A Guerra: o Império da Estupidez

Por: Rui Leitão

Não há revelação maior da estupidez humana do que a atitude de fazer guerra. Esse instinto beligerante da nossa espécie manifesta-se de forma persistente desde o princípio da história das civilizações, como uma sombra que persegue o progresso. É o império da brutalidade que domina os sentimentos mais nobres do homem, submetendo a lógica e a ética à cruel competitividade guerreira.

Por quase nada, ou por interesses mascarados de nobreza, encontram-se pretextos para a luta armada: questões territoriais, fundamentos ideológicos, purismos étnicos, diferenças religiosas e, quase sempre, a ambição desenfreada por poder e controle econômico. A imbecilidade dos homens não encontra limites quando se decide entrar em combate. Há uma inversão de valores gritante na forma como registramos nossa própria história.

Pessoalmente, recuso-me a homenagear dirigentes políticos que arquitetam guerras e são adornados como heróis. Na verdade, o heroísmo autêntico, aquele que merece o lamento e o respeito, reside nos que, forçados pelas circunstâncias e pela engrenagem do Estado, submeteram-se a vontades políticas alheias, perdendo suas vidas em trincheiras ou voltando com feridas, visíveis e invisíveis, que jamais cicatrizam.

Estes combatentes são, na prática, “inocentes úteis”. São peças de um tabuleiro movido pela sanha da prepotência e pela insensibilidade absoluta daqueles que alimentam a cultura bélica. Os senhores da guerra operam em gabinetes refrigerados para satisfazer interesses que nada têm a ver com o que deseja, efetivamente, a sociedade civil. Não consigo, sob hipótese alguma, celebrar conquistas territoriais ou políticas obtidas à custa de verdadeiras carnificinas e do choro de milhares de órfãos e viúvas.

Abomino o estado de guerra. Não há retórica, por mais rebuscada que seja, que me faça compreender a sua razão de existir no século XXI. O ser humano nivela-se ao animal irracional no momento exato em que encontra justificativas morais para o extermínio do seu semelhante. É o domínio absoluto da insanidade; uma vocação inexplicável para a truculência e a barbárie que desmente qualquer conceito de civilidade que possamos ostentar.

Matar em nome de ideais ou interesses políticos é um crime inominável que a história insiste em relativizar. Enquanto na humanidade se revelar esse impulso primitivo para a deflagração de conflitos, estaremos nos afastando, a passos largos, da consciência necessária de paz e de uma convivência fraterna. A paz não deveria ser apenas a ausência de conflito armado, mas um estado de espírito onde as disputas alimentadas pelo desejo de superioridade perdem o sentido diante da preservação da vida.

As atrocidades dos eventos bélicos não ficam restritas aos campos de batalha; elas transbordam para o cotidiano das cidades. Elas estimulam a violência sistêmica e, talvez por isso mesmo, vivamos um momento tão assustador no que diz respeito à insegurança social contemporânea. A ação criminosa foi banalizada, o desprezo pelo próximo tornou-se comum e a vida humana passou a ser tratada como um recurso descartável.

Precisamos, urgentemente, repensar o conceito de glória. Glória não é vencer uma batalha, mas evitar que ela aconteça. Enquanto o som das armas de guerra for mais alto do que o diálogo, continuaremos sendo apenas animais tecnológicos, presos a um instinto de morte que nos impede de alcançar a verdadeira maturidade enquanto espécie.

 

“Quando a lucidez incomoda, é porque a verdade deixou de ser confortável.” Vamos ouvir 🎧 “Pesadelo” – Maurício Tapajós & Paulo César Pinheiro e continuar a reflexão.

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