
Por:Mirtzi Lima Ribeiro
Escuto de algumas pessoas que enveredaram pelo caminho que denominamos de “busca espiritual”, que não devemos nos envolver nas questões rotineiras da nossa comunidade, região ou país.
A alegação é de que tais assuntos estão sob a tutela dos poderes exclusivamente materiais e de temas restritos ao campo da personalidade, e portanto, são meramente do plano material e denso. Ouvi também que essa “busca” requer isolamento ou afastamento do mundo.
Eu tenho uma opinião que diverge desse enfoque. Entendo que as palavras de Jesus Cristo, de que temos que ser do mundo sem pertencer a ele, se referem ao altruísmo, no sentido de evitar almejar ou cobiçar cada vez mais acumular recursos financeiros, luxo, ou ter um foco essencialmente nas satisfações e prazeres superficiais.

Treinar esse tipo de abnegação, não nos proíbe de ter a posse de objetos ou bens assim como não nos proíbe de agir e de decidir pelo que é justo. Esse tipo de desapego não nos exime de trabalhar nem de empreender ações conjuntas, com vistas a melhorar o nível e a qualidade de vida, tanto nossa quanto de outras pessoas envolvidas.
Eu também visualizo a omissão ou o “lavar as mãos”, o deixar de agir ou decidir, como um grave erro. Pois quando essa preterição contribui para prejudicar alguém ou para lhe subtrair oportunidades e chances, que dependem de dada questão ou situação, essa atitude indiferente se torna nociva.

Nas premissas que eu abracei para a minha vida, estão:
1. A ação voltada ao coletivo e ao bem comum. E isso inclui a materialidade em todas as coisas;
2. A divinização ou elevação da consciência, que deve ser uma atitude intrínseca a todas as ações que resultem em um melhor nível de compreensão e percepção dos indivíduos;
3. Uma noção equilibrada entre ser e ter, administrar recursos sem ser possuído pela ambição desmedida que incapacita o caráter ou mina a hombridade.
Esclareço que no meu entender, divinizar a matéria é contribuir para alavancar o nosso nível físico a um novo patamar de compreensão e de significado. Indica, ainda, a devida colaboração para que o coletivo e a inclusão sejam atos naturais e comuns.
A elevação da consciência e a ação voltada ao bem comum são incrementos que devem se somar aos valores e atributos ligados ao próprio Espírito Santo: inteligência, vontade, amor, bondade, ensino, senso acurado ao se guiar na vida, chamamento interno para a clareza e a inteireza.

Essas qualidades carregam em si os dons da fortaleza e da coragem, da sabedoria e do discernimento, da ciência e dos insights, do conselho e da isenção, do entendimento e da intuição, da piedade e da compaixão, do amor a Deus e da sinceridade.
Quando nos revestimos dessas características, podemos agir para o nosso benefício e de outros seres humanos, assim como de não humanos, a exemplo dos animais e da natureza como um todo.
Eu acredito que é tempo de elevação coletiva e de um despertar coletivo. A época dos devotos que se isolavam em mosteiros, em uma vida reservada, em clausura, em reclusão, já se foi.

Esse é o tempo de agirmos nos moldes daqueles que atuam voltados para a coletividade, para estar entre os doentes, os desassistidos e entre as pessoas comuns, que podem não compreender os mistérios subjacentes ao espírito.
Penso que agora é a hora de sermos um exemplo vivo de um Jesus Cristo que está entre as multidões, emanando a sua Luz e o seu Amor, em ações e em pensamentos construtivos endereçados a todos.
Creio que é o momento de dividirmos o nosso pão, nosso trabalho, nosso tempo e nossa atenção com os outros, de modo que aquilo que fazemos no dia a dia, seja feito para engrandecer e acrescer ao todo.
O que eu faço como cidadã, devo fazer em doação ao todo aqui no plano material e em doação ao plano de Deus, de modo que o Pai Nosso ensinado por Cristo, “Seja feita a tua vontade aqui na Terra como [já é feita] no Céu”, se realize com pleno poder, como ação emanada do Poder Maior da Inteligência Infinita, Deus.

Eu entendo que tudo o que fazemos repercute tanto em nós mesmos quanto nos outros.
O exemplo e o efeito é dominó, assim como também se torna pulverizado, se dissemina.
Eu posso influenciar os outros com meu exemplo de vida, assim como posso agir concretamente para melhorar a vida de meus semelhantes.
Como muito bem colocou essa questão, o Papa Emérito Bento XVI, à época Papa recém-empossado no ano de 2005, na Encíclica Papal Deus Caritas Est:
“… a fé cristã sempre considerou o homem como um ser uni-dual, em que espírito e matéria se compenetram mutuamente, experimentando ambos precisamente desta forma uma nova nobreza”.
Amém!

“A fé encontra seu verdadeiro sentido quando sai de nós e se transforma em cuidado com o mundo.”
Curadoria – Gorette Wanderley




