O Golpismo está novamente nos palanques

Por: Rui Leitão

É preocupante observar que, na eleição presidencial deste ano, apenas um dos candidatos reconhece a tentativa de golpe que o país sofreu, culminando nos ataques à Praça dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023. Os demais, em maior ou menor grau, procuram negar, relativizar ou minimizar essa evidência. E isso precisa ser levado a sério, porque significa que a democracia brasileira pode estar novamente diante de uma ameaça.

No dia 4 de outubro, os brasileiros não decidirão apenas quem ocupará a Presidência da República a partir de janeiro de 2027. Estarão decidindo, também, que país querem construir: se pretendem preservar o Estado Democrático de Direito ou permitir o retorno de práticas políticas que podem nos conduzir novamente às trevas do autoritarismo e da ditadura.

Voltar a esse passado significaria reviver um ambiente de permanente tensão institucional, com ameaças às instituições da República, perseguições políticas motivadas por divergências ideológicas, repressão, restrições à liberdade de manifestação do pensamento e tentativas de impedir a atuação das organizações sociais na defesa de seus direitos.

Em boa parte das candidaturas identificadas com a direita e a extrema direita, o discurso eleitoral incorpora a anistia aos envolvidos nos atos golpistas, a defesa de uma política externa de alinhamento automático aos Estados Unidos, a flexibilização ou entrega de interesses estratégicos nacionais, o questionamento da atuação do Supremo Tribunal Federal, a condenação de políticas sociais implementadas por governos democráticos e a defesa de uma política armamentista cada vez mais agressiva. Em alguns setores, chegam a aparecer propostas que flertam até mesmo com a ideia de o Brasil produzir armas nucleares.

Também não são poupadas a ciência, a cultura e a educação pública, frequentemente tratadas como espaços de disputa ideológica e submetidas a ataques que ignoram sua importância para o desenvolvimento soberano do país.

O mais grave, entretanto, é perceber que o golpismo voltou aos palanques eleitorais de forma aberta, sem constrangimento. A desinformação é utilizada como instrumento de manipulação coletiva, enquanto fatos históricos e acontecimentos recentes são deliberadamente distorcidos para construir uma narrativa conveniente aos interesses daqueles que pretendem retornar ao poder.

A extrema direita manifesta, explicitamente, seu desejo de voltar ao comando do país. E encontra apoio em setores das elites econômicas, da mídia corporativa e do mercado financeiro, especialmente da chamada Faria Lima, que parecem dispostos a aceitar o retrocesso democrático quando ele lhes oferece a perspectiva de preservar ou ampliar seus interesses.

É preciso, portanto, que o eleitor compreenda a dimensão dessa escolha. A eleição de 4 de outubro não será apenas uma disputa entre nomes, partidos ou programas de governo. Será, sobretudo, uma escolha entre dois projetos de país: um comprometido com a democracia, as instituições e os direitos sociais; outro que, sob diferentes discursos, volta a flertar com o autoritarismo, o golpismo e a ruptura democrática.

A história já nos ensinou, com enorme sofrimento, onde esse caminho pode nos levar. Por isso, mais do que nunca, é preciso defender a democracia antes que seja tarde demais.

 

“Quando o golpismo volta ao palanque, a memória se torna resistência — e o voto, defesa da democracia.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo