
Por: Antônio Henrique Couras
Eu já tinha tido um pequeno canteiro no jardim. Cultivava ali rosas lindas. Eu amava calçar minhas luvas e ir podar as flores velhas. Era um ritual quase silencioso. Cortar o que já tinha cumprido seu ciclo para dar espaço ao novo. Voltava para dentro de casa perfumado, como se tivesse mergulhado o rosto dentro de uma memória boa.
Até que arrancaram tudo.
Era preciso consertar uma infiltração na parede. A parede venceu. As roseiras perderam. A ignorância, que sempre chega cheia de razões técnicas, levou minhas flores embora. E eu fiquei com o cheiro delas preso nas mãos, como quem segura o eco de alguma coisa que não volta.
Anos depois resolvi replantá-las.
Escolhi outro lugar. Pleno sol, como elas gostam. Um canto onde pudessem crescer pelo próximo século sem incômodos. Eu me imaginei velhinho, encostado numa cadeira de madeira, olhando seus brotos surgirem como pequenos milagres previsíveis. Me imaginei inclinando o rosto para sentir seu perfume com a mesma devoção de antes.

Plantei rosas vermelhas, amarelas, brancas, mescladas. Todas quantas tinham na floricultura. Trouxe-as para casa como quem reúne cores para pintar um futuro.
Pouco depois o clima mudou.
Não o do ambiente. O meu.
O litoral da Paraíba tem o péssimo hábito de ser sempre lindo. Céu azul. Nuvens de algodão. Um sol que parece decidido a não falhar nunca. É impossível manter um humor correspondente. Não sei se é prerrogativa minha, mas nós, seres humanos, temos estações internas. Invernos profundos. Primaveras quase ofuscantes. Outonos serenos. Verões solares. O nosso clima muda. O de fora não.
Parece que o mundo vem munido de um estabilizador de humor potentíssimo.
Eu não.
Sucumbi à tristeza. Ao desespero. Ao medo. À desesperança. E nesse meu inverno, minhas rosas também pereceram.
Coitadas.

Tão modificadas pela mão humana, exportadas para os trópicos, dependem de rega abundante, poda atenta, adubo constante. Aqui não têm chance se não forem cuidadas com devoção. Não são flores silvestres. São delicadezas cultivadas.
Eu não pude dar a elas o que precisavam.
Deus sabe que eu não pude dar nem a mim mesmo o que precisava.
A energia que me restava era toda consumida pela tarefa de sobreviver. Respirar. Levantar. Cumprir o mínimo. Há um tipo de vida que é apenas resistência. E a energia usada para sobreviver não é usada para crescer.
Minhas roseiras sobreviveram como puderam. Galhos ralos. Folhas pequenas. Nenhuma flor. Estavam vivas, mas não floresciam. Eu também.
Mas aos poucos fui me recompondo.
Enterrei o mal. Cantei a plenos pulmões a sua morte. Sorri. Celebrei. E ainda tive a compostura de não dançar na sua cova. Há enterros que libertam.

Os velhos sonhos também foram enterrados. Mas esses eu enterrei como sementes. E sementes são uma forma de fé discreta. Todos os dias elas começaram a me proteger com sua sombra imaginada e me brindar com flores futuras. Os sonhos antigos frutificaram. Deram novas sementes. E aqui estou eu, ainda saindo do torpor do inverno, com a mão cheia delas, mas com o solo ainda seco e duro.
Minhas roseiras, por sua vez, voltaram a receber o adubo de que precisam. Regadas com profusão. Podadas com esmero. Começaram a me dar flores.
Todas elas já floriram.
A vermelha de pintinhas brancas. A amarela de bordas coral. A vermelha inteira, intensa. A amarela luminosa. A cor de rosa com pétalas de tafetá, delicadas como tecido antigo.
Não chegam nem à altura dos meus joelhos.
E ainda assim floresceram.
Como quem diz, sem palavras, que até conseguem sobreviver sem cuidado. Mas para florir precisam de esmero.
E assim percebi que não sou muito diferente disso.
Ninguém é.

A gente sobrevive à negligência. À dificuldade. À escassez. Sobrevive à tristeza que parece não ter estação de retorno. Sobrevive gastando toda a energia para continuar existindo.
Mas para florir…
Para florir a história é outra.
Flor exige água diária. Exige poda. Exige atenção. Exige que haja energia sobrando depois da sobrevivência. Crescer não é automático. Crescer é um ato de cuidado.
Hoje, quando rego minhas roseiras, não estou apenas salvando plantas. Estou lembrando a mim mesmo que resistir foi necessário, mas não suficiente. Que viver não pode ser apenas suportar o inverno.
Porque sobreviver mantém a raiz.
Mas só o cuidado faz nascer a flor




