
Por:Joâo Vicente Machado Sobrinho
A história da humanidade jamais se moveu como uma linha reta. Se é verdade que a economia é a polia que move a história dos povos, os modelos de organização econômica e social e todos esses fatos são por ela movidos. Para não fugir à regra imposta pela natureza, os modelos econômicos envelhecem, definham e fenecem para dar lugar a novos modelos emergentes.
Temos como paradigma maior a comunidade primitiva. Era uma geração emergente, que tinhas bens comuns de posse comum, dividido entre todos. Ao se sedentarizarem, uns passaram a acumular bens e a escravizar os de menores posses. Estava estabelecido escravismo; após algumas dezenas de milhares de anos, o escravismo deu lugar ao feudalismo; mais ou menos mil anos depois, o feudalismo definhou virou mercantilismo e logo depois capitalismo que, cambaleante e demente, permeado por crises, enfrenta profundas contradições e dá sinais de fadiga.
Ao contrário de termos chegado ao fim da história, como insiste em assegurar a vã filosofia liberal, essas mudanças históricas apesar de não serem consideradas pelo establishment, não funcionam como uma linha de montagem. O materialismo histórico tem ritmo próprio e, como dizem os juristas, precisa transitar em julgado.

Geralmente atravessam uma série de crises periódicas, quase todas elas atalhadas pelos remendos da classe dominante. Porém, em última instancia e nas razoes finais, é capaz de praticar todo tipo de cambalacho e violência para conter a reação das massas famélicas.
No decorrer da milenar luta de classes, todo modelo de desenvolvimento econômico e social, tem gestado no próprio ventre o feto de um novo modelo em gestação que pode colocar em xeque as próprias estruturas. Destarte, o novo não nasce depois que o velho desaparece. Ele começa a ser gestado dentro próprio ventre. É nessa perspectiva que ganha sentido e força a conhecida formulação de Karl Marx.
Dizia ele que o ancian régime, carrega nas suas próprias entranhas o feto da sua destruição. Foi justamente para ocasiões como essa, que ele sugeriu a realização de um parto cesariana para acelerar o nascimento do novel régime, chamado revolução.

O feudalismo, um modelo econômico conhecido e que nos é mais próximo, não feneceu para que o capitalismo se nascesse. O capitalismo nascente, foi sendo construído dentro das próprias entranhas da sociedade feudal. A urbanização e o crescimento das cidades; a expansão comercial; o mercantilismo; a concentração de rendas; a acumulação de riquezas; a ascensão da burguesia e posteriormente o surgimento da filosofia iluminista, foram expressões filosóficas de uma longa transformação que culminaria com as revoluções burguesas.
Por conseguinte, a pergunta que se coloca na época contemporânea é inevitável: se o capitalismo nasceu das contradições do feudalismo, quais contradições do capitalismo estão sendo gestadas e que modelo econômico e social e poderá sucedê-lo?
Durante séculos, o feudalismo organizou a sociedade em torno da terra, de uma classe privilegiada e de várias relações de dependência. No topo da pirâmide feudal estavam comodamente sentados o clero e a nobreza; no centro superior da pirâmide estavam acomodados os patrícios e intelectuais orgânicos ao sistema; no primeiro piso inferior da pirâmide estava o poder coercitivo ou a capatazia. Por fim, no térreo da pirâmide feudal estava a numerosíssima plebe que produzia toda a riqueza para usufruto dos moradores dos andares de cima, suportando todo peso da exploração. Mas foi justamente dentro dessa pirâmide de exclusão que surgiu e começou a se alastrar insatisfações e questionamentos que deram origem a ruptura e a violenta queda da Bastilha.

Como toda vassoura nova sempre varre bem, com o capitalismo o comércio se expandiu as cidades cresceram e, uma nova classe social acumulou riqueza e poder econômico. O mercantilismo funcionou como importante espaço de transição, combinando antigas estruturas políticas e sociais com as novas relações econômicas. A burguesia crescia dentro do velho mundo e à medida que crescia, passava a exigir espaço político compatível com a sua força econômica.
O Iluminismo forneceu parte da sustentação intelectual para essa transformação. A crítica ao absolutismo, aos privilégios de nascimento e à concentração do poder, encontrou expressão em novos ideais de liberdade, igualdade jurídica, soberania e representação. A Revolução Burguesa da França foi a grande explosão dessa contradição histórica.
O capitalismo, portanto, não caiu pronto do céu. Ele foi construído e gestado no ventre do feudalismo.
Será que essa mesma lógica poderá ser aplicada ao momento presente? porque não?

O capitalismo, como vassoura nova, atingiu uma capacidade produtiva extraordinária. Promoveu o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da automação, da robótica e mais recentemente da inteligência artificial. Tem proporcionado uma produção cada vez maior, paradoxalmente utilizado cada vez menos, a força do trabalho humano. Por conseguinte, a produtividade alcançou níveis inimagináveis, enquanto a qualidade de vida da imensa maioria da população mundial tem se agravado. Não seria sensato um posicionamento contrário ao desenvolvimento tecnológico e cientifico. O que é inaceitável é a exclusão de mais de 60% da população mundial. Sérgio Porto, o Stanislau Ponte Preta dizia de forma eufemística: “ou nos locupletamos todos, ou restaurem-se a moralidade!
É aqui surge uma contradição inquietante: se a humanidade consegue produzir muito mais, utilizando cada vez menos a força de trabalho, por que essa conquista tecnológica não se converte automaticamente, mesmo num sistema liberal, em redução de jornada, ampliação do tempo de lazer e melhoria generalizada das condições de vida?

Ao contrário! Convivemos com uma cruel concentração de riqueza, com a precarização do trabalho, com uma alarmante insegurança alimentar e enormes desigualdades de acesso aos meios de sobrevivência.
A produção tornou-se cada vez maior e modernizada, enquanto a apropriação dos resultados permanece inacessível à maioria. O trabalho continua a contribuir com a produção de riquezas, mas os frutos dessa operosidade são privilégios de apenas 1% da população mundial.
Ao mesmo tempo, o capitalismo necessita crescer permanentemente. Precisa de novos mercados, precisa de novos consumidores, precisa produzir novas mercadorias e novas oportunidades de acumulação. Entretanto, encontra diante de si, quase toda população materialmente limitada. Como se não bastasse, os recursos naturais finitos vão se esgotando, os ecossistemas cada vez mais impactados, limitando a capacidade ambiental e a expansão econômica.
Estamos diante de uma conta que não fecha!
Temos aqui a grande contradição, ou seja: Um sistema precisando se expandir inserido em um planeta que possui limites físicos!

Há ainda uma transformação talvez mais profunda e inquietante: o capital tornou-se global sim, mas a política econômica permanece essencialmente a mesma, organizada em cartórios nacionais; o capital circula em segundos, as empresas operam em escala planetária e as cadeias produtivas atravessam continentes. Enquanto isso o trabalho é proibido de circular, os governos continuam a limitar suas fronteiras territoriais e a deportar imigrantes de forma radical e violenta.
A agitação corrente e crescente no mundo contemporâneo pode ser compreendida, em parte, como resultado desse conjunto de contradições.
Os economistas ortodoxos, arautos da política econômica liberal, não admitem por nenhuma hipótese que o capitalismo esteja fazendo água, ou que possa existir uma forma previamente determinada de sociedade que possa substituí-lo. A despeito disso a história das civilizações, até a época contemporânea, tem sido a história da luta de classes em que vários impérios sucumbiram. O que se evidencia é que o capitalismo contemporâneo está produzindo transformações ousadas, passiveis de ultrapassar os limites das próprias relações sociais que o sustentaram até o presente.

A inteligência artificial pode reduzir drasticamente a necessidade de trabalho em determinadas atividades. A automação pode modificar radicalmente a relação entre produção e emprego. A economia digital altera conceitos tradicionais de propriedade, mercado e mercadoria. A crise ambiental questiona a lógica do crescimento ilimitado. E a concentração econômica coloca sob tensão a própria democracia.
São forças que não estão fora da esfera do capitalismo. Estão sendo produzidas dentro dele. Talvez o capitalismo esteja carregando em seu ventre, não a certeza próxima de sua destruição, mas as condições para que isso aconteça.
Ao contrario do que afirmam os Chicagos Boys, a história não parou nem chegou ao final. Por outro lado, se ilude quem pensa que ela parou de movimentar.
Seria cedo afirmar que o capitalismo parece estar prestes aserá substituído por determinado sistema?

O capitalismo, através do país que até então era o seu maior paradigma, os Estados Unidos da América do Norte-USAN, tem dado mostra de impaciência e até de violência, incomodado com o surgimento de regimes totalmente antagônicos e economias alternativas, prestes a assumirem a hegemonia econômica mundial. China, Rússia, Índia, Brasil, lideram através dos BRICS um grupo de países emergentes que propõem uma pluralidade econômica mais exequível do que as atuais e que possibilite o desenvolvimento de outras economias.
Os que operavam o feudalismo, desdenhavam da ideia de carregarem dentro de si, as forças que iriam contribuir para sua própria destruição. Parece ser esse o sentimento do liberal capitalismo. Será que nunca presenciaram a lagarta virar borboleta?
Talvez essa agitação permanente do nosso tempo seja decorrente dos espasmos de mais uma crise do capitalismo. Talvez seja o sinal de que algo novo e diferente sendo gestado dentro dele. O problema é saber se estamos diante de um parto iminente ou se seria necessária uma operação cesariana. Dizem que o capitalismo é gato de sete fôlegos. Quantos fôlegos faltariam ainda a ele para expirar?

“O futuro não chega pronto: ele rompe, por dentro, as estruturas que já não conseguem contê-lo.”
Curadoria – Gorette Wanderley




