Água e civilização: Planeta em estresse Hídrico

Por: João Vicente Machado Sobrinho

A água sempre foi símbolo de vida, fertilidade e permanência. Das primeiras civilizações da Mesopotâmia às margens do Nilo, às metrópoles contemporâneas dependentes de complexos sistemas de abastecimento de água, a história humana sempre foi vinculada à disponibilidade hídrica. Observemos que os grandes aglomerados urbanos instalados ao longo dos séculos, sempre tiveram a cautela de se assentarem próximos de fontes, de reservatórios e de cursos de água. No entanto, o século XXI inaugura um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanto avanço tecnológico e, ao mesmo tempo nunca estivemos tão próximos de uma crise estrutural de água doce.

Em sendo a água um recurso natural essencial, porém limitado, se o binômio consumo x população crescente não for cuidadosamente equacionado a humanidade irá marchar, inexoravelmente, para a escassez.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), bilhões de pessoas vivem atualmente sob condições de estresse hídrico severo e o problema já  não é uma projeção distante, mas uma realidade em curso. O Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, tem alertado repetidamente: para o aumento do aquecimento global; para a alteração radical do regime de chuvas e; para o comprometimento e esgotamento dos aquíferos subterrâneos. Como advertiu o ex-Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon:

“A escassez de água é um desafio global que ameaça à paz, a prosperidade e o desenvolvimento sustentável.”
A despeito do prenuncio de um colapso iminente, autoridades e uma parcela significativa da população, alheias à esta ameaça, parece tratar essa questão fundamental como um fenômeno episódico distante e não como um grave problema estrutural. A crise hídrica é sempre percebida como evento regional cirúrgico —uma seca aqui, uma enchente ali, uma tempestade acolá — quando, na verdade, esses fenômenos juntos, resultam de uma transformação sistêmica do equilíbrio climático do planeta como um todo.

Antes de penetrar na essência da nossa tese, precisamos fazer um balanço hídrico de toda água doce disponível na natureza, da forma como ela é naturalmente distribuída e como é possível obtê-la para ser purificada, utilizada e devolvida à natureza relativamente pura.

O iconográfico anterior é uma demonstração visual muito clara,  de que a água doce disponível no planeta terra, representa apenas 2,5% da totalidade do planeta, com menos de 1% diretamente acessível para o uso humano e animal (UNESCO, 2023).

Ocorre que, o aumento da temperatura média global intensifica e acelera a evaporação, reduz a recarga dos aquíferos, provoca eventos extremos como escassez prolongada e enchentes concentradas.

Segundo relatório da UNESCO (2023), a demanda mundial por água, tem crescido em ritmo superior ao crescimento demográfico. A agropecuária responde por cerca de 70% do consumo global de água doce, o que evidencia a centralidade e importância do debate sobre a sustentabilidade hídrica e o futuro das próximas gerações.

O economista ambiental Lester Brown (2012) adverte que as futuras crises alimentares que se prenunciam, poderão estar intensamente associadas à escassez de água e serem mais importantes do que à limitação territorial. Em assim sendo, a crise hídrica transcenderá o campo ambiental, alcançando significativas dimensões econômicas e geopolíticas.

Se a demanda por água se limitasse apenas ao uso doméstico, a oferta estaria assegurada por muito mais tempo, haja vista o consumo aparentemente modesto de 10%. Todavia há outras necessidades vitais que são muito mais exigentes do que o consumo humano, como é o caso da agropecuária que consome 70% e o processo industrial que consome 20%.


Para que tenhamos uma ideia de grandeza, entre os anos de 1960 e 2020, a retirada global de água doce da natureza, mais do que dobrou. Ou seja, enquanto a população cresce em ritmo mais ou menos aritmético, a demanda por água potável  cresce em nível mais ou menos geométrico, para uma quantidade total de água que é constante. Esses fatores, sem nenhuma dúvida comprometem a regularidade do suprimento e abastecimento, ampliando a insegurança alimentar e por conseguinte a existência. Consumo x População entre 1960/2025

A hipótese de escassez definitiva, se delineia quando partimos da hipótese de que a crise hídrica global é amplificada por modelos de desenvolvimento insustentáveis, pela má distribuição territorial dos recursos e por déficits institucionais na gestão da água. A mudança climática, além de indicativo é um fator agravante, mas não exclusivo.

Uma pesquisa esclarecedora e realista sobre essa temática, deverá adotar uma abordagem qualitativa e quantitativa, estruturada em três princípios fundamentais:

. A revisão bibliográfica de obras clássicas e contemporâneas sobre a questão dos recursos hídricos, a governança ambiental e as mudanças climáticas;
. A análise documental dos relatórios de Órgãos Oficiais tais como a UNESCO, o IPCC, a Agência Nacional de Águas (ANA) e o IBGE;
. O levantamento estatístico comparativo, com dados de disponibilidade hídrica per capita, consumo setorial e frequência de eventos extremos.

O Lago da Represa Hoover no Rio Colorado-USAN, no nível mais baixo da história.

A água, inquestionavelmente é um recurso estratégico insubstituível e essencial à estabilidade social e econômica do planeta como um todo. A grave crise hídrica que se delineia e já se manifesta, por mais relativizada que venha a ser, assume uma dimensão civilizatória. Se medidas estruturais não forem adotadas — planejamento integrado; preservação ambiental; modernização da irrigação; além de educação para um consumo consciente — o século XXI poderá ser marcado por conflitos e desigualdades ampliadas.

A pergunta que se impõe e não quer calar é-se haverá crise, e qual será a capacidade institucional de enfrentá-la. A crise da água não é um evento futuro — é um processo em curso. Ignorá-la é optar por transferir às próximas gerações o custo da negligência presente

O século XXI será definido pela forma como as sociedades enfrentarão três eixos estruturais: clima, energia e água. Entre eles, a água é o elemento vital, insubstituível e inegociável.

Se a humanidade conseguiu construir cidades inteligentes, explorar o espaço e desenvolver tecnologias digitais sofisticadas, é inadmissível que venha a falhar, justo na gestão do recurso mais elementar à vida.
O alerta está dado e a pergunta que não quer calar permanece é: reagiremos por consciência ou apenas por colapso?

 

A Última Fonte

A água corre silenciosa
entre montanhas e cidades,
carregando a memória antiga
de todas as civilizações.

Foi à beira das águas
que os povos aprenderam a viver,
e será diante de sua escassez
que aprenderão, enfim, a preservar.

Porque quando a última fonte secar
e o último rio perder o seu curso,
não faltará apenas água à Terra —
faltará futuro à própria humanidade.

                                                                       João Vicente Machado Sobrinho
                                                                              Curadoria — Gorette Wanderley

 

 

 

 

Referências:
Hidrologia-Lucas Nogueira Garcez, Editora Blücher
Manual de Hidráulica-Livro: José Martiniano de Azevedo Neto;
Uma verdade inconveniente: O que devemos saber (e fazer) sobre o aquecimento global-Al Gore;
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA);
Manual de tratamento de águas residuárias de Karl e Klaus R. Imhoff 6386940 | Shopee Brasil;
Greenpeace Brasil;

Fotografias:
Distribuição da água no mundo – Brasil Escola;
Consumo consciente da água é estimulado por de iniciativa da Acqualimp;
Decrescimento. IV – Os limites da água | Unicamp;
Maior reservatório de água dos EUA está no nível mais baixo da história;
Ouça a voz do planeta: é hora de agir pelo clima – Gazeta da Semana;

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