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O anjo da pele morena

Quando os primeiros dias de maio chegam vêm carregados de lindas e doces recordações. Há muito tempo, ainda quando eu era uma criança, a minha pequenina cidade ficava em festa, começavam os festejos do mês Mariana. Na Igreja eram celebradas missas, novenas e procissões. Toda a comunidade lavrense se engajava num grande trabalho de equipe prestando honras e culto a Mãe de Jesus.

Cada semana era dedicada a uma invocação da Virgem Maria. A Igreja, o altar, o andor tudo era ornamentado de azul e branco, a imagem da Virgem ficava exposta numa mesa lateral do altar, ali os devotos se ajoelhavam e rezavam seu rosário, cantavam a ladainha, recitavam o Ofício e ofertavam belas e cheirosas rosas. Afinal, maio é o mês de Maria, das mães e das flores.

Lourdete, irmã do saudoso e virtuoso Padre Alzir Sampaio preparava os cânticos que seriam executados durante as celebrações, aliás, o coral da Igreja era regido por ela. Talentosa tocava no harmônio os mais belos e emocionantes cantos marianos, e sempre preparou uma voz afinada e feminina para cantar a Ave Maria de Schubert, as luzes eram apagadas e um silêncio tumular se fazia dentro da bela e espaçosa Matriz, ela executava as primeiras notas no harmônio e a garota entoava afinadamente o lindo clássico de Schubert. Era arrebatadora aquela voz aos nossos ouvidos e a emoção tomava conta dos paroquianos. Eu ficava toda arrepiada, muitas vezes chorei de emoção ao ouvir tão lindo canto, e de assistir tão belo espetáculo.

O mês continuava em festa, mas, o dia mais importante e mais festejado era o dia 31 de maio. No último dia do mês todos os festejos culminavam com a coroação de Nossa Senhora, e, em Lavras sempre foi um grandioso e bonito evento religioso da Paróquia de São Vicente Ferrer, com direito a hino próprio e tudo, sim, o hino de coroação em Lavras foi escrito e musicado por Monsenhor Edmilson de Macedo, especialmente para a coroação do lugar. Um presente do monsenhor ao seu incentivador e guia espiritual Padre Alzir Sampaio, Vigário Colado de Lavras da Mangabeira por longos 33 anos.

Anualmente, uma invocação de Maria era escolhida para ser coroada. Em frente à Matriz se erguia um altar e uma equipe ficava responsável pela ornamentação, dependendo das cores da imagem escolhida toda a decoração era feita em combinação harmoniosa. Na parte mais alta ficava a imagem e nas partes mais baixas ficavam os anjos. Os anjos eram crianças vestidas com belas roupas de cetins nas cores: azul, rosa e branco e bordados com pedrarias, arminho, com direito a asas, auréola e tudo.

Os ensaios começavam 20 dias antes. Os anjos eram responsáveis pelos cantos da cerimônia de coroação, somente, o hino era executado por alguma jovem da comunidade que fosse muito afinada, nesse quesito Lourdete sempre foi muito exigente. A coroa usada para a cerimônia era de ouro com pérola, anos depois essa joia despareceu e foi substituída por uma de menor valor. A cada ano uma novidade surgia na decoração, nos cânticos e no evento em si.

Preconceituosa e muito exigente, Lourdete não admitia anjos morenos em cima do altar, com raríssimas exceções permitia que alguma criança de pele morena participasse do evento. Se ela não permitia anjos que não fossem brancos, imaginem a coroante, essa? Nem pensar. Eu fui anjo muitos anos, mas, corante, nunca. Minha cor não combinava com anjo, quem me salvava era a amizade com o padre. Meu salvo-conduto.

Como toda regra tem exceção e toda opinião é contra seu dono… Em 1976, foi inaugurada em Lavras da Mangabeira uma agência do Banco do Brasil, e o gerente era um senhor simpático, falante e muito dado, mas era negro e seus filhos também. Na intenção de agradar o recém-chegado, oferecendo o que tivesse de melhor na cidade: a melhor casa, os melhores lugares, as mais gordas galinhas, as mais saborosas frutas, pois, naquela época, e no interior, bancário era tratado como banqueiro.

Chegou o mês de maio e com ele os preparativos para o mês Mariano e a escolha dos anjos e da menina que coroaria Nossa Senhora. Acontece que o gerente tinha três filhas, duas em idade de coroar Nossa Senhora, mas, como convencer Lourdete a permitir uma mulata ser o anjo coroante.

Como tem jeito para tudo e todo mundo tem seu ponto fraco, então, vamos convencê-la de a garota coroar Nossa Senhora. Afinal, o forasteiro não era qualquer um, era um homem ilustre, era o gerente do Banco do Brasil! E depois da sua chegada a cidade já melhorara a vida de muita gente, abrindo os cofres do banco para emprestar dinheiro e ajudar no progresso da pequena Lavras.

Com muita conversa e justificativas acabaram convencendo a irredutível Lourdete que tentou resistir. Sem demora comunicaram a boa nova ao gerente que ficou satisfeito e lisonjeado da sua filha ocupar o lugar de honra no altar, e ainda coroar a Santa. Eis que surgiu um problema: a coroa de ouro e pérolas tinha desaparecido. Meio encabulados comunicaram também o sumiço da coroa, o que pra ele não foi nenhum problema, mais que depressa se prontificou a comprar e ofertar solenemente uma coroa a Nossa Senhora.
Especificamente, essa coroação foi mais solene e com um novo ritual. A coroa precisava ser entregue a Igreja de modo que a comunidade participasse e testemunhasse tão valioso presente; o jeito era bolar um cerimonial envolvendo o doador, os anjos e Nossa Senhora.
Finalmente, chegou o grande dia e tudo foi milimetricamente preparado. O altar montado em frente à Igreja, as roupas dos anjos eram confeccionadas em tons claros (azul, rosa e branco), de cetim e bordadas com muitas pedrarias e arminho, alguns anjos tinham instrumentos musicais nas mãos, outros ramalhetes de flores, e outros ainda, seguravam umas pombinhas para soltar na hora que a santa fosse coroada. A imagem escolhida para aquele ano foi Nossa Senhora de Fátima.

Uma passarela vermelha foi colocada na subida da escadaria da Igreja até o altar, onde passou um anjo com a coroa que recebeu do doador que se encontrava na frente da grande fila que ladeava o caminho por onde a coroa passou de forma que a comunidade pudesse ver. Durante o percurso o Canto da Magnifica foi executado por dois anjos que estavam aos pés do altar e abaixo da Santa.

Tudo transcorreu como esperado e programado com a mesma beleza e emoção de sempre, mas com uma grande diferença; a coroa de prata com strass não era tão valiosa quanto a anterior, mas, bastante significativa para a ocasião. Simbolicamente foi ela que quebrou a tradição de décadas, mostrando que tudo é perecível e que pode ser substituído por algo de menor valor monetário e de maior valor afetivo, e que a cor da pele não determina o caráter de ninguém, que ninguém é insubstituível e que na vida tudo passa, e o essencial é invisível aos olhos.

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