
Por: Antônio Couras
Oscar Niemeyer nos presenteou com uma das cidades mais bonitas do mundo. Uma arquitetura inigualável, e acredito que um palco tão bonito inspirou o celeste escritor desse espetáculo chamado Brasil.
No último dia 24 de agosto, mais uma cena começou a ser ensaiada entre as paredes do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça, ministro da Corte e relator das investigações envolvendo o Banco Master, convocou integrantes da Polícia Federal para uma reunião. Segundo relatos publicados posteriormente, o encontro pegou os policiais de surpresa. Mendonça queria que a PF vasculhasse o material apreendido no celular de Daniel Vorcaro e identificasse referências a autoridades que pudessem ter foro privilegiado, entre elas integrantes do próprio Supremo. Deu 72 horas para isso.
A ordem era especialmente delicada porque o celular em questão não pertencia a qualquer personagem secundário. Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, havia se tornado o centro de uma investigação que, aos poucos, deixava de parecer apenas financeira. Quanto mais a Polícia Federal entrava naquele aparelho, mais ficava evidente que Vorcaro cultivava uma impressionante rede de relações em Brasília.

Três dias depois, a PF voltou com o resultado. Eram 218 páginas. Entre milhares de registros, apareceu um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A perícia conseguiu reconstruir diversas mensagens enviadas por Vorcaro para aquele contato, além de documentos e registros relacionados ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
A partir daí, o que já era um problema começou a ganhar contornos de crise. Vorcaro não escrevia para Moraes para desejar feliz aniversário ou comentar o clima de Brasília. Em uma das mensagens, às vésperas de sua prisão, mencionava que seria necessário reforçar algo com “Andrei e Paulo”, nomes interpretados pelos investigadores como referências ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em outras comunicações, surgiram conversas relacionadas às investigações que já cercavam o Banco Master.
Como se não bastasse, entre os documentos estava o contrato do Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes. O acordo previa R$ 3 milhões mensais durante três anos, algo em torno de R$ 131 milhões em valores brutos. Uma das minutas analisadas pela Polícia Federal carregava nos metadados a identificação “Ministro Alexandre de Moraes” como último editor.

É bastante coisa. Não é, entretanto, prova automática de corrupção. Esse detalhe precisa ser preservado porque, em meio ao entusiasmo das torcidas, fatos têm a desagradável mania de continuar sendo fatos, seja isso mais ou menos do que se deseja.
O material divulgado mostra com bastante clareza aquilo que Vorcaro dizia e aquilo que ele aparentemente pretendia conseguir de Moraes. Ainda não esclarece satisfatoriamente o que Moraes respondia nem, principalmente, se o ministro praticou algum ato para favorecer o banqueiro.
Há diferença entre um empresário tentar usar sua proximidade com uma autoridade e conseguir que a autoridade efetivamente trabalhe em seu benefício. É justamente por isso que o caso merece investigação. Alexandre de Moraes não precisa ser canonizado para que se reconheça isso. Seu papel na defesa das instituições durante os ataques de 8 de Janeiro não lhe concede imunidade moral para o resto da vida. Se utilizou o cargo para ajudar Vorcaro, se houve contrapartida envolvendo o contrato do escritório de sua mulher ou se ultrapassou qualquer limite legal, deve responder como qualquer outro.

Até aí, portanto, André Mendonça poderia perfeitamente aparecer na história como o homem que decidiu puxar um fio incômodo. Só que ele resolveu puxá-lo de uma maneira curiosa.
No dia 31 de agosto, Mendonça encaminhou o material para a Procuradoria-Geral da República e deu cinco dias para que Paulo Gonet se manifestasse. Seria de se esperar, então, que aguardasse os cinco dias que ele próprio acabara de conceder. Não aguardou. No dia seguinte, 1º de setembro, levantou o sigilo do relatório.
De repente, as 218 páginas estavam expostas e o Supremo tinha diante de si uma das crises mais graves de sua história recente. Mendonça ainda defendeu que o assunto fosse levado ao plenário da Corte. Foi aí que Paulo Gonet resolveu colocar mais uma cadeira nessa mesa.
A PGR sustentou que a própria produção do relatório poderia ser juridicamente irregular. O argumento é que Mendonça teria ultrapassado a posição de juiz e assumido iniciativa investigativa que deveria partir da Polícia Federal ou do Ministério Público. Segundo esse entendimento, quando surgiram elementos envolvendo um ministro do próprio STF, o procedimento deveria ter seguido outra tramitação dentro da Corte. A atuação de Mendonça passou, então, a ser questionada não apenas politicamente, mas também juridicamente.

Há juristas que discordam de Gonet. Há quem sustente que Mendonça apenas determinou que a PF organizasse e identificasse material que já estava legalmente apreendido, sem criar uma investigação nova. A discussão vai continuar. Mas há uma pergunta muito mais simples, que não exige doutorado em Direito Constitucional: por que tanta pressa?
Se Mendonça considerava indispensável ouvir a PGR a ponto de conceder cinco dias para isso, por que colocou o relatório na rua no dia seguinte? Foi necessidade processual? Interesse público? Convicção pessoal de que aquilo precisava ser conhecido imediatamente? Pode ter sido qualquer uma dessas coisas. Apenas não foi uma decisão politicamente neutra.
E, quando ainda se tentava entender a primeira reviravolta, chegou a segunda. No dia 2 de setembro, soubemos que André Mendonça também conhecia Daniel Vorcaro. O ministro confirmou que havia recebido o banqueiro pessoalmente em março de 2025. Segundo sua versão, Vorcaro o procurou para falar sobre uma ação envolvendo precatórios, assunto de interesse do Banco Master. Mendonça afirma que apenas ouviu os argumentos e, posteriormente, tomou posição contrária àquela defendida pelo banco.

Nada ilegal necessariamente. Ministros recebem advogados, empresários e interessados em processos. Faz parte da vida institucional de Brasília, ainda que às vezes a vida institucional de Brasília pareça excessivamente parecida com a vida social de Brasília.
Mas naquele momento a fotografia já começava a ficar interessante. Mendonça havia acabado de expor a relação de Moraes com Vorcaro. E Mendonça também havia se encontrado com Vorcaro.
Horas depois veio mais uma informação. Vorcaro havia sido ouvido recentemente no próprio gabinete de Mendonça, sem a presença da Polícia Federal. O Ministério Público estava presente, e o ministro explicou que a oitiva aconteceu porque o banqueiro alegava estar sofrendo intimidações e pediu para ser ouvido com urgência.
Novamente, não estamos diante de prova de crime. Estamos diante de uma sucessão de situações que, colocadas umas ao lado das outras, começam a produzir um quadro bastante pouco elegante para a mais alta Corte do país.

Um ministro aparece em mensagens de um banqueiro investigado. O escritório de sua mulher tinha contrato milionário com o banco. Outro ministro manda a Polícia Federal produzir rapidamente um relatório sobre o colega. A PGR diz que esse ministro não poderia ter feito aquilo daquela maneira. Descobrimos então que o ministro que mandou investigar também havia recebido o banqueiro. E o banqueiro, aparentemente, conhecia gente suficiente em Brasília para organizar uma quermesse que tivesse quadrilha, barraca de tiro e um casamento matuto (mas com pastor no lugar de padre).
É quase injusto chamar isso de crise institucional. É, e aqui o leitor me perdoe o francês, um cabaré. O que seria até divertido, não fosse o Supremo Tribunal Federal.
A Corte atravessou os últimos anos ocupando um espaço enorme na vida política brasileira. Em parte porque precisou. Durante o governo Bolsonaro, enquanto instituições inteiras fingiam não perceber o avanço de uma aventura golpista, o STF virou uma das principais barreiras contra ela. Alexandre de Moraes tornou-se o rosto mais conhecido dessa reação.

Isso lhe rendeu inimigos, muitos deles merecidos. Também lhe rendeu um poder extraordinário, e poder extraordinário merece fiscalização extraordinária. Por isso não há contradição alguma em reconhecer que Moraes foi fundamental na resposta ao 8 de Janeiro e, ao mesmo tempo, exigir explicações rigorosas sobre sua relação com Daniel Vorcaro.
O que não se pode fazer é escolher previamente quem é santo e quem é demônio e depois encaixar os fatos conforme a necessidade. O problema é que Brasília raramente perde uma oportunidade de fazer exatamente isso.
Enquanto todas as atenções se voltavam para Moraes, havia outra história envolvendo Daniel Vorcaro acontecendo naquele exato momento. E, curiosamente, uma história muito inconveniente para Flávio Bolsonaro.
No mesmo 1º de setembro em que Mendonça abriu o relatório envolvendo Moraes, vieram a público novas informações sobre os milhões de dólares destinados por Vorcaro ao projeto de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.

Um relatório do Coaf apontava um repasse adicional de cerca de US$ 1,66 milhão realizado em setembro de 2025. O pagamento contradizia a versão apresentada anteriormente por Flávio de que os repasses de Vorcaro haviam terminado meses antes. A produtora do filme confirmou posteriormente o recebimento e afirmou que todas as transferências foram informadas à Justiça. Com o novo pagamento, os valores atribuídos a Vorcaro para o projeto chegavam a aproximadamente US$ 12,3 milhões.
Era uma notícia e tanto. Um candidato à Presidência da República, filho do homem retratado no filme, tendo de explicar por que um banqueiro investigado havia colocado milhões de dólares numa produção sobre seu pai e por que continuaram existindo pagamentos depois do período que ele próprio havia mencionado publicamente.
Flávio Bolsonaro poderia ter passado alguns dias bastante desconfortáveis explicando isso. Mas então André Mendonça abriu as portas do relatório sobre Alexandre de Moraes. E Brasília olhou para o outro lado.
Em questão de horas, a discussão deixou de ser prioritariamente sobre o dinheiro de Vorcaro no filme de Bolsonaro e passou a girar em torno da possível relação de Vorcaro com o homem que se tornou o maior inimigo político da família Bolsonaro. Para Flávio, aquilo não caiu como uma cortina de fumaça. Caiu como uma bênção do céu.

E é justamente aqui que o nome de André Mendonça deixa a história ainda mais delicada.
Mendonça não chegou ao Supremo por acaso. Foi advogado geral da União de Jair Bolsonaro, depois ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e finalmente indicado por Jair Bolsonaro para o STF. Era o cumprimento daquela famosa promessa de colocar na Corte um ministro “terrivelmente evangélico”.
É claro que uma indicação presidencial não transforma ministro do Supremo em empregado vitalício de quem o nomeou. Se funcionasse assim, o tribunal seria apenas uma extensão com onze gabinetes do Palácio do Planalto. Mas também não precisamos fingir que biografias políticas desaparecem no momento da posse.
Mendonça pertenceu ao governo Bolsonaro. Foi homem de confiança de Bolsonaro. Foi escolhido pessoalmente por Bolsonaro. E agora, em plena campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, tomou uma decisão extraordinariamente prejudicial justamente a Alexandre de Moraes, o ministro que simbolizou a reação do Estado ao 8 de Janeiro e que há anos ocupa o lugar de inimigo preferencial da família.

Mais curioso ainda: essa decisão ganhou publicidade exatamente quando surgiam novas revelações envolvendo Flávio, Vorcaro e milhões de dólares.
Isso prova que houve conluio? Não.
Até agora, não há prova pública de que André Mendonça tenha combinado sua atuação com Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, integrantes da campanha ou qualquer outro aliado político. E acusação dessa gravidade não pode ser feita apenas porque as peças parecem se encaixar de maneira conveniente.
Mas é aquela história, se tem bigodes, pelo, unhas afiadas e mia, normalmente se trata de um gato…
Seria necessário investigar se houve contatos políticos, conhecimento antecipado das revelações sobre “Dark Horse”, combinação de divulgação, vazamentos ou qualquer outro elemento capaz de demonstrar que o momento escolhido por Mendonça não foi apenas coincidência.

Talvez não exista absolutamente nada disso. Talvez André Mendonça tenha apenas decidido que aquele relatório era grave demais para permanecer escondido. Mas é difícil pedir ao cidadão que contemple toda essa sequência sem levantar pelo menos uma sobrancelha.
O ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Jair Bolsonaro coloca sob os holofotes o ministro que relatou os processos do 8 de Janeiro, justamente no momento em que o filho de Bolsonaro precisava desesperadamente que os holofotes saíssem de cima dele.
Moraes não é um cordeirinho inocente sendo jogado aos leões. Tem explicações sérias a dar e deve dá-las. Mas também seria imprudente coroar André Mendonça como paladino da transparência antes de entender por que resolveu abrir aquela porta, daquela maneira e naquele exato momento.

“Quando todos querem controlar os refletores, cabe à verdade iluminar o palco inteiro.”
Curadoria – Gorette Wanderley




