Quando a riqueza se ergue como pirâmide e a base sustenta o peso do mundo
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Por: João Vicente Machado Sobrinho
A concentração de renda, uma das práticas mais acintosas do liberalismo capitalista, não é apenas um fenômeno econômico: é uma engrenagem estrutural que molda a política, que redefine a democracia, que corrói e lesa o tecido social. Quando a riqueza se acumula em mãos de poucos, o custo dessa acumulação não é individual — é coletivo. Pagam-se com: diversos serviços públicos precarizados, mobilidade social reduzida, violência crescente e instituições capturadas.
Os poucos beneficiários já não conseguem mais escamotear o esbanjamento e, vez por outra temos notícias de: moradias luxuosas, casamentos de alto padrão, aniversários opulentos, vestuários de alta costura, viagens paradisíacas entre outros exageros.
No caso brasileiro, marcado por heranças coloniais e escravocratas, a desigualdade endêmica, não é um simples acidente histórico, porém um traço persistente da formação nacional, como já alertava Celso Furtado ao analisar o subdesenvolvimento como estrutura e não como etapa transitória.
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Paraisópolis x Morumbi em São Paulo capital
A lógica política e econômica da concentração de rendas é inerente às dinâmicas de acumulação capitalista. O filósofo Karl Marx advertia com insistência, que o capital tende à centralização e à concentração, pois a lógica da concorrência elimina os menores e fortalece os maiores.
Essa tese é perfeitamente constatável na época contemporânea e tem como exemplo bem claro essa concentração de farmácias alopáticas em forma de holding. Farmacêuticos titulados que eram famosos em épocas passadas, que manipulavam com maestria as suas fórmulas, eram proprietários de uma única botica. Com a concentração do capital e a cartelização, viraram simples empregados e balconistas das grandes redes, cujos donos muitas vezes, sequer farmacêuticos são.
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Um só cruzamento com uma farmácia em cada esquina.
São catalogados nos registros históricos, nomes como: Candido Fontoura, famoso criador do Biotônico Fontoura em São Paulo-(SP), José Antonio Coxito Granado, criador de diversos produtos Granado no Rio de Janeiro-(RJ); Antônio Rodrigues Ferreira, que foi dono de uma farmácia na praça que hoje tem seu nome em Fortaleza-(CE); Teófilo Siqueira no Crato- (CE), José Gonçalves Linhares em Lavras da Mangabeira-(CE), Antônia da Costa Araújo, em Tauá-(CE), Candido Lavor em Jucás-(CE), Ovídio Duarte em Serraria-(PB) entre outros.
A dinâmica da concentração de renda produz efeitos nefastos à população mais necessitada, tais como: compressão da renda e do trabalho; fragilização da classe média; acúmulo patrimonial intergeracional. O resultado dessa prática não é apenas desigualdade estatística-é assimetria de poder.
Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, conseguiu demonstrar empiricamente que, quando a taxa de retorno do capital supera o crescimento econômico (r > g), a desigualdade tende a aumentar estruturalmente. É isso que vem acontecendo em todos os países que resolveram adotar, obedientes e disciplinados, os pressupostos do neoliberalismo gestado no nocivo Consenso de Washington. A riqueza material acumulada por esses países, não tem construído nenhuma riqueza nova e tem como única função é a usura que nada gera de material.
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O tema ora abordado, tratando da assustadora concentração de renda, não tem recebido por parte dos donos dos meios de comunicação, a verdadeira tradução. Quando a situação se agudiza e se torna impossível continuar a esconde-la, a discussão emerge e as forças do aparelho ideológico do estado capitalista entram em cena. A estratégia tanto da imprensa oficial quanto das milícias digitais orgânicas, é aterrorizar os desinformados com todo tipo de espantalhos econômicos e financeiros. Eles se manifestam num economês inacessível ao cidadão comum com verbetes como: liquidez; indexação, cambio, balança comercial, selic, volatilidade, alavancagem, déficit primário e nominal, amortização etc.
O receituário prescrito como panaceia pelos agentes financeiros para ser cumprido pelo Estado é: mais e mais desregulamentação, corte de gastos públicos, rigorosa e draconiana responsabilidade fiscal que proteja o capital, aumento das taxas de juros, enxugamento da máquina pública, contingenciamento de verbas destinadas aos serviços públicos, privatização de ativos ente outras.
Como muito bem argumenta Robert Dahl, democracia requer relativa igualdade política. Quando a riqueza prioriza a compra de influência, o princípio “um cidadão, um voto” se converte em “um real, múltiplas vozes”.
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A face cruel da miséria! Isso é justo?
Financiamento estratosférico de campanhas políticas, lobbys e capturas regulatórias tornam-se instrumentos de reprodução do poder econômico. O custo social e urbano desse projeto draconiano são: altos níveis de desigualdade associados a: maior violência, segregação espacial, encarceramento em massa e a deterioração da confiança social.
O sociólogo Zygmunt Bauman alertava que as sociedades profundamente desiguais produzem “vidas descartáveis” e populações estruturalmente excluídas.
Em termos de custo econômico, paradoxalmente, a concentração excessiva reduz o próprio dinamismo da economia, de modo que sem uma demanda robusta, o mercado interno enfraquece e sem investimento social a produtividade estagna. O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz ensina que desigualdade elevada compromete o crescimento sustentável, pois mina o capital humano e a estabilidade institucional.
A despeito de tudo isso, a lógica liberal capitalista se fragiliza ao ponto de tornar-se insustentável. Não é mais possível esconder o empobrecimento gradual e crescente de grande maioria da humanidade. Tudo quanto foi prometido pelo liberalismo no século XVIII, três séculos depois ainda não foi entregue. Até as vitrines mais sofisticadas do capitalismo revelam fragilidades sociais significativas, muito comum nos países periféricos, onde são mais acentuadas.
O iconográfico que se segue mostra visualmente como acontece a distribuição de toda riqueza disponível com a população universal, no ano de 2024:
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1-No pico da pirâmide, 1,6% % da população acumula 48,1 % da riqueza mundial;
2-Na fatia piramidal abaixo, 16,4%, acumula
39,2% da riqueza;
3 – Na terceira fatia, 41,3% da população acumulam 12,1 %;
4- Por fim na quarta base piramidal, a maior delas, 40,7 % da população acumula, pasmem, 0,6 % de toda riqueza mundial.
Enfim, podemos afirmar endossados pelas estatísticas que, 82 % da população mundial se situa entre pobres, muito pobres e miseráveis. 16,4 % é ocupado pela famigerada classe média média e média baixa, e apenas 18% é o nicho pertencente à classe média alta e rica que abocanha 84,3 % da riqueza mundial.
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No Brasil, O índice de Gini, um indicador clássico de desigualdade (onde 0 = igualdade perfeita e 1 = desigualdade total), caiu nos últimos anos, chegando a aproximadamente 0,506 em 2024 — o menor nível desde 2012, segundo dados oficiais do IBGE. Apesar dessa redução, esse patamar ainda é elevado se comparado com outros países da América Latina e do mundo, o que mostra que a desigualdade permanece estruturalmente alta no Brasil.
Em 2024, a renda domiciliar per capita alcançou o maior nível da série histórica recente (cerca de R$ 2.020 mensais), reflexo de um mercado de trabalho mais aquecido e de políticas sociais. Além disso, a taxa de extrema pobreza recuou de cerca de 25% nos anos 1990 para menos de 5% da população atualmente.
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Portanto, ao contrário do senso comum, a concentração de renda não é neutra. Ela reorganiza o poder, redefine prioridades e molda o horizonte das possibilidades nacionais. Quando a distribuição de rendas é seletiva e a riqueza é para poucos, resulta em: democracia tensionada, crescimento limitado e coesão social fragilizada. O custo recai sobre todos — inclusive sobre os próprios detentores do capital, pois sociedades profundamente desiguais são estruturalmente instáveis.
Por fim, se o desenvolvimento é mais que crescimento do PIB — se envolve dignidade, mobilidade e cidadania — então enfrentar a concentração de renda não é opção ideológica, mas imperativo civilizatório.
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Referências:
O capital. Karl Marx: livros 1-2–3 | Amazon.com.br;
Formação Econômica do Brasil. Celso Furtado – Galvão – Garimpo Cultural;
Teoria e Politica Do Desenvolvimento Econômico Celso Furtado PDF | PDF;
O Capital no Século XXI. Thomas Piketty- Edição Exclusiva Amazon | Amazon.com.br;
Fotografias:
A fronteira entre a favela de Paraisópolis e o bairro do Morumbi gerou uma das mais impactantes imagens sobre a desigualdade brasileira | Gshow;
Um cruzamento com uma farmácia em cada esquina – Pesquisar Imagens;
Imagens devastadoras em lixão dão rosto à fome no Brasil;
Apenas 1,6% de todos os adultos do mundo possuem 48,1% de toda a riqueza pessoal do mundo – AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobrás;




