O sagrado feminino – ideia antiga de um conceito amplo

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

De um modo geral, tudo aquilo que gera vida está associado intrinsecamente ao aspecto do Sagrado Feminino. O princípio feminino é um padrão (arquétipo) de acolhimento, inclusão, recepção ou receptividade, nutrição, amor, cuidado e zelo.

O gênero assim como o universo feminino, tipificam esse princípio, em especial através da natureza e das fêmeas que estão no mundo vegetal e animal. A associação desse conceito decorre naturalmente da ideia central em relação a tudo aquilo que produz e agrega vida.

Nos ensinamentos herméticos, a matéria é a mãe do mundo, pela via do princípio feminino, cujos conceitos estão relacionados à Lua e às águas da emoção.

O que é imaterial, ou seja, o caos, é considerado o pai do mundo, associado ao princípio masculino, tendo por símbolo o Sol e o fogo.

A matéria contém os aspectos: Sólido (Terra), Líquido (Água), Gasoso (Ar), Etérico (Fogo). Vemos neles os quatro elementos, como a manifestação do Logos (ou verbo).

Cada pessoa que está sobre a face do Planeta, possui dentro de si as polaridades e os princípios masculino e feminino, que devem ser harmonizados e alinhados a propósitos primorosos. É assim que se analisa, por exemplo, o símbolo do Yin e Yang.

Nos escritos do psiquiatra Carl Gustav Jung, o “Animus” é o lado masculino inconsciente de uma mulher e “Anima” é o lado feminino inconsciente de um homem. Ambos transcendem a psique pessoal.

A pergunta é: de que modo podemos nos melhorar a partir desse entendimento? As polaridades e princípios feminino e masculino, trazem em si atributos e características que precisam ser desenvolvidos pelo ser humano para que possa desfrutar de sua integralidade de modo harmonioso.

O Sagrado Feminino se tornou um modo de ser e um estilo de vida que promove ensinamentos sobre os aspectos físicos e mentais da figura feminina, onde o foco é a consciência de seus ciclos (a exemplo da menstruação), da capacidade de criar e acolher (gestação e amor inclusivo) e da força da mulher.

Poderíamos citar cinco aspectos em que o nível de consciência precisa ter alcance e compreensão, inicialmente:

1) as conotações do próprio corpo e suas sensações (sexo, sexualidade, prazer, saúde física);
2) a emoção e a sua relação com a vida;
3) a psique e como ela se expressa em atos/ações;
4) o processo criativo da vida;
5) o potencial e a força da mulher.

Ter acesso, conhecimento e compreensão nessas questões, pode propiciar à convivência e à cura da criança, da adolescente e da mulher interior, que habitam simultaneamente, a mente e o coração de toda mulher, e que, sob os ditames de um patriarcado vertical e severo, deixou muitas feridas nessas três fases de sua vida.
Quem é a deusa que tipifica o campo do sagrado feminino?

A deusa Diana, na mitologia, é a protetora da natureza, dos animais e das mulheres. Ela carrega um arco e uma flecha e era invocada por mulheres na hora do parto, por estar associada à fertilidade e à maternidade.
Em relação aos arquétipos universais femininos, temos:

1) Diana – a caçadora, que decide sobre as forças criadoras da mulher que gera;
2) Maria – amor personificado, princípio sagrado da virgem, representa a força criadora do amor;
3) Sophia – espírito e princípio Divino da sabedoria, que personaliza a força criadora do espírito.

Quando a mulher passa a se conhecer mais integralmente, tomando consciência do seu potencial e senso de conexão com a vida, ocorre a assunção do seu poder pessoal. Assim, ela tem acesso à mulher instintiva e vigorosa que existe dentro dela.

Esse processo serve para sair de quaisquer confusões mentais e desbloquear aquilo que a impede de viver e de se tornar plena. Nesse aspecto, quanto maior for o brilho no olhar, mais ela se aprofundou em sua essência feminina.
Os contos de fadas, a mitologia e as histórias antigas, trazem pistas fundamentais para que essa conexão se estabeleça com o centro dela mesma, com a sua essência criativa.

No Oriente as mulheres e deusas são retratadas com muita sensualidade.
O desenvolvimento dessa energia requer tempo, dedicação, aprendizado constante e a devida determinação quanto à autodescoberta.

A assunção da “deusa” interior, daquela que sabe, da intuição, requer o conhecimento e o acolhimento de sua consciência íntima.
A “deusa” se reveste de amor, naturalmente consubstanciado de potente sensualidade em seus gestos, semblante e movimentos, sendo ela detentora de alto grau de vitalidade. Ela será suave, porém firme na defesa de seus direitos e de sua vida.

Shiva e Shakti que formam o casal divino do hinduísmo, são retratados em um abraço íntimo e sensual e representam a consciência universal.

O autoconhecimento é o primeiro e mais importante passo para se praticar o Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino, assim como o Sagrado no Ser Humano, onde há avanço em consciência e torna o ser humano mais abrangente, mais compassivo, inclusivo e com inteireza.

Adentrar nesse campo de conhecimento e de aprimoramento de dons e talentos latentes, requer disciplina, dedicação e uma alta dose de isenção e imparcialidade. Não é caminho para sabotadores nem daqueles que gostam de catalogar e julgar os outros.

E essa jornada é individual, em cada pessoa. E o resultado só é possível ser mensurado pela própria pessoa. Não há comparações a serem feitas entre pessoa “a” ou pessoa “b”. O comparativo precisa ser da pessoa em questão para com ela mesma, em relação ao progresso que conseguiu alcançar, de acordo com seus pensamentos, sua ética, seu respeito aos outros, suas emoções, suas reações, ações e mentalidade geral.

Geralmente, as pessoas que se aprofundam ao fazer a viagem ao centro de si mesmas, passam a ter uma noção mais equilibrada e sábia sobre si e sobre a vida, reconhecendo as necessidades e demandas difusas do mundo ao seu redor.

A reflexão e a meditação contemplativa para com a vida e os acontecimentos, podem ser muito positivas.
No conto de fadas “A Bela e a Fera”, quando o homem que havia se tornado monstro aprendeu a valorizar, respeitar e a amar a “Bela”, ele inicia sua transformação para o que em essência ele era: um belo príncipe (uma bela alma humana).

Infere-se que a “Fera”, transforma e abraça a sua “Anima”, passando a desenvolver uma boa relação com o seu lado feminino inconsciente.

A redenção do feminino ocorre quando a mulher não admite mais a submissão ao masculino inconsciente, assumindo o seu papel, sem imitar o homem com seu aspecto masculino adoecido. A mulher que chegou a esse nível de compreensão, não se põe a criticar ou manchar outras mulheres que despertaram para sua real condição de ser vivente.

Só assim a mulher começa a se valorizar e a viver de maneira espontânea, intrinsecamente de acordo com os seus sentimentos e necessidades, e, se torna capaz de dialogar conscientemente com o seu “Animus”. É então quando ela abraça esse “Animus”, que é o seu aspecto masculino, tornando-se consciente dele dentro dela mesma, levando-o à cura e redenção, elevando-o.

O processo no homem, deve ser semelhante em relação à sua “Anima”, que geralmente é negativo e desconhecido para muitos. Só assim o homem, pleno e consciente do aspecto feminino que existe dentro dele, poderá realmente valorizar e validar a mulher que já é consciente de seu “Animus”, que foi saneado e é agora vigoroso.

O respeito mútuo, o verdadeiro zelo e cuidado de um homem para com uma mulher e vice-versa (estamos falando do aspecto físico, emocional e psicológico), só pode ocorrer quando ambos são seres despertos e compreendem e validam o seu oposto dentro de si mesmos.

Do contrário, só haverá equívocos e alguém querendo ser o tutor do outro, com desrespeito à pessoa humana que há dentro de cada um. Faço minhas as palavras da terapeuta e escritora Diane Bellego:

“Um homem nunca será tão viril até o momento em que integra o seu feminino: torna-se felino, intuitivo e incitador. Uma mulher nunca será tão mulher até integrar o seu masculino: ela se torna livre, vibrante, mágica e apaixonada.” (citação de frase da autora Diane Bellego, do livro: “Masculino Feminino, iniciação amorosa: fusão no coração da separação.”)

 

 

 

“Toda verdadeira jornada começa quando voltamos a escutar a voz que sempre existiu dentro de nós.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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