Fotógrafos na savana

Por: Antônio Henrique Couras

Há uma cena que se repete aos domingos pela manhã. Você caminha por uma das rotas mais movimentadas de ciclistas e corredores e lá estão eles. Não apenas os atletas, mas também os fotógrafos, postados em esquinas estratégicas, ajoelhados atrás de lentes longas, esperando o momento exato em que o suor brilha na testa, o músculo contrai e o tênis parece flutuar. A vida selvagem urbana em plena atividade. É quase uma savana, com a diferença de que aqui os leões usam relógio inteligente.

Vivemos um tempo em que saúde deixou de ser apenas condição e se tornou performance. E não me refiro apenas à performance física, mas à performance social da saúde. Ela precisa ser exibida, registrada, compartilhada, comprovada. Não basta correr; é preciso que alguém fotografe você correndo. Não basta pedalar cinquenta quilômetros; é preciso o mapa colorido, a altimetria, o pace médio, a frequência cardíaca, a medalha digital. Nunca bastou ser, sempre foi necessário parecer ser, mas hoje parecer saudável tornou-se um dos últimos e mais sofisticados símbolos de status.

Houve um tempo em que o status estava no que se possuía. Depois, no que se consumia. Em seguida, na experiência que se acumulava. Agora ele parece morar no corpo: no abdômen seco, no percentual de gordura divulgado, na maratona concluída, no recorde pessoal celebrado como se fosse uma conquista diplomática. A saúde, que já foi silêncio e equilíbrio, transformou-se em espetáculo. Há algo de curioso nisso, porque a saúde verdadeira é discreta; não faz barulho, não posa, não exige plateia. Ela simplesmente permite viver com menos dor, mais disposição e mais tempo. O que vemos, porém, é uma teatralização da vitalidade.

Não basta ser atlético; é preciso apresentar provas documentais de que se é atlético. A corrida virou galeria, a academia virou estúdio, a trilha virou feed. O treino precisa ser narrado, o descanso precisa ser calculado, a alimentação precisa ser fotografada. Há uma necessidade quase burocrática de certificação corporal, como se disséssemos ao mundo que não apenas existimos, mas performamos saúde.

Não é difícil entender por quê. Em uma sociedade que parece permanentemente cansada, ansiosa e exausta, ser saudável tornou-se quase um privilégio. Em meio ao sedentarismo digital e às jornadas mentais extenuantes, quem corre às seis da manhã sinaliza disciplina; quem pedala cem quilômetros sinaliza controle; quem mantém um corpo definido sinaliza domínio sobre si. E domínio é poder. A saúde converteu-se em capital simbólico.

Há, contudo, um risco escondido nessa nova savana. Quando saúde vira espetáculo, ela deixa de ser cuidado e passa a ser produto. O corpo se torna currículo, a vitalidade vira marketing pessoal e a linha entre bem-estar e ansiedade se afina perigosamente. Quantos correm por prazer e quantos correm para não desaparecer do algoritmo? Quantos treinam por alegria e quantos treinam por validação? Não há problema em registrar conquistas ou compartilhar superações; o problema começa quando a prova substitui a experiência, quando a foto se torna mais importante que o percurso, quando o gráfico importa mais que o fôlego.

Saúde, que deveria libertar, passa a vigiar. O relógio mede, o aplicativo avalia, a comunidade compara, o feed confirma. A vitalidade transforma-se em moeda social. No fundo, isso não é inteiramente novo. A humanidade sempre utilizou o corpo como sinal. No passado, a robustez indicava fartura; depois, a magreza indicou refinamento; hoje, a definição muscular indica disciplina. O símbolo muda, mas a lógica permanece: o corpo comunica posição. O que se alterou foi a intensidade da documentação. Nunca tivemos tantas câmeras, tantos dados, tanta necessidade de prova. Se antes bastava a aparência, agora é preciso evidência técnica, tempo oficial, medalha numerada, screenshot do aplicativo. O corpo não pode apenas ser; ele precisa ser auditável.

Talvez seja esse o ponto mais delicado de todos. Quando a saúde vira performance pública, ela pode perder sua dimensão íntima. O cuidado consigo, que deveria ser um gesto silencioso de amor próprio, converte-se em projeto estético permanente. A corrida deixa de ser meditação em movimento e vira conteúdo; o treino deixa de ser fortalecimento e vira narrativa. Começamos, então, a confundir saúde com visibilidade.

No entanto, a saúde que mais importa raramente é trending topic. Ela se revela na capacidade de subir escadas sem dor, de dormir com tranquilidade, de atravessar o dia com energia suficiente, de envelhecer com dignidade, de manter equilíbrio emocional diante dos invernos internos que nenhum filtro corrige. Talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja quantos quilômetros corremos, mas por que corremos. Corremos para viver melhor ou para sermos vistos vivendo melhor?

A savana urbana continuará lá, os fotógrafos continuarão esperando o melhor ângulo, as medalhas continuarão brilhando. Nada disso desaparecerá. Mas seria saudável lembrar que a vida não precisa ser constantemente comprovada. Porque, no fim das contas, a saúde que impressiona pode render aplausos, mas é a saúde que sustenta que verdadeiramente importa.

 

Trilha sugerida para leitura: Valsa para Biu Roque, de Arthur Nogueira.

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