O mundo feminino nos últimos séculos

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que se manter vigilante durante toda a sua vida.”
Simone de Beauvoir (1908/1986 – França)

Escritora, intelectual, filósofa existencialista.Ativista política, feminista e teórica social francesa.

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

Em muitas sociedades do mundo antigo ao contemporâneo, o sistema sócio-político do patriarcado alça os homens ao ápice do poder em todos os âmbitos, do seio familiar às altas posições em governos e instituições. Nesse sistema o papel do gênero feminino ficou relegado e subjugado durante muitos séculos, onde as relações de poder e de domínio favoreceram aos homens, cuja cultura enraizada refere-se a um padrão normativo masculinizado em relação à raça, gênero e orientação sexual. Nele, as mulheres não estão em pé de igualdade embora lutem para obter direitos semelhantes.

Infelizmente, nesse sistema patriarcal, os homens possuem o poder primário, fato refletido em todas as funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. Na família constituída, geralmente é o pai ou a figura paterna que exerce a autoridade e a decisão sobre mulheres, crianças e jovens.
Percebe-se que no Brasil essas marcas do patriarcado ainda permanecem fortes porque as mulheres continuam recebendo salários menores que os homens em cargos e atividades profissionais com designação e atribuições idênticas. As mulheres grávidas ou com filhos pequenos encontram maior dificuldade de colocação em um emprego, e principalmente, porque o seu caráter ou a sua moral, são mensuradas de acordo com regras voltadas à sua sexualidade.

Uma mulher que é independente e autossuficiente, que consegue ser a provedora do seu lar, geralmente, é alvo não apenas de certos preconceitos e tabus, como de um veio de exclusão social, sendo ainda carimbada em relação à sua vida, mesmo que aquele que a julgue não a conheça e não saiba como é o seu procedimento diário e habitual.
As religiões cristãs ou originárias do braço Abraâmico, que são o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, primam pelo patriarcado e em regra, nesses pressupostos, as mulheres são vistas como inferiores ao patamar masculino. Essa questão é notória e não pode ser desconsiderada, embora muitos queiram mascarar e romantizar todo esse peso secular imposto sobre as mulheres.

Por outro lado, através do ateísmo e do gnosticismo, bem como nas antigas tradições pagãs, a mulher mantinha uma função mais igualitária àquela do homem. Um avanço em relação à conceituação do valor e validação feminina, ocorre nas ideologias do comunismo e do socialismo, e, atualmente dentro do pensamento e do espectro progressista.

O progressismo se liga à ideia de aperfeiçoamento e desenvolvimento continuado, com adequações e adesão simultânea à própria transformação natural que ocorre na sociedade, na economia e na política, como um sistema que se retroalimenta, mantendo uma certa interdependência ou mutualidade. Possui também a ideia de comunidade, de uma rede de segurança social e de solidariedade, onde a mulher é vista com mais dignidade e oportunidade para seu avanço e suas realizações pessoais e profissionais, favorecendo sua independência financeira e social. Ela é vista como cidadã e detentora de direitos em igual patamar aos direitos auferidos pelos homens.
Nesse diapasão é necessário fazer um adendo aos conceitos de “feminismo” e de “femismo”. O feminismo é um movimento mundial que visa combater a desigualdade de direitos entre homens e mulheres. Já a palavra femismo, está associada ao pensamento que prega a supremacia da mulher em relação ao homem. Femismo é o contraponto ao machismo e estão no mesmo diapasão, porque o machismo prega a superioridade do homem sobre o gênero feminino.

Essas diferenças são essenciais para a compreensão equilibrada em relação aos direitos de cada gênero, que pela lógica e pelo princípio da isonomia ou equidade, são fundamentais e devem ser os mesmos para todos.
Os países em que a mulher gradativamente foi recebendo a devida importância e respeito, invariavelmente, estavam no âmbito de regimes que pregam o Estado laico, onde o poder e os ideários das religiões não predomina e não validam os direitos e o sistema social vigente. Logo, nesses sistemas, o avanço no papel da mulher dentro da sociedade começou a ser dignificado.

Com essa abordagem, a mulher não é apenas capaz de realizar atividades domésticas, mas, é e está potencialmente apta para o estudo, a pesquisa científica, os esportes de competição, a literatura, as artes, a inovação técnica, a capacitação profissional em todas as áreas e em todos os campos de atividade nos quais os homens ainda são maioria.

É notório que (com comprovação de documentos e fatos), o surgimento de condições de vida mais digna e de trabalho para a mulher, surgem dentro do comunismo, cujos passos e providências estão devidamente registrados nos anais da história. Sempre que a antiga URSS (União Soviética) avançava com o fomento e o incentivo de mulheres no estudo, nas universidades, no universo da pesquisa científica, nos esportes e nas olimpíadas, no espaço sideral com as primeiras e mais bem preparadas cosmonautas, no campo da escrita e nas atividades de inteligência, os EUA – Estados Unidos da América enviava uma equipe àquele país comunista para conhecer os detalhes de como eles fizeram essas inserções dentro de seu sistema de governo.

Esses levantamentos serviram de base para que a América do Norte copiasse os modelos implementados com êxito tanto da antiga URSS quanto na Alemanha Oriental. A Europa também copiou e se inspirou nos modelos soviéticos para alavancar o papel da mulher, e inclusive, implementar certos direitos laborais, antes inexistentes naquele Continente. Todo o sistema tem pontos positivos e negativos que precisam ser avaliados, validando-se os aspectos que foram proveitosos e que avançaram para melhorar alguns aspectos. Nesse ponto, a mulher conquistou seu lugar e melhorou em qualidade de vida e de importância, tanto que esse avanço foi copiado anos depois pela Europa e pelas Américas.

Não fizeram isso espontaneamente, mas, após verificar o sucesso e o avanço nos países que tiveram tal modelo implementado. Também optaram por isso como prevenção, no intuído de evitar greves, levantes, insatisfações que começavam a borbulhar nos sindicatos e nos movimentos dentro das fábricas à época da revolução industrial no ocidente, onde não haviam direitos laborais e especialmente, crianças e mulheres eram exploradas e massacradas sem possuir quaisquer condições dignas de trabalho e de vida.

Para evitar levantes, depredações e violência, o ocidente foi paulatinamente copiando tais projetos e programas para a inserção da mulher no mercado de trabalho e na vida acadêmica, com melhores condições. Foi uma luta tremenda para que mulheres tivessem direito a ir à escola, à universidade e ingressassem em atividades antes restritas e privativas aos homens. Ainda hoje existem diferenças e obstáculos à mulher em muitos países, especialmente, os menos desenvolvidos e sob regimes patriarcais mais rígidos.

Outrossim, sempre que a URSS avançava em relação à assunção da mulher em seus direitos e em suas funções sociais e profissionais, os EUA viam enfraquecido o seu “American Dream” (Sonho Americano), cujo quadro de prosperidade para o universo patriarcal estadunidense criou o modelo feminino da dona de casa exemplar, onde ela era preparada com o objetivo unicamente de se casar, de trabalhar e se firmar exclusivamente nas atividades domésticas no lar e em ser mãe cuidadosa. Essa imagem foi amplamente evidenciada e fixada através de propagandas massivas de eletrodomésticos no âmbito televisivo, em outdoors e banners, além de veiculados em periódicos impressos. O detalhe era que ela também precisaria ficar impecavelmente linda e disponível para o seu marido.

Nesse contexto, foi o pensamento do proletariado comunista que fomentou a criação de creches; a licença maternidade; a inserção da mulher nas universidades, nas escolas em todas as matérias correlatas às estudadas pelos homens (antes o currículo escolar do nível secundário da mulher era voltado para atividades domésticas); a inclusão feminina nas profissões antes exclusivas para os homens, com o objetivo de aproveitar sua inteligência, produtividade, inventividade, dando-lhe em contrapartida a tão sonhada independência econômica. Isso alavancou o status feminino e fomentou em outros países movimentos feministas que cresciam exponencialmente.

É bom lembrar que na Europa, as mulheres começam a frequentar as universidades apenas após a primeira grande guerra. No Brasil, o início do ensino superior para as mulheres se iniciou no final do Século XIX. A história registra que a primeira brasileira a ingressar na universidade aqui no nosso país, foi no Estado da Bahia, no ano de 1887, em medicina.

No que diz respeito ao Leste Europeu e Norte da Ásia, em relação aos direitos políticos femininos, o primeiro voto ocorreu em 1917, na eleição partidária em cargos eletivos, sob o regime da antiga URSS (União Soviética). A emancipação da mulher e as demandas para o direito laboral feminino começam dentro do contexto do movimento bolchevique na sangrenta tomada do poder na Rússia kzarista.

O primeiro país no mundo a garantir o sufrágio feminino foi a Nova Zelândia (Sudoeste do Oceano Pacífico), em 1893. As sufragistas na Europa (voto feminino), se constituiu como um movimento localizado na França, oficializado através da fundação da “União Nacional pelo Sufrágio Feminino”, em 1897. No Brasil, oficialmente, o primeiro voto feminino ocorreu em 1932, e, o primeiro alistamento eleitoral feminino ocorreu no Rio Grande do Norte, em 1927.

Atualmente, quem lê e estuda esses temas, sabe que nenhum movimento será igual aos antecessores, assim como todo e qualquer pensamento a respeito de espectros políticos, também jamais serão os mesmos porque eles vão avançando de acordo com o nível de conscientização de seus cidadãos (homens e mulheres), bem como em função das demandas de toda a sociedade civil (organizada ou não), que também não vive mais naquelas condições do início das rebeliões mundiais que detinham direitos mínimos.

Quanto mais a sociedade avança em consciência, ela viabilizará mais conquistas e suprirá necessidades básicas e mais sutis, de modo que de avanço em avanço, se proporcionará uma vida mais igualitária entre todos os desiguais.
Com o avanço dos níveis de consciência, a mulher da atualidade precisa buscar dentro de si o instinto da mulher original, de modo a permanecer espontânea e saudável; conquistar seu espaço na vida pessoal e profissional; desenvolver seus talentos e aptidões quebrando o enorme peso da tutela do patriarcado que sempre definiu o que ela pode ou não fazer e em que pode ou não pode trabalhar; negar-se a adotar estereótipos e clichês inferiorizados ao se libertar de padrões machistas que ainda insistem em mantê-la submetida a isso; conquistar, aprimorar e manter sua independência financeira; assenhorar-se de suas vontades, desejos, objetivos, projetos e idealização; ser a dona e a gestora de si mesma; ocupar o lugar que ela quiser, assumir-se como ela quiser, vestir-se como quer, valorizar-se em suas realizações; decidir que caminhos e destinos ela quer seguir; ter coragem de dizer nãos e de dar bastas quando lhe convier.

Com esse cenário, haverá maior respeito entre os gêneros e será viabilizada uma convivência mais harmônica. O importante é que todos possam seguir suas vidas com direitos e deveres em mesmo patamar, como seres humanos. Assim, o mundo migra para um nível de consciência mais aprimorado e uma vida mais satisfatória e equilibrada.

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