Enquanto a noite não chega

Por: José Nunes;

No entardecer de nossa vida voltamos o olhar ao passado buscando lenitivo, porque agora é tempo das lembranças esperando o apagar das estrelas na longa noite que, desejamos, demore até o limite da bondade de Deus.

Pois nesta tarde, no embalo das lembranças, voltei à Serraria onde, molecote, corria aos partidos de cana do engenho Taquio para chupar cana caiana, ou quando debandava para catar cachos de banana madura. Bom mesmo eram os banhos no açude de tio Pedro Mendes ou na cacimba existente entre o capim-elefante, cercada com palha de coco-catolé. Uma aragem sadia se espalhava em redor aquecendo nosso corpo.

Enquanto vou preenchendo o papel em branco à minha frente, as recordações escorregam mesmo as percebendo distantes. As nuvens da vida não cobriram aquilo que o menino de dez conseguiu grava na retina. Serraria do meu tempo anda comigo.

Nas manhãs de domingo bom era ir à feira em Serraria, quando não ficava acompanhando a movimentação na bodega de papai, sempre num rebuliço com as presenças de gentes da vizinhança que vinham fazer suas compras.
Quantas conversas agradáveis se ouviam, histórias que se passavam com as pessoas que moravam nos sítios e nos engenhos próximos. O reencontro destas pessoas sempre era movido por boas palestras.

Nos anos adolescentes, tendo ido morar em Arara, sua feira passou a ser lugar onde frequentava mesmo não fazendo compras. Como ainda hoje faço, no meu vagar aprecio andar por entre as barracas de bugigangas, passear pelo curral de gado, tomar café com tapioca nas latadas cobertas de palha de coco na beira da rua.

Outro lugar apreciável é caminhar pelo mercado, cumprimentando gente conhecida e comer farinha seca tirando punhado do saco, enquanto tomamos conhecimento dos acontecimentos do dia-a-dia da cidade e sabendo como vão os preparativos para os plantios no campo.

No pé do balcão as conversas esticadas descambam para os segredos das negociatas de políticos. Mas o foco era o inverno que chegou depois de uma longa espera, mas nos baixios o feijão enramando, abrindo o pendão do milho.
Dou uma parada para escutar o propagandista exibindo plantas capazes de curar todas as moléstias, competindo com as rezas para curar dores do corpo com galhinhos de vassourinha verde.

Tanta coisa para recordar na proximidade do meu entardecer. Quero voltar para junto de minhas paisagens, dos eucaliptos, escutar o rumor da água nos riachos, contemplar o pôr do sol avermelhado descentre por entre as serras de minha terra.

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