O amor que se torna pesadelo

Por: Neves Couras;

O sonho de casar-se com o amor da sua vida, amparado pela beleza, pela educação e pela tradição familiar, muitas vezes também desmorona. Durante muito tempo, estávamos acostumados a ver nos noticiários e nas redes sociais casos de feminicídio e violência contra a mulher associados, principalmente, às camadas mais vulneráveis da sociedade, onde faltam oportunidades, segurança e acesso à informação. Porém, a verdade é que esse problema sempre existiu em todas as classes sociais, inclusive entre as mais abastadas. A diferença é que, nesses ambientes, a violência era frequentemente abafada para manter as aparências, impedindo que muitos casos chegassem ao conhecimento público.

Atualmente, vez ou outra, os personagens mudam, a classe social muda, mas a mulher continua sendo “saco de pancada” nos relacionamentos. Sabemos que as estatísticas não são reais, pois a mulher ainda tem medo e vergonha de se expor em uma delegacia para falar de suas fragilidades.

Sabemos que a verdade sempre aparece. Não só nos relacionamentos, mas em muitas situações em que a maioria da população tinha como ídolos casais famosos, vistos como exemplos de casamentos perfeitos. Ainda bem que isso também está mudando. Mulheres estão realmente ocupando seu lugar de poder, e sua autoestima vem prevalecendo.

Nós, mulheres, fomos criadas para obedecer e fazer tudo para o casamento durar. Esse peso caiu sobre nossos ombros, e a sociedade acaba exigindo esse comportamento como se nós, mulheres, não tivéssemos o direito de viver com respeito e dignidade.

Também fica em nossas costas, no caso da separação, a responsabilidade pelos filhos. Conheço casos em que o ex-marido, ganhando apenas salário mínimo, fica com a obrigação de pagar 27% desse valor para o sustento dos filhos, ficando a cargo da mulher toda a responsabilidade. Como sustentar um filho com esse valor?

Gostaria muito de saber por que certos homens, para se sentirem “machos”, precisam bater em suas mulheres para se sentirem “maiores”. Melhores jamais serão. A mulher, desde que adquiriu direitos iguais aos do homem, só ficou com a parte maior da responsabilidade. Mesmo assim, precisamos nos solidarizar e apoiar as mulheres em caso de abuso, pois, se eles querem sacos de pancada, as academias estão cheias deles.

O narcisismo sempre existiu, mas só agora está sendo mais estudado. Acredito ser uma enfermidade que precisa ser tratada. Não somos troféus para homens exibirem para a sociedade e para os amigos.

Um casamento em que o casal pode dialogar e se respeitar mutuamente é o caminho para uma vida de paz. Caráter não muda, e precisamos lembrar que os filhos que temos nós os preparamos para serem os homens e as mulheres do futuro.

Se o lar paterno é desarmônico e a mãe é tratada como um móvel da casa, esse modelo será repetido posteriormente.

Precisamos acreditar que ainda existe a possibilidade de casais se amarem de verdade e se respeitarem. O mínimo sinal de desrespeito deve ser um alerta. Quem desrespeita uma vez, vai repetir, e cada vez mais a agressão tende a aumentar.

Tive uma amiga que foi uma das mulheres que mais me ensinaram. Ela sofreu por mais de quinze anos em um casamento em que era uma verdadeira prisioneira. Certo dia, já tão sem forças e sem rumo, colocou o almoço dos filhos, saiu pela porta dos fundos, andou mais de 16 km para chegar à casa de um familiar e nunca mais voltou para casa. Não tinha documentos, nem roupas, e seus dentes estavam todos com problemas. Quem a visse não acreditaria que era uma mulher que havia se casado com um homem de família tradicional da Paraíba, cheia de privilégios e prestígio.

Final da história: ele desenvolveu um câncer e, já nos últimos dias de vida, pediu que a localizassem para que ela retomasse sua casa e os filhos. Ela voltou já recuperada, com curso superior. Os filhos não iam à escola porque o pai não deixava. Ela os educou em casa até poderem ir à escola.

Estão todos formados. Ela, quando melhorou um pouco de vida, desenvolveu um câncer e partiu. Alguns podem até tê-la julgado, mas foi a forma que ela encontrou de viver. Não devemos julgar nenhuma mulher por certos atos, pois não sabemos o que ela vive ou viveu entre quatro paredes. Por isso, Jesus pregou tanto o amor. O amor-próprio em primeiro lugar. Ninguém pode salvar alguém se não consegue salvar-se em primeiro lugar.

Aproveito para prestar minha homenagem a “Maria”, minha amiga e a mãe mais corajosa que já conheci.

 

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