Desconfiança x Integridade de Alma

Por: Mirtzi Lima Ribeiro;

Estamos em um momento da sociedade onde existe um abismo quanto a confiar na integridade do outro, e se desconfia de tudo por causa de uma parcela de indivíduos que agem sem escrúpulos, se aproveitando da utilidade de outros ou mesmo agindo com maquinações e joguinhos para se sair bem ou aparentar algo que não existe.

A minha geração lembra muito bem de uma propaganda veiculada em 1976 por uma companhia de cigarros, que protagonizou uma tal “Lei do Gérson”, cujo jargão era: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. A ideia por trás dela buscar algum ganho à semelhança do lance de futebol porque o “garoto propaganda” era um jogador que ganhou fama por ser mestre em cavar oportunidades em campo. Entretanto, essa publicidade ficou carimbada pelo lado pejorativo. E parece que uma parcela da sociedade contemporânea incorporou esse viés do slogan.

Apesar disso eu acredito que a maioria das pessoas no mundo, não se utiliza desse lema pitoresco, sem noção de civilidade, de honradez e ausente de integridade.

Eu tenho fé na alma humana e talvez seja isso que me faça acreditar que a essência, o coração de muita gente, ainda é generoso. Não vou dizer que eu seja uma crédula inocente, não, não sou. Também não quer dizer que eu não tenha sido vítima de gente que se mostra amigo e na verdade usa essa máscara para tirar algum proveito ou manipular.

Ainda creio que muitos são de fato, inofensivos, confiáveis, cooperativos, que agem sem cobiça e sem malícia, sem caso pensado para o mal, a maledicência ou a maldade.

Essa semana pude ver o poder da sintonia entre pessoas inofensivas e generosas em um ato que na década de oitenta seria comum, mas que hoje não é.

Fui a um bairro muito distante por necessidade e com agendamento. Coloquei no aplicativo do carro para me levar até lá e esse mecanismo cibernético me conduziu para um lugar relativamente próximo ao destino, mas em um local mais ermo do que aquele que eu iria.

Antes de ir ao lugar pela primeira vez, eu conversei com os anjos e pedi que eles me guiassem. Seguindo o aplicativo, naquele momento perto do destino, eu fiquei perdida em um lugar que me deu medo.

Ainda assim, dentro do carro com o vidro abaixado, perguntei a uma mulher que estava do lado de fora de sua casa e ela simplesmente disse que o lugar era a umas três quadras dali e fechou a porta da garagem com rispidez. Mas o lugar era um caracol desordenado, não havia quadra definida e as ruas eram de chão batido, pedras soltas e muito lixo espalhado.

E para voltar? A rua era muito estreita e sem final. Mas, manobrei o carro o mais rápido que pude e nesse instante, quando levantei a vista, havia um senhorzinho em uma motocicleta bem simples e antiga, dessas que não era preciso ter placa. Ele estava vestido com um conjunto de blusa e bermuda em um azul da cor do manto de Nossa Senhora. Foi a primeira ideia que me chegou da imagem à minha frente.

Ele pareceu surgir do nada e olhava para mim com tanta compaixão que eu não consegui falar nada. Ele parecia ter ouvido o que perguntei à mulher, e à distância de uns três metros em que estava, olhando nos meus olhos, disse: “Eu lhe levo lá, me siga”.

E eu confiei porque li na assinatura de sua aura que eu não deveria ter medo e algo dentro de mim foi imperativo nesse sentido. Eu o segui, ele me tirou daquele labirinto e em alguns minutos eu estava exatamente na frente do lugar que eu precisaria estar. Só tive tempo de lhe agradecer, abençoá-lo e vê-lo sorrir para mim. Quando olhei de novo ele não estava mais lá. Sumiu!

Então, resolvi o que precisava, usei novamente o aplicativo e sai dali. Em cerca de quarenta minutos guiando o veículo, eu estava no ambiente que eu conheço, perto de casa.

Fui direto ao supermercado para comprar frutas, verduras e hortaliças. Depois, fui para casa. Mas o sorriso daquele senhorzinho e sua roupa da cor do manto de Nossa Senhora jamais sairão da minha memória. Interagimos por menos de dez minutos, mas nossa alma está na frequência da colaboração mútua e isso é indissolúvel. Estamos unidos por essa sintonia.

Desse episódio eu conclui que apesar de haver gente que não tenha escrúpulos e se aproveite dos outros, ainda há quem seja inofensivo, cordato, amável, gentil e que colabore sem segundas ou terceiras intenções, que seja humano, que seja suave, que agregue, que não espere nada em troca, que venha a agir gratuitamente, sem esperar absolutamente nada do outro.

Eu me lembro que semelhante à “Lei do Gérson”, houve uma campanha no sentido de que a cada ato gentil recebido, o beneficiado deveria promover três ações generosas, de modo a multiplicar boas ações com gratuidade, apenas pelo prazer de gerar o bem.

Quem sabe se isso não funciona novamente? Vamos tentar? Comigo tem funcionado. Por isso apareceu um anjo em forma de humano e me reconduziu para que eu pudesse chegar em casa sã e salva.

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