A flor das calçadas

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

Entre a calçada e o meio fio de inúmeras ruas na minha cidade de origem, há uma flor silvestre que cresce faceira. Para muitos ela embeleza e proporciona o prazer de vê-la na sua natural exuberância. Enquanto para outros, ela é considerada um problema a ser corrigido com roço constante. Apenas para poucos, ela tem alta serventia no uso medicinal em laboratórios e marcas de medicamentos.

Ela possui vários nomes: Turnera subulata, flor das calçadas, chanana ou flor do Guarujá. É polinizada por inúmeros insetos, incluindo as valorosas abelhas. Partes da planta são transportadas por formigas que a adoram, porque têm alto nível de energia (lipídios).

O extrato de suas folhas é administrado no tratamento de diversas doenças, a exemplo do diabetes, da hipertensão, de gripes, de dores crônicas, de inflamações, até mesmo em formações tumorais. Na forma de chá ou infusão de suas folhas, ela serve para eliminar cólicas menstruais. A planta é também antioxidante, antiinflamatória e antibacteriana. Ela é comestível, aromática e medicinal.

O que me chama a atenção nessa planta que cresce até cerca de 80 centímetros na altura, é a robustez de sua floração, o verde e o vigor de suas folhas e caule, suas frondosas touceiras. Elas parecem surgir do nada e se apresentam garbosamente recheadas com flores de pétalas aveludadas bem torneadas e definidas, tendendo ao tom branco perolado ou ao amarelo suave, com tom escuro no miolo (centro), na cor castanho ou violeta forte.

Outro aspecto que me traz admiração é que ela é muito resistente e se mantém florida durante o ano inteiro – uma estabilidade harmoniosa e perene. Suas flores se abrem felizes logo cedo e começam a se fechar perto do meio dia. Mesmo na falta de regas ou de chuvas, ela sobrevive e se mantém erguida e viçosa.

Ela cresce nas brechas existentes entre a calçada e o calçamento, em terrenos baldios, sem nenhuma rega ou adubação de solo, mantendo-se verde e florida apesar de quaisquer condições desfavoráveis.

Ao observá-las em um percurso numa área em que transitei, vi que havia alamedas imensas delas em um cenário que me pareceu obra de paisagismo ou coisa programada, feita de caso pensado.

Mas, não… Era um surgimento natural, adaptado ao espaço que havia, como fluxo e produto da natureza, da vontade de crescer e de ser plena, originada da própria planta, tendo por colaboradores ativos os seus diletos agentes polinizadores.

Pensei por um momento: quero ter essa tenacidade, resistência, impetuosidade, essa robustez e essa presença que se firma sem precisar da permissão ou admissão do mundo.

Ela se basta e seus colaboradores são voluntários que executam seu trabalho em parceria harmoniosa, oferecendo seu suporte por relações de reciprocidade.

E nesse prisma eu cheguei a concluir que a natureza está sempre nos ensinando. Basta um olhar contemplativo e receptivo sobre ela, para que revelações se façam claras, que lições nos sejam dadas, que reflexões e insights acionem nossa compreensão e alcances.

Ao avaliar a vida sob esse ponto de vista, podemos descobrir quem ou quais pessoas estariam dispostas a estar e a estabelecer uma interação natural de cooperação e mutualidade nesse modelo. Seria um encontro ou conexão para ser e exercer esse tipo de parceria inigualável e rica de significado, cada parte contribuindo para a plenitude de um projeto, sonho, meta, atividade, ideal ou de uma vida compartilhada.

🌼 Essa flor também se escuta…
🎧 A Flor Xanana — Carlos Zens

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo