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O Bacharelismo na descendência de Dona Fideralina

 Que ser doutor, o meu pai tinha razão. (Paulinho da Viola)

Por: Cristina Couto

   Os tempos vividos por Dona Fideralina eram outros, no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Lavras da Mangabeira viveu seu apogeu político. O efervescente conflito entre o rosário dos beatos, a ponta do punhal dos cangaceiros e o bacamarte dos coronéis, mostraram ao Ceará o grande domínio que o Cariri Cearense detinha naquela região. Os símbolos, os mitos e as crenças determinaram os mandatários locais e a troca de favores em nome do poderio político e econômico. 

 Conhecedora da fragilidade do rosário dos beatos, da pouca consistência do punhal dos cangaceiros, e dos dias contados do bacamarte, a matriarca da família Augusto não perdeu tempo, nem o poderio, tratou de educar e formar seus filhos e netos para que eles continuassem no poder, desta vez através da caneta, do conhecimento e do anel.

 De toda ancestralidade dos Augustos, nenhum valorizou tanto a educação como o casal, Major Ildefonso Correia Lima e Dona Fideralina Augusto Lima, pois fizeram questão de formar seus filhos e netos. Documentos de matrículas, livros de notas, cartas de recomendação e cópias de teses de doutoramento, tanto do seminário do Crato como da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, comprovam a estadia dos seus filhos e netos nesses estabelecimentos de ensino.

    Encontra-se no acervo documental da Cúria Diocesana de Crato uma carta de recomendação assinada pelo Major Ildefonso Correia Lima, datada de 16 de março de 1875, encaminhando seu filho para estudar no Seminário São José. Pela redação do documento, esse filho já estudava no Colégio da vizinha cidade de Cajazeiras no Estado da Paraíba, e estava sendo transferido para o Seminário de Crato. Ainda que não conste o nome do referido filho na redação da carta, foi através das notas de aula, também encontradas na Cúria Diocesana do Crato, que se pode ver pela data que lá estudou Ildefonso Augusto Lima nos anos de 1875 (1º ano), 1876 (2º ano) e 1877 (3º ano). Apenas não se tinha conhecimento da sua passagem pelo Colégio de Cajazeiras, comprovando que não somente seu irmão, Gustavo Augusto Lima, foi aluno do Colégio Padre Rolim, como Ildefonso também. 

    Depois de concluir o ensino primário, Ildefonso Correia Lima se transferiu para o Liceu do Ceará, no qual esteve matriculado até 1879, fez curso superior no Rio de Janeiro na Faculdade de Medicina e colou grau em 1885. Segundo Dimas Macedo no livro Lavrenses Ilustres: “Perante a Congregação da citada Faculdade, aos 28 de setembro do ano da sua formatura, defendeu a tese – Dos Progressos Recentes na Operação de Litotrícia, obtendo, dessa forma, o título de Doutor em Medicina. ” (MACEDO, 2010, p. 39)

  Os filhos, Gustavo Augusto Lima e Honório Correia Lima, aprenderam as primeiras letras em sua terra natal, o primeiro foi concluir o seu aprendizado em Cajazeiras, na Paraíba, no tradicional Colégio do Padre Inácio de Sousa Rolim, e o segundo matriculou-se no Internato do Colégio Sagrado Coração de Maria, na cidade do Crato, onde concluiu o seu aprendizado. Vocacionados para a política e para o comércio; regressaram a terra natal onde exerceram altos cargos políticos e tiveram sucesso como comerciantes.

   Dos filhos de Dona Fideralina, Francisco Augusto Correia Lima foi um intelectual eminente e um homem cujas virtudes assomam como exemplo de obstinação e testemunho de fidelidade à causa da sociedade lavrense. Certamente, deve ter tomado o contato com as primeiras letras em sua terra natal, assim como seus irmãos, e depois se transferiu para Fortaleza, onde se matriculou no Liceu do Ceará e concluiu os estudos secundários. Orientado pelo seu irmão, Dr. Ildefonso Correia Lima, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ali ingressando no curso de bacharelado de Ciências e Letras do Colégio Pedro II, onde foi aluno do renomado filólogo brasileiro Carlos de Laet, de quem herdou o gosto pela erudição e o idioma pátrio, tendo, inclusive, viajado para Paris, onde se aprimorou no cultivo da língua francesa, idioma que falava fluentemente. 

    A tradição e a consciência de educar que Dona Fideralina tinha continuaram com seus netos. Em 08 de janeiro de 1876, nasce seu primeiro neto varão, Ildefonso Augusto de Lacerda Leite, rebento cuidado e educado debaixo dos olhos da avó. Estudou as primeiras letras em Lavras, depois foi para o Seminário do Crato, onde fez o primeiro (1888), segundo (1889) e terceiro (1890) ano do ensino primário, segundo afirma o livro de notas de aulas dos alunos do Seminário São José, em que consta o nome e notas do referido aluno. Deixou o Seminário de Crato e transferiu-se para Fortaleza, matriculando-se no Seminário da Prainha, onde estudou humanidades e iniciou os estudos secundários. Devido às discórdias que tinha com seus colegas seminaristas e seus professores padres, afirmação feita pelo próprio Ildefonso, no prólogo da sua tese de doutoramento, foi transferido para o Liceu do Ceará, onde concluiu o ensino secundário e fez os seus preparatórios em fins de 1893. 

    Em 1894, seguiu para o Rio de Janeiro, em cuja Faculdade de Medicina doutorou-se em 1899, havendo, aos 17 de janeiro de 1900, perante a congregação da citada Faculdade, defendido a tese Ensaios de Filosofia Natural, editada pela Tipografia Guimarães, que hoje compõe o acervo de teses antigas da Universidade de Medicina no Rio de janeiro.

    Em 1913, tendo defendido a tese de doutoramento – Reacção Collargo-Precipitante; colou grau na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro mais um neto de Dona Fideralina, Domingos Carlos Gerson de Saboia, filho de Dr. Gilberto de Saboia e Josefa Augusto de Saboia.

    Duas netas de Dona Fideralina concluíram nível superior, Maria Luiza de Saboia e Fideralina Teresa de Saboia Campos. A primeira ingressou na Faculdade de Direito do Amazonas, por onde Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 5 de dezembro de 1917, foi a primeira mulher a se formar em Direito no Estado do Amazonas, bem como a primeira cearense a graduar-se nessa profissão.  A segunda graduou-se odontóloga em 29 de janeiro de 1916, sendo a primeira mulher a se formar em Odontologia no Amazonas, bem como a primeira cearense a diplomar-se nessa profissão e, a primeira lavrense a graduar-se em curso de nível superior.

    Da descendência da velha matriarca lavrense, pode-se destacar nomes como Dr. Melquiades Pinto Paiva (cientista e pesquisador, elaborou e implantou o curso de Engenharia de Pesca na Universidade Federal do Ceará, foi também, o criador do LABOMAR) renomado, senador Almir dos Santos Pinto (médico, prefeito de Maranguape, deputado estadual foi presidente da Assembleia Legislativa do Ceará por três legislaturas sucessivas e senador), Dr. Vicente Férrer Augusto Lima (advogado, intelectual, prefeito de Lavras da Mangabeira, deputado estadual e federal, senador, secretário de vários governos no Estado do Ceará) Dr. Joaquim Bastos Gonçalves (Advogado, Promotor de Justiça, Juiz de Direito, Prefeito de São Benedito, deputado estadual, Presidente e vice-presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, Juiz do Tribunal Regional Eleitoral, Ministro do Tribunal de Contas do Estado, deputado federal, secretário de estado e senador), Dr. Prisco Bezerra (Agrônomo, professor, vice-reitor de planejamento e finanças e pró-reitor de planejamento, membro do Conselho Estadual da Agricultura, membro da Junta Governativa da Ancar – Ceará, posteriormente denominada Ematerce, e presidente de seu conselho deliberativo por vários anos. AP/LF), Dr. Roberto Claudio Frota Bezerra (Agrônomo, reitor da Universidade Federal do Ceará com dois mandatos consecutivos (1995 a 1999 e de 1999 a 2003, Assessor para programas especiais do MEC e consultor em alguns projetos do Banco Mundial e do BID, Membro do Conselho Nacional de Educação, onde no início do mandato foi eleito vice-presidente da Câmara de Educação Superior), senador Elmano Férrer de Almeida (Agrônomo, superintendente da EMBRAPA no Piauí, prefeito e vice-prefeito de Teresina/PI), dentre outros.

    Muitos sobrinhos, netos, bisnetos e toda sua descendência acabaram herdando dela o gosto pelos estudos e valor pelo bacharelado. Ainda nos dias atuais, a família conta com muitos médicos, advogados, engenheiros, altos funcionários públicos, além de políticos que fizeram e fazem a história do Ceará e do Brasil. Não foi por acaso que nas eleições de 2012, de norte a sul cearense um descente de Dona Fidelina foi eleito para governar.  Além disso, dois dos seus descentes concorreram à prefeitura de Fortaleza, Heitor Férrer e Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra. Vale lembrar que os dois são médicos e gozam de largo prestígio na política cearense, assim como foram seus ancestrais.

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