos fazem viver melhor.

 

👉“Tem lembranças que chegam como chuva: caem mansas, mas molham tudo por dentro. 🎧 Ouça e sinta A volta da asa branca com Luiz Gonzaga.

 

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