
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Quando os números começam a contar outra história.
Durante muitos anos e muito mais na época contemporânea, acompanhamos os alarmantes indicadores ambientais brasileiros. A sensação de uma catástrofe anunciada resultava sempre num desalento, assistirmos perplexos o crescimento de um elenco de perdas. Florestas derrubadas, vegetação nativa substituída por pastagem, nascentes fenecendo, solos expostos e erodidos e a biodiversidade sendo reduzida. Esse cenário tenebroso, avançava de forma incontrolável, sob a visão indiferente dos governantes de plantão.
Os dados mais recentes, apresentados pelos técnicos do INPE ao presidente Lula, mostraram uma luz no fim do túnel permitindo uma leitura diferente. Ainda não é motivo de euforia e comemorações definitivas, nem significam que o Brasil tenha vencido a grande ameaça do desmatamento. O que assistimos de forma alentadora é o surgimento de algo extremamente alentador, ou: a certeza de que uma trajetória ambiental pode ter o seu rumo modificado.

Depois de sucessivos anos de crescimento de áreas desmatadas, especialmente na Amazônia e no Cerrado, os indicadores recentes apontam uma inflexão na curva de crescimento, anunciando que em 2025, todos os seis biomas brasileiros apresentaram significativa queda no desmatamento. É o que mostram os primeiros indicadores disponíveis de 2026, confirmando sinais alvissareiramente favoráveis em áreas importantes.
É uma mudança que merece ser examinada, não apenas em relação aos números que apresenta, mas pelo que eles podem significar para o futuro.
Para compreender a magnitude dessa mudança, precisamos olhar para trás, tomando o ano de 2014 como referencial inicial.
A partir desse referencial, acompanharemos a evolução do desmatamento, particularmente os biomas da Amazônia e do Cerrado, para os quais existem séries históricas oficiais, que nos permite observar com maior segurança as oscilações ocorridas ao longo dos anos.

O objetivo não será simplesmente quantificar hectares ou quilômetros quadrados perdidos e sim compreendermos como e porque chegamos ao cenário atual e à importância dessa mudança recente, bem como a atenção que a ela devemos dispensar.
Entre meados da década passada e o início desta década, o país assistiu a uma intensiva investida aos seus biomas, numa forte pressão sobre sua vegetação nativa.
A Amazônia oferece ao mundo, um exemplo particularmente expressivo. Partindo de níveis retroativos, tendo por marco inicial o ano 2014, o desmatamento cresceu nos anos seguintes e alcançou patamares muito elevados no início da década de 2020.
Além da Amazonia, o Cerrado também sofreu forte pressão, sobretudo pelo avanço da fronteira agropecuária.

Essa trajetória devastadora tem produzido consequências que ultrapassam a simples redução da cobertura vegetal. Cada área desmatada tem interferido em maior ou menor intensidade: no equilíbrio dos solos, na biodiversidade, no aprisionamento de carbono e até mesmo no funcionamento do ciclo hidrológico.
A partir de 2023, especialmente na Amazônia, os indicadores começam a revelar uma inflexão importante. Não se trata de afirmar que o desmatamento terminou. Trata-se de reconhecer que a direção da curva mudou e pode mudar ainda mais.
Os resultados de 2024 e 2025 reforçam essa percepção e os indicadores parciais disponíveis para 2026 deverão ser examinados como variações de continuidade.
É justamente a partir daqui que o título do nosso artigo ganha sentido:
o Brasil que fechou olhos para a preservação, “para passar a boiada,” segundo o ministro bolsonarista Ricardo Sales, e agora dá uma demonstração concreta e irrefutável, de que a sustentabilidade é possível sim.
Por oportuno é bom lembrar que preservar a vegetação é também preservar a água.
Uma floresta, uma mata ciliar ou qualquer cobertura vegetal nativa não representa apenas um conjunto de árvores e plantas. A vegetação intercepta a chuva, protege o solo, favorece a infiltração da água, reduz a velocidade do escoamento superficial e contribui para a alimentação dos aquíferos. A água infiltrada lentamente no solo ajuda a sustentar nascentes e cursos d’água inclusive nos períodos em que as chuvas diminuem. Portanto, quando a cobertura vegetal é retirada, essa engrenagem natural sofre muitas alterações
Os números começam a mudar?
Como uma mudança dessa magnitude não possui uma única causa. o presente escrito deverá abordar de maneira isonômica a combinação de fatores que pode contribuir para a redução do desmatamento do apoio e fortalecimento da fiscalização ambiental, do monitoramento por satélite, da aplicação da legislação, da criação e proteção de áreas conservadas, da atuação integrada de estados e municípios, de compromissos oficiais do setor de produção, da participação das comunidades locais e da crescente utilização de tecnologias capazes de produzir mais, sem necessariamente avançar sobre novas áreas de vegetação nativa.

Este ponto é fundamental porque demonstra que preservação ambiental não depende apenas de intenção: depende de políticas públicas, conhecimento científico, tecnologia, fiscalização e escolhas econômicas adequadas.
É importante fazer a leitura abrangente dos números para perceber que mesmo com a redução recente, o Brasil continua perdendo centenas de milhares de hectares de vegetação nativa anualmente.
O Cerrado permanece sob forte pressão para aumentar os rebanhos. A Caatinga apresenta vulnerabilidades sui generis. A Mata Atlântica conserva apenas uma pequena parcela de sua cobertura original. O Pantanal enfrenta, além do desmatamento, incêndios e alterações no regime hídrico.
Por conseguinte, os bons resultados recentes precisam ser entendidos como um começo que deve ser consolidado, e não como uma missão cumprida e acabada.
O que ainda precisa ser feito para que a curva continue em declínio?

O nosso desafio atual, é transformar a redução conjuntural em tendência permanente. Isso significa manter e prestigiar o monitoramento; combater energicamente o desmatamento ilegal; recuperar o grande número de áreas degradadas, revitalizar as nascentes e as matas ciliares; ampliar as práticas agropecuárias sustentáveis; aumentar a produtividade das áreas já abertas; valorizar economicamente a floresta conservada através do credito carbono; aperfeiçoar a rastreabilidade das cadeias produtivas; e compreender definitivamente que o desenvolvimento econômico e conservação ambiental não precisam ocupar lados opostos.
O país como o Brasil, que possui uma das maiores riquezas naturais do planeta terra, maus do que qualquer outro, pode transformar a preservação dos seus biomas em vantagens econômica, social e estratégica.
A esperança que ressurge hoje, nos sugere transformá-la em ação permanente e legar à nossa descendência um mundo melhor, mesmo convictos de que a perda que está em declínio não acabou. porem que o futuro do meio ambiente é da nossa responsabilidade. Estamos “com as flores no peito e a história nas mãos”. Ainda temos tempo, mãos à obra!

Referencias:
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS – INPE. PRODES – Monitoramento Anual da Supressão da Vegetação Nativa. São José dos Campos: INPE. Série histórica e dados de monitoramento ambiental. O PRODES constitui a referência oficial para a taxa anual de desmatamento da Amazônia Legal.
Monitoramento Ambiental do INPE
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS – INPE. Estimativa de desmatamento na Amazônia Legal para 2025. São José dos Campos: INPE, 2025. A estimativa PRODES para o período de agosto de 2024 a julho de 2025 foi de 5.796 km², redução de 11,08% em relação a 2024.
Nota técnica PRODES 2025
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS – INPE. Dados do DETER referentes a junho de 2026. São José dos Campos: INPE, 10 jul. 2026. No acumulado agosto de 2025–junho de 2026, os alertas apresentaram redução de 37,2% na Amazônia e de 7,9% no Cerrado.
Dados DETER – junho de 2026
MAPBIOMAS ALERTA. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD2025. 2026. O relatório registrou 984.794 hectares desmatados em 2025, redução de 20,6% sobre 2024, com queda nos seis biomas brasileiros.
Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD2025
MAPBIOMAS. Desmatamento no Brasil fica abaixo de 1 milhão de hectares em 2025. 27 maio 2026. Apresenta a análise dos resultados do RAD2025, incluindo a concentração de 540.614 hectares de desmatamento no Cerrado e a redução observada em todos os biomas.
MapBiomas – resultados do desmatamento em 2025
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS – INPE. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Dados divulgados em 2026 referentes ao período mais recente de monitoramento. O levantamento registrou redução de 40% na supressão de florestas maduras, atingindo o menor nível da série histórica iniciada em 1985.




