
Por: Antônio Henrique Couras
Durante muito tempo, a grande pergunta sobre o petróleo parecia ser simples: quando ele vai acabar? Crescemos ouvindo que o mundo precisava se preparar para o dia em que os poços secariam, os combustíveis fósseis se tornariam inviáveis e a humanidade seria obrigada, por necessidade física, a encontrar outra forma de mover carros, navios, aviões, fábricas e cidades inteiras.
Essa preocupação não desapareceu. O petróleo continua sendo um recurso finito, poluente e central na crise climática. Mas os últimos anos acrescentaram uma nova camada ao problema. Talvez a questão mais urgente hoje não seja apenas se o petróleo vai acabar, mas se ele estará disponível quando precisarmos dele. E, principalmente, quem terá o poder de interromper esse fluxo.

As guerras recentes, como a guerra da Ucrânia e os conflitos envolvendo o Irã e o Oriente Médio, escancararam um problema que julgávamos acabado com a era da integração global: petróleo não é apenas energia. Petróleo é território, rota marítima, sanção econômica, moeda diplomática, arma política e pedra no sapato da economia global.
A guerra da Ucrânia foi um divisor de águas nesse sentido. Quando a Rússia invadiu o país, o mundo percebeu que a dependência energética não é apenas uma questão comercial. Durante anos, parte da Europa contou com petróleo e gás russos como se conta com ar nos pulmões. Bastou a guerra estourar para que gasodutos, contratos, refinarias, sanções e preços voltassem a ser o que sempre foram: problemas. Não havia mais integração global. Voltamos quase à era das navegações com poucos países que tinham a faca e o queijo da economia global em suas mãos.

A modernidade nos trouxe muitos confortos, desde a falta de necessidade de precisarmos instalar fábricas perto de rios para usarmos a força hidráulica para mover teares até a cogitarmos morarmos e trabalharmos em lados opostos do planeta. Contudo, com os recentes entreveiros sentados em cima de reservas de petróleo e gás, a energia deixou de ser apenas uma conta no fim do mês e passou a ser uma questão de soberania.
Países tiveram que buscar fornecedores alternativos, rever estoques estratégicos, acelerar projetos de energia renovável, reconsiderar o papel do gás natural e rediscutir até o funcionamento de suas indústrias. O petróleo, que já era importante, passou a ser tratado como uma vulnerabilidade nacional. Uns correm para estabelecer as suas próprias reservas, outros, a sua independência do óleo negro.

O caso do Irã e do Estreito de Hormuz é ainda mais simbólico. Poucos lugares no mundo mostram tão bem como a economia global pode depender de uma faixa estreita de mar. Por ali passa uma parte imensa do petróleo transportado por navios. Um conflito localizado, em poucas horas, ganha escala planetária.
É aí que a ideia de “segurança energética” volta à baila. Particularmente, eu me sinto em uma corrida colonialista por terras para explorarmos recursos e garantimos o nosso, já que não podemos mais contar com a integração do comércio global.
A verdade é que no século XVIII a Inglaterra violentou o mundo para garantir algodão para os seus teares e grãos para as suas barrigas. Da segunda metade do século XX pra cá os EUA vêm fazendo a mesma coisa com o petróleo que alimenta a sua indústria.

Com a dependência global do petróleo, se uma guerra ameaça uma rota marítima, o preço do petróleo sobe. Se uma refinaria é atacada, o mercado reage. Se um país produtor sofre sanções, compradores precisam reorganizar cadeias inteiras. Se navios não conseguem passar, a energia não chega. E, quando a energia não chega, quase tudo fica mais caro: transporte, alimentos, fertilizantes, eletricidade, produção industrial, o alimento na mesa. E bem, os EUA não são mais capazes de garantir o fluxo global de petróleo. Não conseguiram peitar a Rússia e foram humilhados pelo Irã.
Essa instabilidade reinventa a relação dos países com sua matriz energética. Durante décadas, a discussão sobre transição energética foi tratada principalmente como uma pauta ambiental. Era preciso reduzir o uso de combustíveis fósseis para enfrentar o aquecimento global. Isso continua verdadeiro. Mas agora há outro argumento, talvez mais persuasivo para governos pragmáticos: depender demais do petróleo é também um risco estratégico.
Energia solar, eólica, biocombustíveis, hidrogênio, eletrificação dos transportes e eficiência energética deixam de ser apenas símbolos de uma consciência ecológica. Passam a ser instrumentos de defesa econômica. Um país que diversifica suas fontes de energia não está apenas reduzindo emissões. Está reduzindo sua exposição ao humor de ditadores, guerras regionais, bloqueios navais e chantagens diplomáticas.

Isso não significa que o petróleo desaparecerá amanhã. Seria ingenuidade achar que uma economia global construída por mais de um século em torno de combustíveis fósseis pode simplesmente virar a página em poucos anos. O petróleo ainda move navios, aviões, caminhões, cadeias petroquímicas e parte essencial da vida moderna. A questão é outra: quanto mais dependente dele um país for, mais vulnerável ele estará aos choques do mundo.
As guerras recentes nos obrigam a abandonar uma ilusão confortável: a de que o petróleo era apenas um problema do futuro. Ele é um problema do presente. Não apenas por causa do clima, nem apenas por ser finito, mas porque sua circulação depende de uma ordem internacional que já tem um capelão em sua cabeceira lhe dando os últimos sacramentos.
Durante anos, perguntamos o que aconteceria quando o petróleo acabasse. Agora, a pergunta talvez seja outra: vale a pena esse esforço todo?

“Talvez a maior riqueza de uma civilização não esteja no que ela extrai da Terra, mas no que aprende a preservar dela.”
Curadoria — Gorette Wanderley




