
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Muito antes do surgimento das grandes civilizações humanas, já pulsava sobre a Terra uma ordem silenciosa, eficiente e profundamente integrada à lógica da vida: o mundo das abelhas. Esses pequenos insetos, frequentemente reduzidos à produção de mel, desempenham, na verdade, uma função estrutural na manutenção dos ecossistemas globais, além de dar um inestimável e inédito exemplo de organização coletiva.
Através da polinização, as abelhas sustentam cadeias alimentares inteiras, garantindo a reprodução de milhares de espécies vegetais e, por consequência, a sobrevivência de inúmeros organismos — incluindo o próprio ser humano. Nesse sentido, não é nenhum exagero retórico afirmar que as abelhas estão entre os seres vivos mais importantes do planeta terra e essa é uma constatação científica.
Este escrito, se propõe a examinar a sua organização social, o seu papel ecológico e a sua importância vital, estabelecendo de passagem, um paralelo com suas parentes mais próximas — as formigas — igualmente notáveis pela complexidade de suas estruturas coletivas.

Abelhas: os seres vivos mais importantes do planeta
As abelhas, notadamente a espécie Apis mellifera, apresentam uma organização social impecável, onde a divisão do trabalho e da riqueza que produzem que é o mel, é feita de forma coletiva, de forma disciplinada, baseada na intuitiva divisão funcional, a nosso ver, a forma mais racional de trabalho.
. A Rainha: que apesar do nome não reina, é a responsável única pela reprodução e povoamento da colmeia.
. As Operárias: executam tarefas diversas como localização do pólen, sua coleta, a defesa, a alimentação e a manutenção da colmeia.
. Os Zangões: cuja função única na colmeia é a fecundação da rainha para a reprodução e que em tempo de crise são eliminados.

No território das abelhas que é a colmeia, não há centralização autoritária no sentido humano, mas uma espécie de inteligência distribuída, onde cada indivíduo atua conforme a sua capacidade, seus estímulos químicos instintivos e as necessidades da colônia. O polietismo etário das abelhas se inicia com as tarefas domesticas e rotineiras, até o trabalho externo exaustivo. O ciclo vital da espécie Apis Mellifera, dura de seis a oito semanas, aproximadamente 45 dias durante o verão.
O modo de divisão do trabalho das abelhas, exemplo de eficiência e eficácia, tem sido estudado como exemplo de auto-organização, conceito caro à biologia e à teoria dos sistemas. Com certeza, inspiraram filósofos diversos defensores da teoria da razão como Sócrates, René Descartes, Spinoza, Leibniz e Karl Marx.

Uma abelha operária trabalhando e conduzindo pólen.
Como já nos referimos, cada indivíduo desempenha funções específicas ao longo da vida, tais como: limpeza e manutenção da colmeia; alimentação das larvas; produção de cera e conservação dos favos; vigilância na entrada e defesa da colônia; coleta de néctar e de pólen.
Segundo o estudioso e pesquisador Karl von Frisch, (1886-1982) etólogo e zoólogo austríaco, as abelhas comunicam a localização dos alimentos por meio da chamada “dança das abelhas”, um sofisticado sistema simbólico de comunicação entre elas, que transmite direção e distância com notável precisão.

Uma rainha em postura rodeada da sua guarda
Esse comportamento evidencia uma forma de inteligência coletiva baseada na cooperação, na eficiência energética e na adaptação ao ambiente — características que desafiam a visão tradicional de hierarquia simples nos insetos. Muitos ignoram que o valor econômico da polinização, é estimado em centenas de milhões de dólares anuais. Diante disso, não é nenhum exagero afirmar que a extinção das abelhas pode levar à extinção de animais herbívoros e carnívoros, entre eles o ser humano, maior causador de agressões ao meio ambiente.
Talvez, poucas pessoas percebam a importância econômica e a segurança alimentar propiciada pelas abelhas ao gênero animal e vegetal. Muitas vezes esses seres vivos, dentre todos o mais importante, são vistos simplesmente, como meros e perigosos insetos peçonhentos. Alimentos como: maçã, café, soja, amêndoas; cacau (base do chocolate) e diversas hortaliças e cereais essenciais à dieta humana, sem as abelhas, estariam fadadas à extinção.
A produtividade agrícola cairia vertical e drasticamente; os preços dos alimentos disparariam; a insegurança alimentar se alastraria e se agravando em escala universal. As ameaças contemporâneas que ameaçam a vida das abelhas, a despeito da sua importância para a vida, estão refletidas no alarmante declínio das populações de abelhas que é crescente em várias regiões do mundo e por diversas causas:

Biocidas neocotinóides-uma das causas mortis das abelhas. Uso de pesticidas: substâncias como os neonicotinóides afetam o sistema nervoso das abelhas, comprometendo sua orientação e sobrevivência;
. Perda de habitat: o avanço da monocultura e da urbanização, reduz a diversidade floral necessária à alimentação das abelhas e à fabricação do seu produzo-o mel;
. Mudanças climáticas: alterações nos ciclos de floração que desorganizam a relação entre plantas e polinizadores;
. Doenças e parasitas: como o ácaro Varroa destrutor, que compromete colônias inteiras.

A mortandade assustadora das abelhas
As abelhas são exemplos vivos de equilíbrio entre produção e sustentabilidade. Elas retiram da natureza apenas o necessário e, ao fazê-lo, entregam benefícios multiplicados ao ambiente e por extensão às nossas vidas. Em flagrante contraste, o modelo econômico dominante frequentemente rompe esse equilíbrio, explorando recursos de forma predatória. Observar e preservar as abelhas é, portanto, mais do que um exercício científico: é uma lição de racionalidade, de altruísmo, de organização social, cooperação e respeito aos limites naturais.

O mundo sem as abelhas poderá ser levado a isso.
Concluindo, podemos afirmar com plena convicção que as abelhas não são apenas importantes — elas são indispensáveis. Sua existência sustenta silenciosamente a biodiversidade, a agricultura e, em última instância, a própria vida humana, sem cobrar por isso um único centavo. Ignorar seu declínio é negligenciar os fundamentos da civilização e cavar a própria morte. Protegê-las, por outro lado, é assumir um compromisso com o futuro das próximas gerações.
Se existe um símbolo concreto de interdependência entre os seres vivos, ele certamente zune nos nossos ouvidos, nos campos e nas flores do planeta: a abelha, arquiteta ignorada da vida na Terra.
🎧 Se a terra secar e a vida rarear, talvez reste apenas a canção: “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga.

🎧 Se a terra secar e a vida rarear, talvez reste apenas a canção: “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga.
Referências:
Karl von Frisch | Biografia & Descobertas do Estudo da Abelha | Britannica;
https://www.estantevirtual.com.br/livro/guia-avancado-de-apicultura-na-cidade-tecnicas-e-praticas-urbanas-J2U-5196-000?campaign=ev&gad_source;
O Fenômeno das Abelhas-Jurgen Tautz: Amazon.com.br;
Fotografias:
Abelhas: saiba por que elas são fundamentais e por que estão sumindo do planeta;
As Abelhas e a vida na Terra – Parte 2;
Saiba a importância das abelhas rainhas nas colmeias – A.B.E.L.H.A;
(3) Inseticidas Neonicotinóides à base de… – Dipil Indústria Química | Facebook;
a mortandade alarmante das abelhas – Pesquisa Google;
O que aconteceria com a Terra após a extinção humana? | Ciência




