
Por: João Vicente Machado Sobrinho
A supremacia do dólar como moeda de troca, ao contrário do que é possível imaginar, não surgiu por acaso, tampouco é fruto exclusivo da força de mercado. Ela foi construída historicamente, sobretudo a partir de um arranjo institucional estabelecido no pós-guerra, após os acordos de Bretton Woods.
Em 1944, ainda sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, as principais economias capitalistas de então, reuniram-se para reorganizar o sistema financeiro internacional. Desse conclave, surgiu a ideia da criação de um modelo no qual o dólar passou a ocupar posição central, sendo lastreado em ouro e utilizado como referência para as demais moedas.
Esse arranjo conferiu aos Estados Unidos uma vantagem estratégica sem precedentes: ao emitir a moeda de reserva global, o país passou a financiar seus déficits com relativa facilidade, exportando sua moeda e, em certa medida, seus próprios desequilíbrios.
Mesmo após o fim da conversibilidade ouro-dólar, na década de 1970, o sistema não colapsou. Ao contrário, foi reinventado. O dólar manteve sua centralidade, agora sustentado não mais pelo ouro, mas pela força econômica, militar e política dos Estados Unidos — além de sua capacidade de influenciar instituições internacionais e mercados financeiros.

Como o dólar se tornou moeda de referência
Assim, consolidou-se um sistema no qual uma moeda nacional passou a desempenhar funções globais, criando uma assimetria estrutural que permanece até os dias atuais, porém começa a fazer água.
Se, em sua origem, a hegemonia do dólar foi apresentada como um mecanismo de estabilidade e coordenação internacional, com o passar do tempo ela passou a revelar uma dimensão menos visível, porém profundamente determinante: seu uso como instrumento de coerção.
O domínio sobre a principal moeda global conferiu aos Estados Unidos não apenas vantagens econômicas, mas também uma poderosa ferramenta geopolítica. O sistema financeiro internacional — ancorado no dólar — transformou-se, progressivamente, em um espaço de exercício de poder.
As sanções econômicas são talvez a expressão mais evidente desse processo. Ao restringir o acesso de determinados países ao sistema financeiro global como vem acontecendo na época contemporânea, com o congelamento de reservas internacionais e mesmo o bloqueio de transações, cria-se uma forma de pressão que dispensa o confronto militar direto, mas produz efeitos devastadores sobre as economias nacionais.
Além disso, mecanismos como o sistema de compensações internacionais e a centralidade de instituições multilaterais, reforçam uma arquitetura assimétrica, na qual países periféricos frequentemente se veem obrigados a adotar políticas econômicas alinhadas a interesses externos, sob pena de total segregação financeira.

Nesse contexto, a hegemonia deixa de ser apenas pela liderança e passa a assumir contornos de dominação. O que antes era apresentado como ordem internacional baseada em regras revela-se, em muitos casos, como um sistema seletivo, no qual as regras são aplicadas de maneira desigual.
É justamente essa assimetria — entre aqueles que emitem a moeda global e aqueles que dependem dela — que caracteriza o aspecto predatório do modelo: um arranjo que permite a transferência contínua de riqueza e poder, ao mesmo tempo em que limita a autonomia de grande parte das nações.
Nenhuma ordem internacional é permanente. A história demonstra que sistemas hegemônicos, por mais sólidos que pareçam, carregam em si as sementes de sua própria transformação.

“A sociedade burguesa, produz ela mesma, os seus mecanismos de destruição.” Karl Marx
Nos últimos anos, multiplicam-se os indícios de que a centralidade do dólar começa a ser questionada de forma mais consistente.
Um dos sinais mais relevantes é o avanço de acordos comerciais realizados em moedas locais. Países que antes dependiam exclusivamente do dólar para suas transações internacionais passaram a buscar alternativas, reduzindo custos, riscos cambiais e, sobretudo, a exposição a eventuais sanções.
Paralelamente, ganha força o debate sobre a chamada desdolarização — um movimento ainda incipiente, mas crescente, que envolve desde a diversificação de reservas internacionais até a criação de mecanismos financeiros alternativos.
Nesse cenário, blocos de países emergentes assumem papel de destaque. Iniciativas de cooperação econômica e financeira indicam uma tentativa de construção de uma nova ordem menos dependente de um único centro de poder.

As tensões geopolíticas recentes também aceleram esse processo. Conflitos, disputas comerciais e o uso reiterado de instrumentos financeiros como arma política, acabam por estimular outros atores a buscar caminhos próprios, como forma de preservar suas soberanias.
Não se trata, portanto, de um colapso imediato, mas de um processo gradual de erosão em curso — silencioso, porém significativo, que se iniciou no século XX.
A participação do dólar nas reservas internacionais globais, caiu de cerca de 71% em 1999 para aproximadamente 58%–59% em 2024/2025. No comércio internacional, embora o dólar ainda seja dominante, observam-se um crescimento de transações em moedas locais, especialmente entre países do Sul Global. Países como China e Rússia ampliaram significativamente o uso de moedas próprias em acordos bilaterais.

Os BRICS idealizam uma nova moeda de troca
O bloco dos BRICS, vem discutindo mecanismos alternativos de liquidação comercial e até a criação de uma possível moeda comum para transações. Além disso, o ouro voltou a ganhar protagonismo com muita força: bancos centrais registraram compras recordes nos últimos anos, indicando busca por ativos fora da órbita do dólar.
Sistemas alternativos à Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundial- SWIFT, começam a surgir, reduzindo a dependência da infraestrutura financeira controlada pelo Ocidente.
O uso do dólar como instrumento de sanção — especialmente após eventos como a guerra na Ucrânia — acelerou um movimento de desconfiança.

O congelamento de reservas internacionais de países adversários revelou um ponto crítico:
ativos em dólar não são neutros — são politicamente condicionados.
Essa constatação levou diversas nações a repensarem suas estratégias: diversificação de reservas; acordos bilaterais fora do sistema dolarizado; fortalecimento de moedas nacionais. O efeito colateral foi claro: ao politizar excessivamente sua moeda, os USAN incentivaram a busca por alternativas.
Não se trata, ao menos por ora, do “fim do dólar”, mas de algo mais sutil e profundo: a transição para um sistema multipolar, em que nesse novo arranjo: o dólar perde participação relativa, mas não desaparece; o yuan (renminbi) ganha espaço gradualmente; moedas regionais e acordos locais se expandem; ativos como ouro e commodities retomam centralidade; esse movimento reflete uma transformação maior: o declínio da unipolaridade global.
Concluindo podemos acrescentar que, se a história econômica ensina algo, é que nenhuma hegemonia é eterna — sobretudo quando passa a confundir liderança com imposição e estabilidade com dominação.
O domínio do dólar, erguido sob os escombros da Segunda Guerra Mundial e institucionalizado em Bretton Woods Agreement, cumpriu um papel organizador na economia global. No entanto, ao longo das décadas, esse sistema foi progressivamente distorcido, transformando-se de instrumento de coordenação em mecanismo de assimetria estrutural.

A capacidade dos Estados Unidos de emitir a principal moeda do mundo sem correspondência produtiva equivalente, financiar seus déficits à custa do restante do planeta e impor sanções com alcance global não apenas consolidou poder, como também — gerou ressentimento, desconfiança e reação.
E aqui reside o ponto de inflexão histórico.
Ao transformar o dólar em arma geopolítica, ao politizar reservas internacionais e ao submeter o sistema financeiro global a interesses estratégicos unilaterais, a potência hegemônica pode ter precipitado exatamente aquilo que pretendia evitar: a construção de alternativas.
O avanço de articulações como o BRICS, a ampliação do uso de moedas nacionais, a recomposição das reservas em ouro e a busca por sistemas financeiros paralelos não são eventos isolados — são sintomas de um rearranjo profundo, silencioso e cumulativo.

Não há ruptura abrupta à vista. O dólar não cairá de um dia para o outro. Mas sua erosão já não pode ser ignorada. O que está em curso é mais do que uma mudança monetária: é o desgaste de um modelo de poder que, ao se tornar excessivamente coercitivo, perdeu legitimidade.
Se no passado o mundo dependia do dólar por necessidade, hoje começa a evitá-lo por prudência. E talvez seja esse o verdadeiro sinal de declínio: não quando uma potência deixa de ser dominante, mas quando deixa de ser confiável.
Assim, a pergunta inicial — se estaríamos diante do início do fim de uma hegemonia predatória — já não soa como provocação retórica. Soa como diagnóstico histórico em formação. E, como toda transição dessa magnitude, não será apenas econômica. Será, inevitavelmente, política, estratégica — e civilizacional.

“Quando novos caminhos se afirmam, até o poder aprende que não é eterno.” ✨Vamos refletir o texto ouvindo O Nordeste Independente com Elba Ramalho.
Referências:
SciELO Brazil – Poder Monetário Estrutural: do padrão ouro ao dólar flexível Poder Monetário Estrutural: do padrão ouro ao dólar flexível;
CEBRI-Revista | A dominância do dólar, os bancos centrais e o mundo pós-Bretton Woods;
SciELO Brazil – O dólar e os desequilíbrios globais O dólar e os desequilíbrios globais;
A morte do dólar – CNM-CUT;
A morte do dólar – CNM-CUT;
Fotografias:
Como o dólar se tornou a principal moeda do mundo?
Amazon.com.br eBooks Kindle: O Dólar e o Poder Global: Entenda a Moeda que move o mundo, Pinto, Jader J S;
BRICS já imprimiu moeda única? Nota de 100 BRICS viraliza Por BlockTrends
terracoeconomico.com.br/sera-facil-subir-o-teto-da-divida-americana/;




